André Heller usa Neurocoach em programa de vôlei de colégio

10 de dezembro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

O próprio André Heller reconhece: quem olha para o semblante desse ex-jogador de vôlei de 1,99m de altura, com cabelos loiros e traços germânicos, logo pensa que ele teve uma infância e adolescência das mais tranquilas. “Devem achar que fui criado pela avó, a leite com pera”. Nada mais falso. O gaúcho de Novo Hamburgo, campeão olímpico dos Jogos de Atenas, em 2004, ao lado de Escadinha, Ricardinho, Giba, Nalbert e outras feras, lembra-se de episódios dramáticos de seus anos de formação.

“Minha família morava num pequeno chalé de madeira, onde a escassez imperava. Lembro-me de minha mãe deixando de comer para que sobrasse alimentos para os filhos. Recordo-me também de vê-la ajoelhada, implorando para que dessem bolsas de estudo para seus filhos”.

Felizmente, as súplicas da genitora do medalhista olímpico foram atendidas, e ele pôde estudar no Instituto Evangélico de Novo Hamburgo (IENH). Curiosamente, André, que é asmático, era muito descoordenado, a ponto de não ser aceito para jogar no time de vôlei do colégio. Ele teve oportunidades de se desenvolver na modalidade na Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo. A família de André herdou um título patrimonial do avô do ex-jogador, este sim um homem de posses. Na casa do atleta, na dura batalha para pagar as contas, as fontes de renda eram o salário de motorista do pai dele e os rendimentos da mãe, que se dedicava a vender cosméticos da marca Avon de porta em porta.

Heller agradece até hoje às irmãs, ambas professoras: Sabrine, que leciona no próprio IENH, e Corine, que trabalha no Pio XII. As duas se incumbiam de comprar tênis e joelheiras para o irmão mais novo ao longo da adolescência dele. Em troca, ele palestrava para os alunos, mostrando seu exemplo de desportista. O resto da história é relativamente conhecido pelos fãs mais atentos do vôlei nacional. A Sociedade Ginástica recebeu o patrocínio do então poderoso frigorífico Frangosul e obteve vaga na Superliga. Com excelente impulsão e boa técnica de bloqueio, o concentrado jogador desenvolveu uma eficiência que encobria suas limitações técnicas. As convocações para a seleção brasileira infanto-juvenil e as boas atuações pelo clube mostraram ao País que o Sul formara mais um meio-de-rede competente.

Hoje aposentado, Heller (pronuncia-se Hêller, com o som do ê fechado), aos 43 anos de idade, exerce o cargo de coordenador técnico do Vôlei Renata, de Campinas, atual vice-campeão paulista. Além de desenvolver algumas outras atividades como empresário, o empreendedor gaúcho dedica horas valiosas de seu tempo ao programa de voleibol André Heller. Mas o que seria isso?

Ao lado da esposa Marcelle (reconhecida como a melhor levantadora do Mundial da Alemanha, em 2002), Heller desenvolveu um método que bebe da disciplina positiva, que procura aumentar os níveis de adesão e fidelização das crianças, e técnicas de neurocoaching (ele é formado pela Neuroleadership Institute Brazil).

A empresa tem apenas um cliente no momento: o Liceu Salesiano de Campinas, que se tornou famoso nacionalmente por ter servido como cenário da série Sandy & Júnior, da TV Globo, no final dos anos 90 e início da década seguinte.

“Sessenta crianças estão aprendendo a jogar vôlei com nosso método. É uma atividade muito gratificante para mim. Temos alguns paradigmas que queremos quebrar. O principal deles é a percepção de que o vôlei é um esporte difícil de ser praticado. Nosso desafio é ampliar o repertório motor das crianças, trabalhar aspectos do domínio cognitivo e desenvolver atributos importantes para o domínio afetivo/social”, diz André, que é profissional de Educação Física da categoria provisionado.

Empolgado com o projeto, o campeão mundial (2006) e dono de seis títulos da Liga Mundial se entusiasma com as novidades de que lança mão para manter as crianças e adolescentes cada vez mais interessados no esporte. “A gente promove jogos em que eles vão fantasiados, por exemplo. Fazemos torneios também com participação de times formados por estudantes da rede pública. Às vezes conseguimos parcerias com marcas como a Sorvetes Rochinha, que nos ofertaram gratuitamente seus produtos. Há dias em que as crianças apenas jogam, sem fazer treino físico ou de fundamentos antes. Promovemos diversas atividades com o fim de que elas realmente amem o jogo. E temos conseguido: reduzimos índices de obesidade e melhoramos a autoestima de muitos de nossos alunos”.

O empresário hoje emprega um coordenador pedagógico, Marcelo de Castro, que é formado pela Universidade Federal de Lavras (MG). O desejo de André é replicar a experiência do projeto do Liceu, que é piloto, em outras instituições escolares pelo país afora. Quem conhece a história do central não duvida que ele seja capaz de superar mais esse desafio.