Educação Física na infância ajuda a formar adultos melhores

07 de novembro de 2018 ● POR Flávio Rebustini

Nos últimos anos, os EUA investiram fortemente em programas sustentados no desenvolvimento positivo dos jovens (DPJ) (JUNG; WRIGHT, 2012). Tais programas são focados no desenvolvimento das qualidades de crianças e jovens, promovendo uma inserção positiva na sociedade, onde o DPJ usa o desporto através de uma abordagem que visa empregar modelos pedagógicos e programas de intervenção com o alvo de desenvolver a construção de valores e competências para a vida, sendo elas a autonomia, a liderança e o respeito pelos outros, através de um ambiente centrado nas potencialidades de jovens e crianças que necessitam de experiências positivas dentro do esporte (CORTE-REAL, et al, 2016). Tendo ainda o DPJ como base, diversos outros modelos pedagógicos vêm sendo desenvolvidos, tais como o modelo de Educação Desportiva e o modelo de Desenvolvimento da Responsabilidade Pessoal e Social (DRPS), com a finalidade de reduzir a lacuna das aprendizagens esperadas e as aprendizagens efetivas dos alunos (SANTOS et al., 2016). Sendo este último pautado no trabalho de jovens vulneráveis socialmente, o qual faz parte de um conjunto de capacidades que devem ser aprendidas através da Educação Física ( EF), sendo elas o respeito pelos outros (nível I); participação e esforço (nível II); autonomia (nível III); liderança (nível IV) e transferência (nível V) (MARTINEK; HELLISON, 2009).

Além do desenvolvimento motor, há um conjunto de benefícios sociais, educacionais e para a vida, que acompanham a criança e o jovem praticante de esporte de forma sistematizada (HOLT et al., 2017). As oportunidades de conexões com colegas, professores, treinadores e outros adultos atenciosos na escola e na comunidade, proporcionam ricas experiencias (HEMPHILL; RICHARDS, 2016) sendo de?nidas como “aqueles bens pessoais internos, características e habilidades, tais como o ajuste do objetivo, o controle emocional, a autoestima, e a ética do trabalho duro que podem ser facilitadas ou desenvolvidas no esporte e transferidas para o uso em ajustes dos ambientes não esportivos” (GOULD; CARSON, 2008, p. 60).

O esporte deve contribuir para o desenvolvimento global da pessoa: fisicamente, psicologicamente, socialmente e espiritualmente (STIRLING; KERR 2012). Sendo assim, podemos perceber que o esporte desenvolve as habilidades físicas e cognitivas. Através da prática esportiva podem desencadear processos que facilitam a neuroplasticidade, assim, aumenta a capacidade do indivíduo de responder a novas demandas com adaptações comportamentais. Tais transferências não ocorrem de forma automática mas dependem de como a estrutura social que a criança e jovem esta envolvido absorve essas mudanças, ou seja, sua ecologia social (MARTINEK; LEE, 2012).

O resultado da transferência de habilidades motoras e cognitivas, pode ser visto no âmbito escolar positivamente. Segundo Ericsson e Cederberg (2015) alunos que apresentam um menor nível de atividade física na escola obtiveram um menor desempenho nos exames nacionais, além disso, apontaram que os alunos que exibiam uma melhor autoestima eram significativamente mais ativos do que os com autoestima menor.

Desta forma, podemos entender que o esporte é educação e é importante para a formação das crianças. Se pensarmos no indivíduo como um todo e trabalharmos para obtermos melhores resultados, se aproveitando da Educação Física na infância, com toda certeza, teremos adultos melhores, que transferirão as habilidades adquiridas através do esporte para a vida.

Referências

CORTE?REAL, N., DIAS, C., REGUEIRAS, L., FONSECA, A. Do desenvolvimento positivo ao modelo de responsabilidade pessoal e social através do desporto: Entre a teoria e a prática. Porto: Centro de Investigação, Formação, Inovação e Intervenção em Desporto, 2016.

ERICSSON, L; CEDERBERG, M. Physical activity and school performance: a survey among students not qualified for upper secondary Physical Education and Sport Pedagogy, 20:1, 45-66, 2015.

HELLISON, Don; MARTINEK, Tom. Youth leadership in sport and physical education. Springer, 2009.

HEMPHILL, Michael A.; RICHARDS, K. Andrew R. Without the academic part, it wouldn’t be squash”: Youth development in an urban squash program. Journal of Teaching in Physical Education, v. 35, n. 3, p. 263-276, 2016

HÖTTING. K; RÖDER, B. Beneficial effects of physical exercise on neuroplasticity and cognition. Neuroscience and biobehavioral review, 37, p. 2243-2257, 2013.

MARTINEK, Tom; LEE, Okseon. From community gyms to classrooms: A framework for values-transfer in schools. Journal of Physical Education, Recreation & Dance, v. 83, n. 1, p. 33-51, 2012.

SANTOS, F., CÔRTE-REAL, N., REGUEIRAS, M. L., DIAS, C., FOSECA, A. O papel do treinador no desenvolvimento positivo dos jovens através do desporto: Do que sabemos ao que precisamos saber. Revista iberoamericana de psicología del ejercicio y el deporte, v. 11, n. 2, p. 289-296, 2016.

Autores

Geissiane Andrade – Professora de Educação Física e especializando em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.

Ms. Cássio J. S. Almeida – Formado em Educação Física. Especialista em Psicologia do Esporte e Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.

Flávio Rebustini – Doutor pela UNESP/Rio Claro. Coordenador da Pós em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio.