Por que a ESPECIALIZAÇÃO PRECOCE ainda é o centro das discussões no esporte?

30 de novembro de 2016 ● POR Karina Dias

Quando perpassamos pela análise do esporte na infância e adolescência uma das temáticas que merecem uma atenção especial é a Especialização Precoce (EP). Ainda nos dias atuais continua sendo uma temática controversa, com posições distintas entre alguns pesquisadores e, principalmente, pelos treinadores, que em muitos esportes defendem o início precoce e a introdução de treinamentos em regimes elevados sob a premissa de que se a criança e o adolescente não iniciarem em uma tenra idade, eles não atingirão os níveis de desempenho necessários para desempenho elevado. Será?

Partiremos de uma posição defendida por Bompa (2002):
“Elas (crianças e adolescentes) não são simplesmente adultos em miniatura. São singulares a cada etapa do desenvolvimento com diversas capacidades fisiológicas e psicológicas (às vezes bruscas) que ocorrem em cada estágio, acompanhadas por transformações comportamentais críticas.”

Em essência a ruptura que a especialização traz é tentar acelerar e antecipar as etapas, muitas vezes, a criança e o adolescente não estão com o seu desenvolvimento biopsicossocial em nível adequados para receber os estímulos do treinamento. Muitas das valências físicas terão seus períodos de latência e estarão aptas ao melhor desenvolvimento durante a adolescência e, portanto, frequentemente, os efeitos dessa antecipação nas fases de treinamento não serão assimilados. Em uma analogia é pegar uma adolescente do ensino fundamental II e colocá-lo para aprender Estatística Avançada ou Neurociência. A literatura é vasta em apontar que uma das consequências da EP é o abandono esportivo. Este aspecto pôde ser visualizado no estudo realizado por McClelland (2016) com atletas universitários americanos, os resultados indicaram que os atletas que tinham passado por um processo de especialização precoce são mais propensos a apresentar burnout e apresentarem índice mais elevado de lesões.

A preocupação com a temática fez com que em 2009, Cotê, Lidor e Hackford apresentassem 7 postulados para o desenvolvimento do esporte na juventude:
Postulado 1: A diversificação não prejudica a participação no esporte de elite e em esportes onde o pico de desempenho é atingido após a maturação.
Postulado 2: A diversificação está ligada a uma carreira desportiva mais longa e tem implicações positivas para o envolvimento desportivo a longo prazo.
Postulado 3: A diversificação permite a participação em uma variedade de contextos que afetam mais favoravelmente o desenvolvimento positivo da juventude.
Postulado 4: Grandes quantidades de jogo deliberado durante os anos de amostragem constroem uma base sólida de motivação intrínseca através do envolvimento em atividades que são agradáveis e promovem a regulação intrínseca.
Postulado 5: Uma quantidade elevada de jogo deliberado durante os anos de amostragem estabelece uma gama de experiências motoras e cognitivas que as crianças podem, em última instância, trazer ao seu principal esporte de interesse.
Postulado 6: Em torno do final da escola primária (cerca de 13 anos de idade), as crianças devem ter a oportunidade de escolher se especializar em seu esporte favorito ou continuar no esporte em um nível recreativo.
Postulado 7: Os adolescentes tardios (em torno dos 16 anos de idade) desenvolveram as habilidades físicas, cognitivas, sociais, emocionais e motoras necessárias para investir seu esforço em treinamento altamente especializado em um esporte.

Se há todos esses benefícios, se o desenvolvimento de estratégias com uma variedade elevada de ambientes e experimentações motoras não afetam negativamente o desempenho no alto rendimento, por que ainda há um número elevado de problemas decorrente? Infelizmente não há dados concretos e seguros de como a EP afeta o ambiente esportivo brasileiro, mas pode-se encontrar um dos motivos para ainda ser, perceptivamente, um recurso muito utilizado e uma incidência elevada de treinadores utilizarem um sistema buscando o imediatismo, e que nesse caso a EP é ponto central. Obviamente ela antecipa rendimento, que não se sustentam no tempo, mas garantem bons resultados no curto prazo. Estes aspectos foram tratados em um capítulo de livro (REBUSTINI; MACHADO; BRANDÃO, 2008), sobre as incongruências entre a busca do desenvolvimento esportivo de alto rendimento e o imediatismo, usualmente empregado no esporte que deveria ser de formação no Brasil.
Os resultados em uma das suas faces garantem empregos, “status” e alimentam um sistema viciado de reprodução sistemática de conquistar campeonatos na adolescência e ver, posteriormente, quase a maioria desses atletas não atingirem, em muitos casos, sequer a categoria juvenil, combalidos por lesões e sobrecargas psicossociais exacerbadas. Há uma outra face pouco explorada e que foi apontado em um outro artigo (REBUSTINI; MACHADO; BRANDÃO, 2005) em que apontamos que a especialização havia transposto os aspectos físico e técnicos, em que foi possível verificar que já havia indícios de uma especialização psicológica, que os atletas estavam sendo modelados psicologicamente para as posições em que atuavam, isto ainda na adolescência.
O que se tem num sistema de EP é exatamente picar, rasgar e, consequentemente, não aplicar os postulados de um planejamento de longo prazo que vise o desenvolvimento para a excelência das habilidade e qualidades do jovem atletas. Continuaremos a partir desse sistema de EP ouvindo sobre as jovens promessas, quem quase sua totalidade permanecem como promessas que não se tornam realidade.
Referências
CÔTÉ, J; LIDOR, R.; HACKFORT, D. ISSP position stand: To sample or to specialize? Seven postulates about youth sport activities that lead to continued participation and elite performance. International Journal of Sport and Exercise Psychology, v. 7, n. 1, p. 7-17, 2009.

McCLELLAND, J. J. Early Sport Specialization: Overuse Injury and Burnout. 2016.

REBUSTINI, F; MACHADO, A. A.; BRANDÃO, M. R. F. Imediatismo e performance: incongruências na formação do jovem atleta. Especialização Esportiva Precoce: perspectivas atuais da psicologia do esporte. Jundiaí: Fontoura, p. 67-83, 2008.

REBUSTINI, F.; MACHADO, A. A.; BRANDÃO, M. R. F. Estados de humor e posição de jogo em jovens voleibolistas: indícios da especialização psicológica precoce. Pesquisas em Educação Física, v. 3, n. 1, p. 86-89, 2005.

BOMPA, T. Treinamento total para jovens campeões. São Paulo: Manole, 2002

Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br