Comissão técnica e Estresse: como essa relação afeta o desempenho dos atletas

16 de setembro de 2019 ● POR Letícia Capuruço

Diversos autores discorreram sobre os fatores psicológicos que influenciam no desempenho esportivo dos atletas de alto rendimento. Dos principais, Judadov (1990) diz que a preparação psicológica esportiva influencia a performance consistindo em contribuir para o aperfeiçoamento dos processos psíquicos, formando qualidades na personalidade do esportista, criando ótimos aspectos psicológicos durante a competição e os treinamentos como o controle de ansiedade, percepção e motivação, além de desenvolver a cognição e aspectos  treinadores do esporte em questão. Todos esses fatores englobados contribuem para uma atmosfera psicológica positiva. Segundo Figueiredo (2000), os principais aspectos psicológicos influenciadores da performance esportiva são a concentração, a motivação, a emoção e o estresse. Santos e Shigunov (2000) entendem que a preparação psicológica esportiva é essencial no crescimento pessoal e no desenvolvimento positivos de fatores influentes na performance.

Por outro lado poucas pesquisas procuraram estudar a relação entre estresse e desempenho da comissão técnica de equipes de alta performance. A comissão técnica trabalha inserida em um ambiente complexo e em constante mudança que impõe diversas pressões sobre eles.

Definimos comissão técnica como os profissionais que trabalham fora do campo planejando e executando atividades que visam alcançar determinado objetivo. São membros da comissão técnica: técnico, auxiliar técnico, preparador físico, fisioterapeuta, psicólogo, massagista, nutricionista, entre outros.

É sabido que os comportamentos dos treinadores é determinantes para o bem-estar psicológico, aprendizagem e rendimento dos atletas e que suas ações tem forte impacto sobre o comportamento dos atletas e a cognição e resposta afetiva de jogadores . Segundo Cushion (2010) as ações dos técnicos têm um impacto significativo sobre os comportamentos, cognições e respostas afetivas de jogadores e influenciam diretamente a aprendizagem e resultados obtidos.

Um estudo de Dias, Cruz e Fonseca (2010) demostra que além da ansiedade outras emoções, positivas e negativas, parecem influenciar o desempenho dos treinadores.  Ainda Segundo os autores  as principais fontes de estresse dos treinadores de alto nível estão relacionadas a preocupações com o desempenho dos atletas. Este mesmo estudo enfatizou a importância de fornecer o apoio psicológico não somente aos atletas  mas também à população de treinadores.

No artigo “Exploring athletes’ perceptions of coach stress in elite sport environments” (THELWELL et al., 2016 )  os autores afirmam que os atletas são capazes de detectar quando um treinador esta passando por estresse.  Apesar de alguns efeitos positivos do treinador com estresse sobre a equipe, a maioria das respostas dos atletas foi uma performance negativa.  Esta queda pode ser vista através de uma variedade de influências pessoais no atleta, efeitos no treinamento geral e no clima de treinamento . Os atletas também tiveram uma ampla visão de que os treinadores foram menos eficazes quando estressados, e isso se refletiu nas expectativas de desempenho, percepções de competência e falta de consciência dos atletas.

Pesquisas que buscam investigar os mecanismos e resultados psicológicos relacionados ao estresse em treinadores foram fortemente tendenciosas para o fenômeno conhecido como burnout. Maslach e Jackson (1981) definiram burnout como reduzido senso de realização esportiva, exaustão física e emocional e despersonalização

Uma pesquisa conduzida em 2010 por Tashman, Tenenbaum  e Eklund examinou os efeitos do estresse percebido (PS) na relação entre formas adaptativas e mal-adaptativas de perfeccionismo e burnout em treinadores . Os resultados indicaram que há um efeito indireto da auto avaliação de perfeccionismo (isto é, forma mal-adaptativa de perfeccionismo) no burnout t através de PS (estresse percebido ) , bem como um link direto significativo para burnout, respondendo por 56% de sua variação. É interessante observar que a forma desadaptativa do perfeccionismo contribuiu para o burnout, enquanto a forma adaptativa não o fez, mas foi significativamente associado com a forma mal-adaptativa.  

Uma pesquisa de Fletcher e Scott (2009) demonstrou de que os potenciais custos de saúde e especialmente de estresse psicológico para treinadores esportivos são significativos. Não é difícil reconhecer  que a experiência de estresse em treinos e/ou competição pode ter um impacto negativo nos atletas e demais membros da comissão técnica.

Em pesquisa conduzida por Olusoga et all. (2009 ) os autores apresentaram uma gama de fatores estressantes experienciados pelos treinadores, tais como conflito, pressão e expectativa, preocupações dos e com os atletas, preparação para competição, isolamento. Os conflitos dentro da própria organização em que atuam surgiu como um tema chave, indicando que as habilidades de comunicação podem ser de extrema importância para ajudar os treinadores a funcionar eficazmente como parte de uma organização mais ampla. Os resultados desta pesquisa também destacam a importância do treinamento de habilidades psicológicas para ajudá-los a lidar com as diversas demandas de treinamento e preparação de atletas .

As técnicas de gerenciamento de estresse devem estar disponíveis para aqueles treinadores que ainda não possuem estratégias relevantes para limitar seu estresse. A ajuda psicológica disponível para atletas deve ser aplicável a treinadores, na tentativa de lidar com as exigências impostas a ele. Esta ajuda psicológica pode ajudar a reduzir o desgaste dos membros da comissão técnica.

Técnicas de intervenção realizadas junto aos treinadores podem ser muito benéficas. Isso pode incluir orientação formal, incentivando os treinadores a falar sobre as suas dificuldades e limitações . Além de se encontrar e se reconhecer em  outros treinadores esportivos e membros da comissão técnica, a oportunidade de compartilhar experiências e melhores práticas pode ser extremamente favorável.

No alto rendimento treinadores e comissões técnicas  que desenvolveram suas próprias habilidades psicológicas e de liderança são os mais qualificados para ensinar aos seus atletas as habilidades psicológicas que podem melhorar suas performances. Devemos considerar que o comportamento verbal e não-verbal da comissão técnica é uma forma de intervenção, exercendo, assim uma influência sobre o atleta.


Concluímos que os comportamentos dos técnicos são determinantes para o bem-estar psicológico, aprendizagem e rendimento dos atletas. Deve ser uma prioridade que a comissão técnica estejam equipada com as habilidades e estratégias corretas para melhor gerenciar os desafios de seus trabalhos.

Letícia Capuruço – Psicóloga clinica, Psicóloga do CTE – UFMG . Especialista em Gestão de Pessoas pela Newton Paiva e Especialista em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio

Referências

Cushion, C. (2010). Coach behavior. In. J. Lyle & C. J. Cushion (Eds.), Sports coaching professionalization and practice (pp. 243–253). London: Elsevier.

David Fletcher & Michael Scott (2010) Psychological estressein sports coaches: A review of concepts,

DIAS, C.; CRUZ, J. F.; FONSECA, A. M. Emoções, “stress”, ansiedade e “coping”: estudo qualitativo com treinadores de nível internacional. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 24, n. 3, p. 331-342, jul./set. 2010.

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FIGUEIREDO, S. H. Variáveis que interferem no desempenho do atleta de alto rendimento. Em: RUBIO, K. Psicologia do esporte: Interface, Pesquisa e intervenção. São Paulo: Casa do Psicológo, 2000

JUDADOV. N. Fundamentos da preparação psicológica do esportista. São Paulo: Editorial Planeta, 1990.

Lauren S. Tashman , Gershon Tenenbaum & Robert Eklund (2010) The effect of perceived estresseon the relationship between perfectionism and burnout in coaches, Anxiety, Stress,& Coping: An International Journal, 23:2, 195-212, DOI: 10.1080/10615800802629922

Maslach, C. (1976). Burned-out. Human Behavior, 5, 16–22.

Maslach, C., & Jackson, S. E. (1981). Maslach burnout inventory: manual. Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press.

MASLACH, C.; JACKSON, S. The measurement of experienced burnout. Journal of occupational behaviour, Hoboken, v. 2, p. 99-113, 1981.

Peter Olusoga , Joanne Butt , Kate Hays & Ian Maynard (2009) Estressein Elite research, and practice, Journal of Sports Sciences, 28:2, 127-137, DOI: 10.1080/02640410903406208

Richard C. Thelwell, Christopher R. D. Wagstaff, Adam Rayner, Michael Chapman & Jamie Barker (2016): Exploring athletes’ perceptions of coach estressein elite sportenvironments, Journal of Sports Sciences, DOI: 10.1080/02640414.2016.1154979

SANTOS. S., SHIGUNOV. V. Suporte psicológico ao atleta: uma necessidade “teórica” que precisa ser aplicada. Tese pela Universidade Federal de Santa Catarina, 2000.

Sports Coaching: Identifying Stressors, Journal of Applied Sport Psychology, 21:4, 442-459