Inteligência emocional no esporte: você trabalha isso?

07 de junho de 2019 ● POR Flávio Rebustini

Atletas naturalmente buscam crescimento e aumento de performance. Depois de todo treinamento e preparação física e técnica realizados, o maior contribuinte para as performances de elite é o controle das emoções. Para Goleman, autor do livro Inteligência emocional, as emoções são reflexos naturais diante de acontecimentos, são uma resposta física ou química comandada pelo cérebro humano. Já os sentimentos são uma consequência das emoções e são sentidos por cada pessoa de acordo com a sua experiência, personalidade, cultura e criação. Os sentimentos podem ser definidos como a observação das emoções e das reações provocadas por elas. Nossas emoções podem impulsionar nosso comportamento, nossos padrões de pensamento e nossa capacidade de realização. Emoções fortes podem nos levar a agir além de nossos limites ou nos deixar completamente inibidos. É a emoção que leva uma pessoa a reagir diante de um acontecimento.

Robert Levenson considera que para que as emoções sejam consideradas emoções básicas elas devem atender a três critérios gerais. Em primeiro lugar, as emoções básicas têm respostas comportamentais, expressivas e fisiológicas distintas. Em segundo lugar, as emoções básicas são programadas no cérebro, embora os sistemas emocionais sejam plastificados, de modo que o aprendizado ao longo da vida possa modificar e melhorar a resposta emocional. Em terceiro lugar, as emoções básicas têm uma funcionalidade específica, em que cada emoção é desencadeada por um programa de afeto que rapidamente reconhece uma situação crítica de sobrevivência e produz uma ação para aumentar a sobrevivência.

Emoções básicas podem ter funções construtivas e destrutivas no esporte. As emoções podem influenciar o desempenho individual a curto prazo, bem como persistência e envolvimento ao longo do tempo. Emoções básicas podem ser desencadeadas rapidamente com um mínimo de consciência, de modo que respostas emocionais específicas podem interferir no desempenho efetivo através de efeitos disruptivos no funcionamento fisiológico, motor e cognitivo. Além disso, a resposta emocional básica pode sobrecarregar o funcionamento cognitivo de ordem superior quando a situação é extrema.

Pelo menos dois tipos de abordagens são usados para explicar como as emoções podem melhorar seu desempenho. Lane et al., (2016) definem a primeira abordagem como a regulação da emoção hedônica, com presença de emoções agradáveis como alegria, prazer e felicidade, ausência de medo, tristeza e nervosismo. Os atletas que usam essa abordagem se esforçam para reduzir a intensidade das emoções desagradáveis e aumentar a intensidade das emoções agradáveis. A segunda abordagem é definida como instrumental por Lane et. al., (2012). Nesta abordagem os atletas buscam emoções que acreditam que os ajudem a ter um desempenho ideal e reduzem as emoções que eles acreditam que irão prejudicar seu desempenho. Hanin (2010) afirma que alguns atletas acreditam que emoções como ansiedade, medo e raiva aumentam seu desempenho, enquanto outros acreditam que as mesmas emoções podem reduzir seu desempenho. Hanin é um dos mais importantes estudiosos da Psicologia do Esporte no que se refere ao entendimento das emoções no contexto esportivo. O modelo IZOF, desenvolvido por ele, tenta prever o sucesso individual e o fracasso baseado nos estados emocionais e nos critérios das zonas individuais. Ele compreendia as emoções como um importante aspecto do pessoal (do próprio individuo) no esporte e da as emoções um peso critico, pesando na melhora ou piora de desempenho pessoal ou grupal.

A melhor estratégia para lidar com as emoções depende do tipo de esporte que você faz. No tiro com arco, por exemplo, você precisa de muito mais tranquilidade e concentração do que no Rúgbi, onde você precisa principalmente de muita força. Quando você está com raiva no Rúgbi pode melhorar seu desempenho porque você tem mais poder e energia para usar para afastar seus oponentes. No tiro com arco – um esporte com alta precisão – seu nível emocional deve ser o mais baixo possível para manter sua concentração e obter alta precisão. Além disso, lidar efetivamente com as emoções depende muito da personalidade do atleta.

Kerr e Svebak (1989) demonstram que indivíduos com personalidade Telic (dominância telic alta) tendem a preferir esportes de resistência com baixa ativação, caracterizado pela concentração, repetitividade, monotonia e atividade duradoura. Enquanto indivíduos com personalidade Paratelic (dominância telic baixa) tendem a preferir esportes explosivos com alta ativação, caracterizado por impulsos ou ações explosivas. (A Escala de Dominância Telic possui 42 itens com 3 subescalas com 14 itens cada. A primeira subescala mede a seriedade, a segunda subescala mede a orientação planejada e a terceira a evitação da ativação. O resultado das 3 subescalas são somados para obter o resultado da escala, sendo que se o resultado apresentado for acima de M=16,24 DP=4,14 o atleta é considerado com o tipo de personalidade Telic e se for abaixo, o atleta é considerado com o tipo de personalidade Paratelic.)

            Assim sendo, indivíduos com personalidade Telic experienciariam as emoções e a resposta ao estresse de maneira positiva em um esporte de resistência e negativamente em um esporte explosivo. Inversamente, indivíduos com personalidade Paratelic experienciariam as emoções e o estresse positivamente em um esporte explosivo e negativamente em um esporte de resistência.

Blanchard e colaboradores (2007) afirmaram que as emoções afetam de maneira inerente os comportamentos e as relações dos atletas no treinamento e na competição. Também foi demonstrado que as emoções desempenham um papel significativo nas situações interpessoais e funcionam como uma das principais fontes de sentimentos, que é uma resposta à emoção e diz respeito a como a pessoa se sente diante daquela emoção, e comportamentos durante a interação com outras pessoas.

Neste ponto, existem muitas maneiras ou estratégias para o atleta começar a regular seus estados emocionais. Certas músicas, por exemplo, podem mudar seu humor ou estado emocional. A música é uma ótima maneira de influenciar a emoção, seja para se acalmar ou para estimular. Escute um pouco de música de relaxamento e depois um pouco de AC / DC e você entenderá o que estou dizendo. A música atua como uma forma de aumentar os níveis de excitação, ao mesmo tempo que ajuda a bloquear pensamentos que distraem.

Aprender a usar efetivamente o treinamento de relaxamento e uma outra destas técnicas. Existe uma correlação positiva entre o uso de relaxamento muscular progressivo e o desempenho esportivo. Em outras palavras, quanto maior o uso do relaxamento muscular progressivo, maior o nível de desempenho esportivo. A técnica de relaxamento muscular progressivo é uma técnica poderosa para reduzir o metabolismo de oxigênio, respiração, pressão arterial, tensão muscular e pensamentos negativos (Nelson-Jones, 2003).

Visualização/treinamento mental também são eficazes. Se você se sentir estressado antes de uma competição ou estiver preocupado em falhar, tente imaginar cenários positivos, como marcar um gol. Imagine-se marcando gols e driblando os defensores. Imagens focadas em tenacidade, controle e confiança levam a uma maior motivação, regulação emocional e autoconfiança. Esta é uma ótima técnica para fazer a noite antes de uma partida ou apenas antes de sair para competir.

O treinamento da atenção plena, ou seja, a habilidade que todos possuímos – em maior ou menor grau de desenvolvimento – de estarmos conscientes e abertos à experiência presente, sem julgamentos, nos ajuda a reconhecer nossos estados emocionais em um estágio inicial. Durante uma competição, temos muitos pensamentos em nossa mente e tendemos a nos perder neles. Quando as emoções estão em alta, nossos pensamentos tendem a acelerar e nos distraímos do que estamos fazendo. Portanto, podemos perder o controle sobre a situação.

Para atletas sem experiência na técnica de atenção plena, também conhecida como mindfulness, um exercício simples para superar isso é observar sua respiração por algum tempo. Isso parece muito simples, mas é um desafio manter a concentração.

O treinamento da atenção plena nos ajuda a concentrarmos no momento presente e a perceber o que está acontecendo dentro de nós mesmos. Desta forma, podemos melhorar nossa consciência do que está acontecendo no momento. Quando reconheço que uma emoção está se desenvolvendo dentro de mim, posso decidir se essa emoção é proposital ou não. Podemos decidir como lidamos com essa emoção. Em muitos casos, quando não estamos conscientes de nossas emoções, somos invadidos por elas. Percebemos que estamos com raiva ou com medo quando é tarde demais, e o dano já foi causado.

É importante ressaltar que pessoas emocionalmente inteligentes podem entrar nos estados emocionais apropriados para as demandas da situação. Se a situação exige alta excitação, as pessoas emocionalmente inteligentes são boas em se motivar e se preparar. Da mesma forma, se a situação requer calma, as pessoas emocionalmente inteligentes são boas em relaxar-se. Atletas que atuam na zona de flow são aqueles que regulam suas emoções. Para Csikszentmihalyi (2009), “O flow é um estado subjetivo que as pessoas experimentam quando estão completamente envolvidas em algo, a ponto de esquecer o tempo, a fadiga e tudo mais, exceto a atividade em si”. Este estado emocional positivo é caracterizado por ser uma atenção total na atividade que estamos realizando, na qual nada mais importa, mantendo um grau de concentração absoluta. Assim, neste estado, parece que temos o controle sobre o nosso destino, sentindo uma grande satisfação, já que a experiência é, por si só, prazerosa.

Pode ser útil explorar que emoções seus atletas experimentam quando apresentam um bom ou mal desempenho e desenvolver estratégias para tentar reproduzi-las para performances subsequentes. Até a próxima competição, passe os um tempo observando o desempenho do seu atleta. Ele tem melhor desempenho quando está feliz ou com raiva? Perde a concentração quando está relaxado ou energizado? Executa bem sob pressão ou se engasga? Não há respostas certas ou erradas, a chave é entender o desempenho e suas características únicas para cada atleta. Depois de ter uma sólida compreensão disso, você pode começar a usá-lo para alimentar seu desempenho, bem como evitar perder o controle dele.

Blanchard, C.M., Mask, L., Vallerand, R.J., Sablonnie`re, R,d., & Provencher, P. (2007). Reciprocal relationships between contextual and situational motivation in a sport setting. Psychology of sport and exercise. 8(5), pp.854-873

Lane A. M., Beedie C. J., Jones M. V., Uphill M., & Devonport T. J. (2012). The BASES expert statement on emotion regulation in sport. Journal of Sports Sciences, 30 (11), 1189-1195.

Lane, A. M., Devonport, T. J., Friesen, A. P., Beedie, C. J., Fullerton, C. A., & Stanley, D. M. (2016). How should I regulate my emotions if I want to run faster? European Journal of Sport Science Volume 16(4), 465-472.

Hanin, Y. (2010). Coping with anxiety in sport. In A. R. Nicholls (Ed.), Coping in sport: Theory, methods, and related constructs (pp. 159-175). Hauppauge, NY: Nova Science.

Weinberg, R.S., Gould, D (2017). Fundamentos da psicologia do esporte do exercicio.6. ed. Porto Alegre: Artmed.

Levenson, R. W. (2011). Basic emotion questions. Emotion Review, 3, 379–386.

Emotional Intelligence : Why It Can Matter More Than IQ by Daniel Goleman (1996, Paperback)

Kerr, J. H.; Svebak, S. Motivacional aspects of preference for and Participation in “risk” and “safe” sports. Personality and Individual Differences, v. 10, p. 797-800, 1989.             

            Nelson-Jones, R. (2003). Basic counseling skills: A helper’s manual. London: Sage.

Csikszentmihalyi, M. (2009). El flujo. Emociones positivas (181-193). Madrid: Ediciones Pirámide.


Letícia Capuruço – Psicóloga. Especialista em Gestão de Lideranças, Especializanda em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.        Geissiane Andrade – Professora de Educação Física e especializando em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.