Conceição Geremias: “Ao estudar Educação Física, percebi que não era um fenômeno”

06 de janeiro de 2020 ● POR Alessandro Lucchetti

A heptatleta campineira, ouro no Pan de 83, começou a desenvolver virtudes atléticas trabalhando com a enxada e correndo morro acima até a escola

O nome Conceição Geremias soa ao menos familiar para quem acompanha o atletismo, mesmo entre os mais jovens. E não é sem motivo. Ela se consagrou ao conquistar a medalha de ouro no heptatlo nos Jogos Pan-Americanos de Caracas, em 1983. Para se ter uma noção da dimensão histórica do feito, cabe lembrar que o atletismo brasileiro tinha enormes dificuldades para pisar no mais alto degrau do pódio do Pan, cuja edição inaugural ocorreu em 1951. Antes daquela competição na Venezuela, apenas Adhemar Ferreira da Silva e João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, haviam alcançado a façanha. Em Caracas, Conceição, Esmeralda de Jesus (100m rasos) e Agberto Guimarães (800m e 1500m) conquistaram o primeiro lugar.

Quarta colocada no ranking pan-americano às vésperas dos Jogos, a heptatleta foi se superando a cada prova. Na última das sete, os 800m, desmaiou de cansaço, sendo retirada da pista pelos médicos. O esforço foi premiado: a campineira concluiu a prova com 6084 pontos, apenas 16 à frente da norte-americana Cindy Greiner que, no ano seguinte, obteria a quarta posição nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

A imagem foi exibida à exaustão pela TV na época. Conceição só foi ter noção do que havia feito ao desembarcar no aeroporto de Congonhas. “Para mim o Pan era pouco mais do que um Sul-Americano, no qual eu havia competido 11 vezes e vencido dez. Mas, vendo o oba-oba, percebi que era bem diferente. Minha mãe passou mal quando ouviu a notícia da minha vitória no rádio. Com a pressão alta, ela foi até a Igreja do Carmo, pediu a Deus para que não a deixasse morrer e seguiu para o Hospital da Beneficência Portuguesa. Lá chegando, disse que estava passando mal porque a filha havia conquistado o ouro no Pan. Decerto acharam que aquela velhinha estava delirando, mas, quando viram pela TV que era verdade, recebeu tratamento vip no hospital”, narra Conceição, com um sorriso no rosto.

Se Conceição é, até hoje, uma figura muito admirada do atletismo brasileiro, poucos saberiam dizer quem foi Cleide Aparecida Albrecht Ribeiro. Trata-se da professora de Educação Física que “descobriu” as aptidões da atleta, na Escola Estadual Artur Segurado, no Jardim Brasil, bairro situado em região mais centralizada de Campinas. Cleide era uma daquelas professoras inquietas. Na definição de sua aluna mais famosa, “ela não era do tipo que rolava uma bola e deixava as crianças se virarem”. Uma rua de terra ao lado da escola era transformada em pista; uma casa em construção cedia a areia sobre a qual era praticado o salto em distância. “A gente saltava e depois amontoava a areia direitinho, para deixá-la em seu lugar”, recorda a atleta.

Destacada nas aulas de Educação Física, Conceição foi chamada para o Campeonato Colegial, competição que faz falta no calendário escolar. No dia do Desporto Amador de 1970, Conceição, então com 14 anos, venceu os 100m rasos, o salto em distância, salto em altura e arremesso de peso. Era uma heptatleta em construção.

Poucos anos depois, ela disputou seu primeiro Sul-Americano adulto, em Lima, antes mesmo de participar do Sul-Americano juvenil. Sem ter completado 16 anos, ficou em quarto lugar no salto em distância, a dois centímetros da marca obtida pela medalhista de bronze. No Sul-Americano de sua categoria de idade, no Paraguai, registrou o recorde sul-americano juvenil da prova. Na mesma competição, João do Pulo fez o mesmo, no salto triplo.

Performances tão destacadas em tantas provas, antes mesmo da idade adulta, receberam uma “explicação” simplificadora e pra lá de insuficiente da imprensa esportiva, sempre muito mais dedicada à cobertura do futebol: Conceição seria um “fenômeno”. “Quando fui estudar Educação Física (na PUC de Campinas) e tive aulas de fisiologia, passei a me entender melhor. Minha família vivia na roça. Uma enxada pesa mais de um quilo, e eu trabalhava com ela. Cultivávamos arroz, feijão, milho, alface, cenoura, mandioca, batata doce…Nossa alimentação era de primeira. Saltávamos sobre córregos. Corria atrás de galinhas e afugentava cavalos que poderiam pisotear nossos cultivos. Eu fazia um monte de movimentos naturais diários…além disso, ainda jogava futebol com os meninos. Não gostava muito de brincar de casinha ou de bonecas. E a Fazenda Santa Elisa (sede hoje do Instituto Agronômico) ficava a quatro quilômetros, morro acima, da escola onde estudava. Meu pai liberava a gente em cima da hora, e eu e meus irmãos tínhamos que correr diariamente pra chegar na hora. Com tudo isso, acho que estava predestinada a ser atleta”, conta Conceição.

Até hoje, momento em que se encontra com 63 anos de idade, Conceição é uma entusiasmada praticante de esportes. Já faturou títulos em 13 Mundiais Masters de atletismo, agora tendo o arremesso de peso como prova principal. Ademais, joga vôlei sentado no ginásio Taquaral, o mesmo que recebe os jogos do Vôlei Renata, equipe que representa Campinas na Superliga. O envolvimento com o esporte não para por aí: Conceição é presidente da ONG Acecamp (Associação Cultural e Esportiva Campeã), que trabalha com iniciação esportiva de crianças carentes graças a recursos captados por meio das leis federal e estadual de incentivo.

“Na Acecamp, nós oferecemos atletismo na primeira parte do treino e futebol na segunda. Faço isso porque, se dermos futebol logo de cara, vai todo mundo embora assim que a bola para de rolar”, diz Conceição. Os profissionais de educação física da Acecamp se diferenciam de tantos ex-jogadores de futebol que criam suas escolinhas. “Esses caras não percebem que um menino que é muito veloz pode se atrapalhar com a bola. O motivo não é a descoordenação do garoto. Muitas vezes, ele simplesmente é rápido demais. Infelizmente, um garoto assim é descartado por esses ex-jogadores”.

Por falar em incompreensão, Conceição também foi alvo dela. A heptatleta participou de três edições dos Jogos Olímpicos (80,84 e 88). Poderia ter ido a quatro. “Tinha o índice para ir a Montreal, mas me consideraram nova demais (20 anos). Tenho todo o respeito pelo Nelson Prudêncio, mas resolveram enviá-lo em meu lugar, num momento em que já estava na fase declinante na carreira”. De fato, o triplista Prudêncio, prata no México-68 e bronze em Munique-72, não foi além da décima colocação em 76.

Em suas participações olímpicas, Conceição teve como melhor resultado a 14ª posição, em Moscou (no pentatlo). “Sempre pensei que ficaria muito satisfeita por simplesmente ir aos Jogos Olímpicos, nem que fosse como reserva. Via os resultados das atletas que medalhavam em Jogos Olímpicos e eram irreais pra mim. Eu poderia melhorar meu resultado em alguns centímetros no salto em distância, por exemplo, mas não poderia melhorar um metro”.

Esse fosso que a separava das verdadeiras aspirantes a medalhas tem uma explicação, na análise da campineira: doping. “As soviéticas, as alemãs orientais e as cubanas eram fortes demais. Hoje o cerco fechou contra os russos, e os cubanos, que se preparavam segundo os mesmos métodos, estão na mira do controle antidoping. Ao longo da minha carreira, em mais de uma oportunidade, me ofereceram drogas capazes de melhorar desempenho esportivo. Nunca aprovei isso. Meu pai, que era muito católico, me educou de uma maneira extremamente rígida. Só éramos autorizadas a ler livros religiosos. Nem Tio Patinhas entrava na nossa casa. Aprendi que drogas são ruins e nunca mudei esse meu posicionamento. Inclusive colaborei para que o João do Pulo, que era quase um irmão para mim, não se drogasse. Ele era muito conquistador e eu dizia a ele que as drogas comprometeriam seu desempenho sexual. Essa perspectiva o assustou e, felizmente, nunca concordou com esse tipo de auxílio”, recorda Conceição, um verdadeiro baú de histórias do atletismo brasileiro.