PESO x APTIDÃO FÍSICA: qual é o mais importante?

16 de janeiro de 2017 ● POR Pedro Cunácia

Por: Bruno Smirmaul
O sobrepeso e a obesidade, caracterizados pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, são reconhecidos fatores de risco para diversas doenças crônicas não-transmissíveis, como as doenças cardiovasculares, diabetes, diversos tipos de câncer, dentre outras (WHO, 2016).
Um recente estudo com mais de 19 milhões de pessoas em todo o mundo demonstrou um rápido e preocupante aumento na prevalência de obesidade entre os anos de 1975 e 2014, indo de 3,2% para 10,8% entre os homens, e de 6,4% para 14,9% entre as mulheres (
NCD Risk Factor Collaboration, 2016). Atualmente, mais de 1,9 bilhões (38%) de adultos no mundo apresentam sobrepeso, enquanto mais de 600 milhões (13%) são obesos (WHO, 2016).
No Brasil, o sobrepeso já atinge 56,9% da população adulta, enquanto a obesidade atinge 20,8% das pessoas (
BRASIL, 2015).
Além das doenças crônicas, o sobrepeso e a obesidade estão associados a um problema ainda mais impactante, o aumento do risco de mortalidade.
O maior estudo até o momento investigando essa relação envolveu uma meta-análise com cerca de 4 milhões de pessoas, que foram acompanhadas, em média, por 14 anos (
Global BMI Mortality Collaboration, 2016). Nesse período, mais de 385 mil pessoas morreram. Os resultados demonstraram que, em comparação com o grupo referência (índice de massa corporal [IMC] entre 22,5 a 25 kg/m2), todos as outras categorias de IMC apresentaram um elevado risco de mortalidade, exceto a categoria de IMC entre 20 a 22,5 kg/m2 (ver figura abaixo).
Interpretando a figura, observamos que os indivíduos com IMC entre 30 e 35 kg/m
2, por exemplo, apresentaram 1,5 vezes (ou 50%) maior chance de morrer no período de 14 anos em comparação ao grupo referência. Do mesmo modo, as pessoas com IMC entre 35 e 40 kg/m2 e entre 40 e 45 kg/m2 apresentaram, respectivamente, 1,9 (90%) e 2,8 (180%) vezes maior chance de mortalidade nesse período.

16118723_10153571155492706_183644468_n

Adaptado de
Global BMI Mortality Collaboration (2016).
Tais conhecimentos sobre os malefícios do sobrepeso/obesidade levam a um quadro em que a maioria da população está insatisfeita com o seu corpo e deseja reduzir o seu peso corporal (Yaemsiri et al, 2011; Coelho et al, 2015).
Apesar de saber que tal desejo também está relacionado com diversos outros fatores sociais e culturais, quando consideramos apenas os aspectos de saúde, qual objetivo seria o mais importante: perder peso/gordura ou melhorar a aptidão física?
Nos últimos anos, diversas revisões narrativas têm sugerido que o nível de aptidão física (principalmente a aptidão cardiorrespiratória) seria um fator mais relevante para a mortalidade e para a saúde em geral do que o peso/gordura corporal ou o nível de sobrepeso/obesidade (Pedersen, 2007; Hainer et al, 2009; Fogelholm 2010).
Para aprofundar o conhecimento sobre esse tema, uma meta-análise quantificou a associação conjunta da aptidão cardiorrespiratória e do IMC na mortalidade por todas as causas (Barry et al, 2014). No total, 10 estudos foram incluídos, em que aproximadamente 93 mil pessoas foram acompanhadas por cerca de 12 anos, com um total de 6.663 mortes no período. Os indivíduos com peso normal e moderada/boa aptidão cardiorrespiratória foram estabelecidos como o grupo referência para as comparações (valor 1,0 na figura abaixo).
Os resultados demonstraram que, para todos os níveis de IMC (peso normal, sobrepeso ou obesidade), os indivíduos que possuíam baixa aptidão cardiorrespiratória tiveram cerca de 2 vezes mais chance de morrer no período estudado. Por outro lado, os indivíduos que possuíam moderada/boa aptidão cardiorrespiratória não tiveram o risco de mortalidade alterado, mesmo quando apresentavam sobrepeso ou obesidade (
Barry et al, 2014; Gaesser et al, 2015).
Tais resultados continuam sendo corroborados por recentes estudos individuais como, por exemplo, um envolvendo cerca de 30 mil pessoas (
McAuley et al, 2016) e outro com cerca de 17 mil pessoas pré-diabéticas (McAuley et al, 2014).

16118460_10153571155842706_759844758_n
Uma importante limitação da meta-análise acima mencionada é a utilização apenas do IMC, que não é uma medida tão apropriada da gordura corporal. Porém, estudos muito similares, utilizando-se de medidas mais específicas como a circunferência de cintura, relação cintura-quadril, relação cintura-altura e gordura corporal em si, tanto em conjunto ou separadamente, têm demonstrado resultados similares, ou seja, que uma moderada/boa aptidão cardiorrespiratória elimina o elevado risco de mortalidade prematura associado ao sobrepeso/obesidade (Farrell et al, 2010; Farrell et al, 2014; McAuley et al, 2014).
Assim como para a mortalidade, recentes evidências também têm demonstrado a importância de uma moderada/boa aptidão física/cardiorrespiratória para outros importantes aspectos da saúde, como a pressão arterial, níveis de colesterol e saúde cardiovascular em geral, independentemente do peso/gordura corporal (Després 2015; Gaesser et al, 2015; Ross et al, 2015).
Especificamente em relação ao desenvolvimento de diabetes tipo 2, as atuais evidências são controversas, com alguns estudos indicando uma maior importância para a aptidão física (Crump et al, 2016; Katzmarzyk 2016), e outros para o peso/gordura corporal (Fogelholm 2010; Nguyen et al, in press).
Além disso, a Associação Americana do Coração publicou um posicionamento em 2016 enfatizando a necessidade da avaliação clínica da aptidão cardiorrespiratória, além das tradicionais avaliações de tabagismo, hipertensão, colesterol e glicemia, devido a sua importante relação com a mortalidade e doenças cardiovasculares (American Heart Association, 2016).
Vale lembrar que não abordamos todos os possíveis problemas relacionados ao sobrepeso/obesidade como, por exemplo, as desordens musculoesqueléticas. Ainda, a perda de peso/gordura, por si só, também pode trazer diversos benefícios à saúde (Kramer, 2015), assim como uma alimentação saudável.
Porém, as evidências aqui apresentadas indicam que, independentemente do peso/gordura corporal e da sua eventual redução, uma maior preocupação com a aptidão física (em especial a aptidão cardiorrespiratória) parece ser um objetivo mais importante quando a preocupação é a saúde em geral.

RECOMENDAÇÕES BASEADAS EM EVIDÊNCIAS
1)
A redução do peso/gordura corporal é um objetivo muito visado por profissionais da saúde e pela população em geral, uma vez que é um importante fator de risco para mortalidade e diversas doenças crônicas.
2) Porém, diversas evidências demonstram que possuir uma moderada/boa aptidão física (em especial a aptidão cardiorrespiratória), independentemente do peso/gordura corporal, parece ser mais importante para diversos aspectos da saúde, como pressão arterial, níveis de colesterol, saúde cardiovascular em geral e, principalmente e mais relevante, para a mortalidade.
Bruno Smirmaul é doutor em atividade e saúde, professor universitário, fundador e autor principal do site “EFBE – Educação Física Baseada em Evidências”.
REFERÊNCIAS:
American Heart Association. Importance of Assessing Cardiorespiratory Fitness in Clinical Practice: A Case for Fitness as a Clinical Vital Sign: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2016 Nov 21. [In Press] [link]
Barry VW, Baruth M, Beets MW, Durstine JL, Liu J, Blair SN. Fitness vs. fatness on all-cause mortality: a meta-analysis. Prog Cardiovasc Dis. 2014 Jan-Feb;56(4):382-90. [link]
Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Pesquisa Nacional de Saúde: 2013. Ciclos de Vida. Brasil e grandes regiões. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 2015. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv94522.pdf. Acessado em 2016 (Dez 19). [link]
Coelho CG, Giatti L, Molina MD, Nunes MA, Barreto SM. Body Image and Nutritional Status Are Associated with Physical Activity in Men and Women: The ELSA-Brasil Study. Int J Environ Res Public Health. 2015 May 29;12(6):6179-96. [link]
Crump C, Sundquist J, Winkleby MA, Sieh W, Sundquist K. Physical Fitness Among Swedish Military Conscripts and Long-Term Risk for Type 2 Diabetes Mellitus: A Cohort Study. Ann Intern Med. 2016 May 3;164(9):577-84. [link]
Després JP. Obesity and cardiovascular disease: weight loss is not the only target. Can J Cardiol. 2015 Feb;31(2):216-22. [link]
Farrell SW, Fitzgerald SJ, McAuley PA, Barlow CE. Cardiorespiratory fitness, adiposity, and all-cause mortality in women. Med Sci Sports Exerc. 2010 Nov;42(11):2006-12. [link]
Farrell SW, Finley CE, Jackson AW, Vega GL, Morrow JR Jr. Association of multiple adiposity exposures and cardiorespiratory fitness with all-cause mortality in men: the Cooper Center Longitudinal Study. Mayo Clin Proc. 2014 Jun;89(6):772-80. [link]
Fogelholm M. Physical activity, fitness and fatness: relations to mortality, morbidity and disease risk factors. A systematic review. Obes Rev. 2010 Mar;11(3):202-21. [link]
Gaesser GA, Tucker WJ, Jarrett CL, Angadi SS. Fitness versus Fatness: Which Influences Health and Mortality Risk the Most? Curr Sports Med Rep. 2015 Jul-Aug;14(4):327-32. [link]
Global BMI Mortality Collaboration. Body-mass index and all-cause mortality: individual-participant-data meta-analysis of 239 prospective studies in four continents. Lancet. 2016 Aug 20;388(10046):776-86. [link]
Hainer V, Toplak H, Stich V. Fat or Fit: What Is More Important? Diabetes Care. 2009 Nov; 32(Suppl 2): S392–S397. [link]
Katzmarzyk PT. Physical Fitness and Risk for Type 2 Diabetes Mellitus: Reducing Risk at Any Weight. Ann Intern Med. 2016 May 3;164(9):620-1. [link]
Kramer CK. Weight loss is a useful therapeutic objective. Can J Cardiol. 2015 Feb;31(2):211-5. [link]
McAuley PA, Artero EG, Sui X, Lavie CJ, Almeida MJ, Blair SN. Fitness, fatness, and survival in adults with prediabetes. Diabetes Care. 2014 Feb;37(2):529-36. [link]
McAuley PA, Blaha MJ, Keteyian SJ et al. Fitness, Fatness, and Mortality: The FIT (Henry Ford Exercise Testing) Project. Am J Med. 2016 Sep;129(9):960-965.e1. [link]
NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC). Trends in adult body-mass index in 200 countries from 1975 to 2014: a pooled analysis of 1698 population-based measurement studies with 19·2 million participants. Lancet 2016 Apr 2;387(10026):1377–96. [link]
Nguyen B, Bauman A, Ding D. Incident Type 2 Diabetes in a Large Australian Cohort Study: Does Physical Activity or Sitting Time Alter the Risk Associated With Body Mass Index? J Phys Act Health. 2016 Sep 6:1-21. [In Press] [link]
Pedersen BK. Body mass index-independent effect of fitness and physical activity for all-cause mortality. Scand J Med Sci Sports. 2007 Jun;17(3):196-204. [link]
Ross R, Blair S, de Lannoy L, Després JP, Lavie CJ. Changing the endpoints for determining effective obesity management. Prog Cardiovasc Dis. 2015 Jan-Feb;57(4):330-6. [link]
Yaemsiri S, Slining MM, Agarwal SK. Perceived weight status, overweight diagnosis, and weight control among US adults: the NHANES 2003-2008 Study. Int J Obes (Lond). 2011 Aug;35(8):1063-70. [link]
WHO. Obesity and overweight. Fact sheet N°311. Geneva: World Health Organization, June 2016. [link]
Texto originalmente publicado em www.efbe.com.br