Nadador olímpico cultiva método da Psicologia Positiva em sua academia

03 de novembro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Os professores de natação conhecem bem o drama: ao chegar aos níveis mais altos na prática do esporte, muitas crianças e adolescentes se desmotivam, o que torna os índices de evasão nessa faixa consideravelmente elevados.

Formado em Educação Física pelo hoje extinto Ieda (Instituto Educacional de Assis), Marcos Ruivo decidiu estudar formas de combater o problema depois de atuar por dez anos no CPN (Centro Paulista de Natação). O caminho de Ruivo foi recorrer à Sociedade Brasileira de Coaching, onde focou sobretudo em desenvolvimento humano, e no IPOG (Instituto de Pós-Graduação e Graduação), ao qual acorreu para estudar a Psicologia Positiva.

Desse mergulho (com perdão para o trocadilho) em busca de conhecimento, emergiu o livro Elogio para Nadar – A Estrutura para iniciação do método Swim &Health, escrito por Ruivo, prefaciado pelo nadador olímpico Guilherme Guido e publicado pela editora Manole em 2017.

“Essa desmotivação que desemboca na evasão é, em grande parte, causada pelo cansaço físico. Criamos uma estrutura de treino que evita a fadiga. Estudamos também as formas comumente empregadas para criar motivação, que se resumem à recreação aquática. À medida em que esse praticante de natação vai avançando, essa diversão perde o sentido até chegar uma hora em que o aluno diz que não quer mais ir à piscina”, explica Ruivo.

O método consiste, entre outras linhas de estruturação, em uma semana de divertimento seguida por outras quatro semanas em que são trabalhados outros níveis de motivação. Um deles, segundo Ruivo, é o processo de “aprender ensinando”. O pesquisador foi buscar na pirâmide de aprendizagem, proposta pelo psiquiatra norte-americano William Glasser, repertório para edificar o pilar desse método. “Quando o aluno procura ensinar aquilo que aprendeu, ele desenvolve a autoestima, a escuta ativa, o reconhecimento e a modelagem”, preconiza Ruivo, que é proprietário da academia Aquarela, em São Paulo. “Quando implantamos essa dinâmica, constatamos que conseguimos reduzir aquela porcentagem de evasão, segurando os alunos”.

Em 2009, Ruivo contratou uma empresa de planejamento estratégico. A ideia era formatar o método e oferecê-los a academias espalhadas pelo Brasil. Hoje, 30 delas, espalhadas por seis estados, utilizam conceitos da Psicologia Positiva trabalhados por Ruivo, incluindo uma em Macapá, outra em Brasília e várias distribuídas pelo estado de São Paulo.

No ano retrasado, Ruivo conheceu o nadador Guilherme Guido, que coleciona três medalhas dos Jogos Pan-Americanos nos 100m costas (bronze em Guadalajara-2011, prata em Toronto-2015 e Lima-2019) e o bronze no Mundial de piscina curta de Istambul-2012, entre outras importantes conquistas. Na capital peruana, ele faturou também o ouro no 4x100m medley misto, novidade no programa.

“O Guido estava montando o método dele. Ele gostou muito da linha do meu trabalho. Como é um nadador importante, ele gravou uma série de vídeos que são enviados aos alunos, a respeito de aspectos que vão além da piscina, como a importância do sono e da boa alimentação, por exemplo”.

O limeirense Guido, que cursou Economia na Universidade do Tennessee, resolveu investir parte dos recursos acumulados ao longo da carreira. Formou sociedade com Ruivo e com outro nadador, João Luiz Gomes Júnior, dono de duas medalhas nos 50m peito em Mundiais de piscina longa (prata em Budadpeste-2017 e bronze em Gwangju-2019). Juntos, montaram a Academia Guilherme Guido na cidade natal do campeão.

Guido, que anda esmerilhando na International Swimming League, vive hoje uma das melhores fases de sua carreira. Curiosamente, aos 32 anos, mais perto do final do que do início da carreira, o investidor reformula sua programação mental com os mesmos conceitos cultivados para motivar as crianças que dão suas primeiras braçadas em sua academia.

“Tenho certeza de que eu teria obtido resultados bem melhores na carreira se tivesse tido contato com esse método uns bons anos atrás. Com esses conceitos, consegui melhorar meus resultados nos últimos anos. A natação e o atletismo são esportes contra o relógio. A gente precisa se desenvolver emocionalmente para poder fazer a prova perfeita”, diz o costista, que era grande rival de Cesar Cielo quando ambos eram adolescentes – eles têm praticamente a mesma idade.

Ruivo sugere aos estudantes e graduados em Educação Física que conheçam o interessante trabalho do Gepen (Grupo de Estudos em Psicologia do Esporte e Neurociências), ligado à Unicamp. Essa área do conhecimento precisa de pesquisadores.