Escalada é um bom caminho na busca por ascensão profissional, segundo especialista

07 de outubro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Os estudantes de Educação Física e os profissionais já formados mais antenados perceberam há tempos que a busca por diferenciais no currículo é fundamental para que se coloquem bem na batalha pelos melhores postos de trabalho. Nesta semana, olhando para o alto, a reportagem do Portal da Educação Física encontrou o professor Dimitri Wuo Pereira, que nos fala sobre a escalada, esporte que estreará na programação dos Jogos Olímpicos na edição do próximo ano, em Tóquio, e desperta grande atenção em um público mais amplo mundo afora.

Os poucos brasileiros que acompanharam no mês de agosto o Mundial de Escalada realizado em Hachioji (JAP), infelizmente não exibido por emissora de TV alguma do Brasil, talvez não tenham essa informação: 100% da equipe nacional masculina são crias da parede de escalada do Colégio Magno, dos tempos em que Dimitri lecionava na instituição, no Jardim Marajoara, zona sul da capital paulista. Trata-se de Cesar Grosso, que hoje vive e compete na Itália, e de Felipe Ho.

Hoje Dimitri trabalha na Uninove, ministrando a disciplina Esportes de Aventura. “O professor que entende de escalada diferencia seu currículo. Recebo frequentemente ligações de proprietários de academias me pedindo indicações de profissionais com CREF”, diz o educador, que reitera que empreendimentos renomados especializados na escalada, como a Casa de Pedra e a 90 Graus (Academia de Escalada Esportiva) fazem questão do registro no Conselho Regional de Educação Física.

A parede de escalada do Colégio Magno foi instalada em 1995. A iniciativa de aquisição desse equipamento coube ao diretor da instituição, Maurício Tricate. “A Educação Física nesse colégio é muito bem organizada. Ela faz parte um projeto de educação integral. As crianças ficam na escola no contraturno escolar, e a elas são oferecidas essas atividades. O esporte é bem valorizado”, diz Dimitri. Na década de 90, o Colégio chegou a receber jogos das finais do Campeonato Paulista de handebol, e já foram realizados lá eventos como a final do Brasileiro de Jiu-Jítsu.

Outros colégios também perceberam que a prática da escalada favorece um bom desempenho escolar, por teoricamente contribuir para o desenvolvimento de virtudes muito úteis para a vida acadêmica. “A escalada exige responsabilidade, tomada de decisões, resistência e concentração, por exemplo”, diz o autor do livro “Escalada”, publicado em 2007 pela editora Odysseus. Dimitri formou-se em Educação Física pela Universidade de São Paulo (USP) em 1993 e concluiu pós-graduação em Administração Esportiva, pela FMU, em 1997. Além disso, fez mestrado em Educação Física e pedagogia do movimento, pela Universidade São Judas Tadeu, e doutorado em Educação, Filosofia e Formação em Educação pela Uninove.

O esporte se disseminou pela Escola da Vila, Rainha da Paz, Escola Cidade Jardim e Saint Paul’s, entre outros, isso para citar exemplos da capital paulista. O próprio Dimitri instalou várias dessas paredes, e chegou a ser proprietário de uma empresa especializada nesse serviço, a Rumo. Segundo ele, é possível até mesmo a instalação do equipamento em escolas públicas. “Um modelo mais simples custaria algo entre R$ 10 a R$ 15 mil. Seria uma estrutura de ferro com madeira. Mas deve ser instalada dentro de um ginásio coberto, porque a chuva estraga a madeira”. Os diretores de escolas públicas, segundo ele, podem pleitear verbas para esse fim junto ao governo. “As práticas corporais de aventura estão contempladas na BNCC (Base Nacional Curricular Comum), enfatiza o professor.

No âmbito das academias, a escalada é muito procurada por frequentadores interessados em afinar a silhueta. O esporte é sempre avaliado como um dos que proporcionam maior gasto calórico por publicações que elaboram esse tipo de ranking. “Nenhuma dessas matérias é muito precisa. Esses rankings não são elaborados seguindo métodos científicos, mas o gasto calórico que a escalada proporciona é alto, sim. Por variados motivos: você trabalha com toda a sua musculatura, com alta tensão corporal; não posso colocar metade da minha energia para escalar, do contrário não consigo subir. E tem mais: quem quiser ter bom desempenho nesse esporte fatalmente terá que melhorar a alimentação, porque somos obrigados a carregar nosso peso para cima”, explica o especialista.

Quanto às chances de classificação olímpica dos representantes brasileiros, Dimitri é bastante cético. “Vi uns flashes do Mundial pela internet. Estou torcendo muito pelos brasileiros, mas dificilmente vamos conseguir. Países que já eram fortes no esporte, como Eslovênia, França, Áustria e Alemanha, passaram a investir muito mais quando a modalidade se tornou olímpica.  O Japão também tem uma equipe fantástica. Quanto ao Pré-Olímpico continental, Estados e Canadá estão bem à nossa frente”, inveja o educador.

A própria geografia brasileira não favorece o desenvolvimento do esporte. Por esse e outros motivos, Grosso mudou-se para Arco, província de Trentino-Alto Adige, no norte da Itália, em 2003. É lá que se situa a maior falésia italiana, Massone, que tem 150 vias de escalada. Há casos de países com relevo pouco propício ao esporte que conseguem se destacar, mas é necessário um grande investimento para tal. “A geografia japonesa também não é um sonho para os escaladores, mas os ginásios deles são fantásticos”.

Concluindo o papo com o Portal da Educação Física, Dimitri cita a Pós-Graduação em Esportes e Atividades de Aventura como recomendável para quem queira se aventurar (com perdão do trocadilho infame) por essa área que tende a crescer no mercado brasileiro de trabalho.