As barreiras enfrentadas por treinadoras brasileiras

17 de outubro de 2018 ● POR Redação

A última edição dos Jogos Olímpicos, ocorrida em Londres em 2012, protagonizou discursos que celebravam a maior participação feminina da história do megaevento: 44% dos/as atletas participantes eram mulheres, sendo que todos os países enviaram representantes do sexo feminino, um fato inédito. Se a ampliação da participação feminina nos megaeventos é, sem dúvida, digna de comemoração, é necessário lembrar que algumas expectativas baseadas no gênero se mantém vivas no universo do esporte, e que as condições de acesso e permanência de mulheres em boa parte das práticas corporais e esportivas ainda estão aquém das encontradas pelos homens, o que se evidencia nas menores oportunidades de prática, visibilidade conferida pela mídia, prêmios atribuídos aos vencedores de competições, entre outros. Na arbitragem, na mídia, na gestão de clubes, federações e confederações ou no treinamento de atletas e equipes, evidencia-se que a presença feminina é ainda muito baixa, tanto no contexto nacional como no internacional.

Este estudo tem como objeto uma dessas funções nas quais as mulheres se encontram subrepresentadas: a de treinadora esportiva. A atual realidade da carreira de treinadora esportiva pode ser didaticamente analisada a partir de mudanças e interações entre três relações: mulher e trabalho, mulher e família e, mulher e esporte. As relações das mulheres com o mercado de trabalho nos fornecem apontamentos para compreender o processo de naturalização de uma divisão sexual dos cargos no contexto esportivo. Segundo Perrot, o século XIX levou a divisão das tarefas e a segregação sexual dos espaços ao seu ponto mais alto. Cada sexo tem sua função, seus papéis, seus espaços. Definiu-se que o lugar das mulheres era o espaço da vida privada. Nesse período, ser dona de casa era a condição da maioria das mulheres. Com a entrada das mulheres para o mercado de trabalho, após as duas grandes guerras mundiais, essa realidade foi se modificando.

No Brasil, durante o processo de industrialização iniciado na década de 1940, um grande número de mulheres foi absorvido como força de trabalho, principalmente nas indústrias de fiação e tecelagem. Esse ingresso no mundo do trabalho assalariado, entendido como espaço masculino, envolveu barreiras desde a diferença salarial até a intimidação física, a desqualificação intelectual e o assédio sexual. Na divisão do trabalho, as mulheres executavam as tarefas menos especializadas e mal remuneradas, enquanto os cargos de chefia cabiam aos homens. Há que se considerar também a relação das mulheres com a família.

Historicamente, a maternidade foi tida pela sociedade como a função central das mulheres. Assim, seguindo uma lógica conservadora, sexista e heteronormativa, há uma expectativa social de que a carreira das mulheres seja planejada de forma a não prejudicar sua dedicação ao lar, fazendo com que elas optem pelo cuidado com os filhos e a família em detrimento de uma vida profissional. Com relação às práticas esportivas, a inserção das mulheres brasileiras acontece de forma notável a partir do século XX. Esse ingresso está relacionado a uma mudança mais ampla dos hábitos de lazer da população a partir de uma crescente urbanização, processo que influenciou na potencialização da circulação na cidade e na multiplicação das opções públicas de divertimento.

Também cabe destacar que o interesse nacional em se alinhar aos costumes europeus demandava às mulheres novos cuidados com a aparência e a saúde, e maior presença na vida social das cidades. Esse movimento de mudança, contudo, não se fez sem conflitos. A herança colonial, de encontro com o devir moderno, criava duas exigências complementares e contrapostas: “a permanência da mulher no lar porque mãe e guardiã dos valores morais da família e a sua fluência na rua porque integrante de uma cidade que principiava a oferecer extraordinárias novidades de consumo e diversão” (p. 92). Assim, a apropriação do espaço esportivo por mulheres se fez de forma lenta e gradativa, iniciando-se por modalidades cujo imaginário não era tão vinculado à masculinidade hegemônica , como turfe, ciclismo, atletismo e natação3.

É necessário fazer a ressalva de que, ainda que a prática de atividades físico-desportivas por mulheres no início do século XX pudesse ser um sinal de conquista de autonomia, seria frágil considerá-la de todo emancipatória. Isso, pois, se por um lado ela produzia uma maior circulação e participação das mulheres em espaços públicos, por outro, tais atividades reforçavam concepções dominantes sobre a feminilidade, ligadas à beleza, à graciosidade e, sobretudo, à maternidade. Sinal de que a inserção feminina das atividades físico-esportivas ocorreu em meio a disputas é o fato de que em 1941 foi sancionado pelo Conselho Nacional de Desportos um Decreto-lei que impedia a participação de mulheres em determinadas modalidades como lutas, boxe, salto com vara, salto triplo, decatlo, futebol, rúgbi, polo e polo aquático. Tal aparato legal manteve-se vigente até o ano 1979. Ainda que essa regulamentação não impusesse qualquer restrição quanto à participação de mulheres em outras funções esportivas – como árbitras, dirigentes e treinadoras, ela contribuiu com a reafirmação da ideia de que o esporte não é um território de livre circulação das mulheres.

Inserido nesse contexto multifacetado, a partir do problema da baixa representatividade de mulheres no comando esportivo, este estudo teve como principal objetivo identificar e analisar as barreiras encontradas por treinadoras brasileiras em sua atuação profissional.

Resumo
No Brasil, a representatividade de mulheres como treinadoras esportivas é muito baixa. Diante desse cenário, este estudo teve como objetivo identificar e analisar as barreiras encontradas por treinadoras brasileiras em sua carreira. As participantes da pesquisa foram treze técnicas esportivas de oito modalidades. O método empregado foi a análise de conteúdo proposta por Bardin. A produção de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas. As principais barreiras identificadas foram a apropriação majoritária do espaço pelos homens, o preconceito, o conflito entre vida pessoal e a vida profissional, e a baixa remuneração. Concluiu-se que as treinadoras enfrentam muitas dificuldades, as quais limitam a presença de mulheres no comando esportivo brasileiro.

Para acessar o estudo na íntegra, clique aqui.

Autores: Heidi Jancer FERREIRA; Luiza Aguiar dos ANJOS; Alexandre Janotta DRIGO; Ludmila Nunes MOURÃO; José Geraldo do Carmo SALLES.
Publicação: Rev Bras Educ Fís Esporte, (São Paulo) 2017 Abr-Jun; 31(2):479-88