Além do Pilates: academia de Ana Moser vira referência para feras do vôlei

06 de dezembro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Primeiro veio a RPG. Mas o que conquistou mesmo Ana Moser foi o Pilates. E não sem motivo. Aos 16 anos, a atacante foi submetida a uma cirurgia para retirada do menisco do joelho esquerdo. Desde então, a atleta catarinense não conseguia esticar nem dobrar totalmente a perna. O Pilates, que ela conheceu aos 27 anos de idade, tornou possível que esses movimentos fossem executados.

A paixão pelo Pilates transbordou, e Ana Moser resolveu fazer o curso para aprender as técnicas. Em 2014, quando a vencedora atleta olímpica papou também o prêmio de R$ 1 milhão da primeira edição do programa Aprendiz Celebridades, ela não teve dúvidas sobre o destino da bufunfa: aplicou boa parte no projeto do Centro de Esportes, Cultura e Saúde Dois Andares, localizado no Morumbi, bem perto da ponte de idêntico nome.

O Dois Andares é obra de quatro mãos. Outro craque também assina a criação do projeto – ele atende pelo nome de Zé Elias. Não se trata de José Elias Moedim Júnior, conhecido como Zé da Fiel. É José Elias de Proença. Preparador físico da seleção brasileira feminina de vôlei desde 2003, ele é graduado em Educação Física pela Universidade de São Paulo e em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarulhos. É também mestre em Educação Física pela USP e doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela mesma universidade.

Zé Elias não é apenas um brilhante componente da comissão técnica comandada por José Roberto Guimarães, que conduziu a seleção feminina ao bicampeonato olímpico (2008-12). Em numerosas oportunidades, o simpático profissional deu entrevistas sobre as novidades que implementava nas atividades das jogadoras – foram muitas e curiosas. No time de Osasco, costumava oferecer caldo de cana às atletas, para lhes dar uma dose extra de glicose. Na seleção brasileira, planificava a preparação física de cada atleta levando em conta o ciclo menstrual de cada uma delas. Toda essa aplicação de conhecimento despertava e desperta a atenção dos jornalistas que sempre caçam matérias que vão além do lugar comum.

“Acho que o Zé Elias é o melhor preparador físico do mundo. Ele participa até de bancas acadêmicas de medicina, tamanho é o seu conhecimento”, reconhece Ana.

Devido a uma artrose, Ana sofreu bastante com dores em boa parte da reta final de sua carreira, sobretudo de 1997 a 99, anos em que defendeu o Dayvit, de Barueri, e a UNG (Universidade Guarulhos). Zé Elias, responsável pela preparação física de equipes adversárias, apresentou-se à atleta e se propôs a ajudá-la. Além de apresentar a Ana o RPG e o Pilates, técnicas pouco difundidas no Brasil dos anos 90, o profissional modificou a carga de treinamento da jogadora. As corridas pela quadra foram vetadas, bem como boa parte dos treinos com bola – afinal, já com um bronze olímpico (de 96) e um vice-campeonato mundial (94) no currículo, Ana já dominava seu ofício à perfeição.

“Fazia exercícios no colchão, trabalhava na piscina e na cama elástica”, recorda ela.

Reconhecida pela capacidade intelectual muito acima da média, Ana sempre gostou de estudar. No entanto, levou um bloqueio justamente de seu professor de vôlei no curso de Educação Física do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, em Santo Amaro. O educador reprovou a atleta por excesso de faltas, consequência de suas viagens para participação em competições.

Empreendedora, Ana e Zé bolaram o projeto da Dois Andares como subproduto do Instituto Esporte e Educação, situado no mesmo endereço. “A ideia é criar a cultura da prática motora. No IEE, captamos recursos privados para oferecer de graça capacitação para professores da rede pública”.

O acesso à Dois Andares não é gratuito. Mas isso não significa que o foco da academia seja o lucro – a mensalidade do plano anual mais básico, com duas atividades semanais, sai por R$ 120 – trata-se de um valor bem reduzido quando comparado ao de academias de grife.

O nível de atendimento é definido pela ex-atleta como “personal coletivo”: as atividades são feitas coletivamente, mas o nível de atenção dos professores à execução individual dos movimentos é extremo.

Embora beba da fonte do Pilates, o método Dois Andares, segundo Ana, vai além. “O Pilates tem sequência e estrutura metodológica. O que nos diferencia é que temos foco também na parte aeróbica e na coordenação motora. Nosso diferencial é a ambição do método, de ser mais completo”.

Por ora, existe apenas a matriz do Dois Andares. Mas a ideia é trabalhar com franquias e licenciamentos e ampliar o universo de pessoas atendidas – hoje são 180. A taxa de retenção dos inscritos, bastante elevada e incomum, situa-se na casa dos 90%.

A Dois Andares costuma também oferecer cursos. Os profissionais que desejem conhecer um método testado e aprovado por atletas de alto rendimento do vitorioso vôlei brasileiro podem procurar a academia. A lista de jogadoras que cruzou a ponte do Morumbi em busca de tratamento impressiona: Dani Lins, Natália, Fabiana Claudino (Fabizona), Tandara, Thaísa e Érika, entre outras. É comum a administração reservar dois sábados por mês para essas atividades.