O que é e para que serve a Psicologia Esportiva?

26 de abril de 2018 ● POR Flávio Rebustini

Devemos pontuar, inicialmente, que de forma formal podemos considerar a psicologia do esporte e do exercício como um campo recente de estudo diante do fato de que a Sociedade Internacional só foi fundada na década de 60. Contudo, os estudos científicos de como as variáveis psicológicos afetam o desempenho esportivo datam do fim do século XIX.

 A Psicologia do Esporte e Exercício como o estudo científico das pessoas e seus comportamentos no contexto do esporte e exercício e a aplicação prática desse conhecimento (Gill;  Williams, 2008). Weinberg e Gould (2014) apontam para dois vértices de análise e estudo da psicologia do esporte e do exercício: a) compreender os efeitos dos fatores psicológicos sobre a performance física e motora; b) compreender os efeitos da participação na atividade física sobre o desenvolvimento psicológico, saúde e bem-estar. Portanto, é um campo de relações de causa e efeito de múltiplas direções, sentidos e vetores.

Esse cenário exige um complexo de conhecimentos amplo, não bastando ao psicólogo conhecer os fenômenos intrínsecos a sua área, bem como, não é suficiente ao professor de Educação Física conhecer apenas seu campo de atuação. Deve-se ressaltar que a Psicologia do Esporte e Exercício também não é um campo de polos; de um lado o professor de Educação Física e de outro o profissional da Psicologia. Apesar de ainda hoje haver tensões entre as áreas, principalmente quanto ao exercício da profissão.  Tensões que ainda existem, de acordo com Weinberg e Gould (2014), entre a psicologia do esporte acadêmica (pesquisa e ensino) e dos psicólogos que atuam na prática do esporte e do exercício. Em que cada um dos campos entende que a outra área é menos crucial para o desenvolvimento do campo de estudo. Esse conflitos só fazem com que o desenvolvimento da área, aprofundamento dos estudos, das intervenções, o desenvolvimento e aferição da efetividade de novos métodos e técnicas seja mais lento e frágil do que se houve a integração entre os envolvidos. Este aspecto já foi apontado por Machado (2006) pela ausência de exploração do caminho interdisciplinar próprio da Psicologia do Esporte e Exercício, que exige o conhecimento e o tratamento de elementos da Psicologia e das Ciências do Esporte. Nesse terreno interdisciplinar podemos ainda interagir com nutricionistas, por exemplo, nos estudos de imagem corporal e dos distúrbios alimentares em atletas e praticantes de atividades física; dos fisioterapeutas que podem se integrar trabalhos sobre as lesões esportivas e os efeitos psicológicos durante o tratamento e o retorno à prática; o trabalho dos assistentes sociais, a enfermagem que há anos tem um campo de estudo denominado – Enfermagem Esportiva. Ignorar a necessidade do olhar e atuação interdisciplinar é empobrecer o campo de estudo e atuação.

Devemos ter em mente os três grandes campos de atuação da psicologia do esporte e do exercício: pesquisa, ensino e consultoria. E claramente nos três campos cabe o trabalho interdisciplinar, sem o cerceamento da atuação dos diversos profissionais que podem e devem trabalhar integrados para o avanço e aprofundamento da atuação na psicologia do esporte e exercício, ainda frágil e pulverizada. Reforçando esse apontamento, Machado (2006) destaca que a briga territorial entre, principalmente, os Profissionais de Educação Física e os da Psicologia tem criado fendas abissais que apenas emperram o avanço da área que nasceu interdisciplinar e, complementa, “o descuido no campo de atuação tem aplicado a desconexão entre a necessidade do esporte e do movimento humano e a orientação oferecida pelo preparador psicológico, gerando muito atrito profissional, pouca ética e desvalorizando o ambiente de trabalho, ainda não tão bem estruturado”. (p. 4). Nos últimos anos têm ocorrido movimentos ainda insipientes de integração entre as áreas, sistematicamente, de aproximação e distanciamento. Principalmente porque as discussões têm se pautada no campo de atuação profissional. É como se fosse possível, por esse olhar, que no momento que peço um pedido de tempo ou dando instruções aos alunos não houvesse alterações emocionais e que estão sendo manejadas nas aulas e treinamentos.

Há um outro aspectos que provavelmente poderia facilitar ou não essa integração, dependendo da orientação e do caminho escolhido – da integração interdisciplinar ou da intradisciplinar, que é ausência da maior parte dos cursos de graduação em Psicologia, da disciplina de Psicologia do Esporte e do Exercício. O que difere de forma importante dos cursos de Educação Física que têm em suas matrizes, na maioria das vezes, a disciplina há décadas. Essa ausência de integração nos distancia de culturas com modelos mais maduros e mais integrados. Nos Estados Unidos há mais de uma dezenas de universidade que oferecem a formação em psicologia do esporte na graduação. No Canadá, temos o caso da Laurentian University que oferece o curso de bacharel em Psicologia do Esporte com 4 anos de formação e que aponta como perspectivas de carreira: Psicólogo do Esporte, Consultor em Psicologia do Esporte, técnico, Professor/Educador, Técnico em motivação, Estudos de pós-graduação, atuação em universidade/colégios, Escola de ensino fundamental e Médio, Consultor em Psicologia do Esporte aplicada, Programas de Mestrado e Doutorado e Organizações esportivas e recreacionais. Obviamente que a matriz curricular é uma composição interdisciplinar e que oportuniza da atuação na escola aos clubes de alto rendimento esportivo. É sob essa perspectiva interdisciplinar é que foi construída a matriz pedagógica do curso de especialização que coordeno.

Entender essa necessidade ou o que deveria ser mandatória é mais fácil do que podemos pensar num primeiro momento. Há inúmeros estudos sobre o emprego do treinamento mental com o intuito de melhor a aprendizagem motora e de performance do movimento no esporte, basta nesse cenário uma única pergunta como o psicólogo do esporte pode trabalhar esses aspectos se o profissional desconhece de aprendizagem motora – e não se fala das habilidades básicas, pois, em essência no esporte, elas passam por outros processos de desenvolvimento, adaptação e modificação. Como tratar dos efeitos da periodização no esporte se não tenho aprofundamento nesse campo. Como posso trabalhar, por exemplo, com corredores de rua se não conheço as respostas psicofisiológicas durante a corrida, como o indivíduo responde à atividade? De outro lado, como é a estratégia e técnica que será utilizada por um técnico/professor durante a aula? Como ele trabalhará conceitos de autoestima, autoeficácia, resiliência, coping, agressividade, raiva, orientação para a tarefa, concentração, atenção, relações interpessoais, todas inerentes a prática diária. Por vezes essa ausência de conhecimento de contexto é que tem impedido uma melhor integração entre os profissionais. Não só isso há restrições culturais muito interessantes, por exemplo, há inúmeros clubes que contam com psicólogos do esporte em suas equipes de formação, mas não integram os profissionais que atuam com psicologia do esporte e do exercício em suas equipes profissionais.

Em outra matiz, vejamos que há limitações ao próprio psicólogo do esporte, em casos de alterações emocionais severas e em casos de psicopatologias a recomendação é que o atleta/aluno seja encaminhado para um psicólogo clínico e que não seja tratado por ele (Psicólogo do Esporte), pelo simples fato de essa não ser sua especialidade. Isto fez com que surgisse nos últimos anos um outro campo: o da Psicologia do Esporte Clínica.

O que estes breves apontamentos nos falam é que há em essência um universo de possibilidades inexploradas e que inexoravelmente para que possam ser bem exploradas será necessário minimizar os conflitos, choques e integrar de forma interdisciplinar as mais diversas formações.  

Referências

GILL, D.; WILLIAMS, L. Psychological dynamics of sport and exercise (3rd ed.). Champaign, IL: Human Kinetics, 2008.

WEINBERG, R.  S.; GOULD, D. Foundations of Sport and Exercise Psychology, 6E. Human Kinetics, 2014.

MACHADO, A. A. Psicologia do esporte: da educação física escolar ao esporte de alto nível. Guanabara Koogan, 2006.

Flávio Rebustini – É pós-doutor pela UNESP e pela Universidade de Quebec em Trois-Rivieres. Coordena o curso de Pós-graduação em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com