Dedicação a alunos com necessidades especiais é boa aposta de carreira

19 de junho de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Por Alessandro Lucchetti

O nome da escola de natação onde a professora de educação física Jacqueline Moreira exerce suas atividades, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, chama-se Pingo D’Água. Poderia ser Nó em Pingo D’Água, mais adequado para descrever as façanhas da educadora. Na piscina de 18 metros, ela atende 18 alunos com necessidades especiais, como autismo, mielomeningocele, síndrome de down, artogripose, osteogênese imperfeita (ossos de cristal), hidrocefalia, cegueira e paralisia cerebral.

A escola funciona há 28 anos. Foi criada pelo pai, Francisco Moreira Neto, um professor de educação física que se sagrou campeão mundial de pentatlo naval competindo pela Marinha do Brasil. Há 12 anos, Jacqueline passou a encarar um desafio adicional: sua própria filha, Ana Luz, nasceu com artogripose  múltipla congênita, uma condição rara caracterizada por alterações na pele, circulação, ossos, tendões, articulações, veias e músculos. Ana apresenta elevado grau de cifose e escoliose na coluna, com cerca de 180 graus.

Ana é uma das mais dedicadas alunas da Pingo D’Água, e uma demonstração viva do método Aracati, criado pela mãe. O nome do método é uma homenagem ao pai, nascido em Aracati, e ao sogro, que curiosamente tinha esse nome. Graças à atividade física, Ana pôde suportar 16 cirurgias, sendo seis de coluna. “Se consigo fazer minha filha andar, é por causa da natação. Muscularmente, ela é muito forte. A natação salvou minha filha”, diz Jacqueline. “O método me dá um norte e um sul”, acrescenta.

O método Aracati se baseia em oito etapas: deslocamento na água, vínculo entre professor e aluno, gancho – comunicação verbal e/ou corporal, atender aos comandos, uso do material didático, disciplina e limite, imersão e nadar por imitação dos movimentos dos professores. A metodologia incrementa o crescimento cognitivo, o motor e a autoconfiança.

A escola apresenta outros grandes trunfos: Alexandre Acete, de 32 anos, nada há 26 anos na Pingo D’Água. “Se você vir ele nadando com outras pessoas, não vai conseguir saber que é autista. Ele nada muito, os quatro estilos”, empolga-se Jacqueline.

Jacqueline desenvolve seu trabalho sem ter recebido nenhum conteúdo específico voltado para esportes adaptados em seu curso na Universidade Gama Filho, concluído há mais de 30 anos. A professora avalia que até hoje a capacitação nessa área é insuficiente. “Hoje muita coisa é transmitida online, e deixa a desejar. Muita gente também se preocupa com alto rendimento, deixando uma lacuna nesse campo”.

Outro professor do Rio de Janeiro, Daniel do Carmo, faz uma avaliação parecida. Ele teve apenas uma disciplina na graduação voltada ao trabalho com portadores de necessidades especiais. “Quando eu fazia estágio na academia, apareceu um aluno com necessidades específicas. Além de orientações dos professores, busquei subsídios, mas vi que havia pouca produção científica sobre esse assunto. Constatando a enorme carência de profissionais nessa área, eu me propus a me especializar. Como havia pouco conhecimento na educação física, fui atrás de fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais. Fiz meu TCC (trabalho de conclusão de curso) sobre o assunto, que é também tema do meu mestrado”, afirma Daniel, que atende seis alunos num espaço próprio, em Jacarepaguá.

Segundo Daniel, a exiguidade de profissionais no Brasil com esse tipo de especialização faz com que recebam uma demanda intensa, o que é interessante inclusive do ponto de vista financeiro. “Muitos pais não têm recursos e recorrem a uma linha assistencialista. Mas muita gente tem dinheiro também. Atuo na região do Recreio dos Bandeirantes, que tem bom poder aquisitivo, e posso dizer que 90% dos meus rendimentos vêm da atividade com pessoas com necessidades especiais”.

O profissional exorta seus colegas a abraçarem essa atividade e contribuírem para a formação de seus colegas. “O professor deve ser um pesquisador. É preciso estudar, catalogar, transmitir. Empiricamente, é possível aprender muito. Se você tiver dez alunos autistas, um será diferente do outro, e cada dia de trabalho nos ensina bastante”.

A gratificação pessoal é outro dividendo valiosíssimo. Daniel diz que guarda até hoje uma carta de agradecimento escrita pela mãe de um portador de autismo severo, de 32 anos. “Imagine o que representa para o pai de alguém que fica à margem da sociedade, sofrendo com bullying e discriminação, e vê num profissional de educação física a possibilidade de seu filho evoluir mental e fisicamente. Sempre tiro fotos do ‘antes’ e ‘depois’ com os alunos e as transformações são gritantes”.

Daniel vê no oferecimento de atividades esportivas a portadores de necessidades especiais um enorme mercado de trabalho. A natação é o esporte mais procurado pelos pais dessas pessoas, mas a oferta tende a aumentar, na avaliação do profissional. “A demanda maior é pela natação porque os médicos conhecem os benefícios oferecidos por esse esporte. Mas todos os esportes propiciam benefícios: futebol, basquete, patinação, canoagem, ginástica rítmica…E não podemos nos esquecer da dança”.

Esse cenário poderá se transformar sensivelmente quando os cursos de graduação tiverem noção da importância do tema. “Quando estudava, eu já perguntava por que só tínhamos uma disciplina voltada para isso. A visão ainda é muito pequena”, arremata Daniel.