Pesquisa explica uma nova forma de ensinar a natação

12 de julho de 2018 ● POR Redação

O ensino da natação tem se caracterizado pela sistematização de rotinas das chamadas ¨seqüências pedagógicas¨ compostas por conteúdos pré-determinados para o aprendizado técnico dos quatro estilos da natação competitiva. Quando o ensino é focado no produto, aspectos como a etapa de desenvolvimento da habilidade do nadar em que o aluno se encontra, sua faixa etária, seus interesses e possibilidades físicas particulares não são considerados, o que pode tornar a aprendizagem da natação um processo monótono e sem significado para quem aprende e repetitivo e desinteressante para quem ensina. A fim de alterar esta situação, é fundamental que o foco do ensino passe a ser o processo do aprender a nadar e não o seu produto, qual seja, o domínio mecânico dos estilos consagrados de nado.

Os fatores que interferem na aprendizagem da natação podem envolver o indivíduo, o ambiente ou a tarefa e esses aspectos poderiam ser investigados e conhecidos em benefício da aprendizagem, o que se pretende valorizar aqui enquanto pesquisa pedagógica. Este ensaio busca discutir a possibilidade de uma pedagogia da natação que oriente para esta mudança de paradigma de ensino, entendido aqui como uma rede conceitual (KUHN, 1987, p.137) que envolve teoria, métodos e padrões lógicos que são indissociáveis e conduzem o ensino da natação e, ao mesmo tempo, a uma dada pedagogia da natação.

Há um relativo consenso de que os conhecimentos envolvendo a seqüência de Desenvolvimento Motor podem subsidiar a sistematização de muitos programas de Educação Física. Por outro lado, a área da Aprendizagem Motora orienta o professor para a valorização do processo envolvido na aquisição de novas habilidades motoras, reconhecendo a importância do papel ativo de quem aprende para o sucesso desse processo. A Biomecânica, por sua vez, pode contribuir para a compreensão da interação do corpo humano com o meio líquido, estando ele em repouso ou em movimento, valorizando, ao longo da aprendizagem, a experiência do aluno com o meio líquido e fazendo-o identificar as características dessa interação. Há, contudo, uma dificuldade em se aplicar estes conhecimentos nos programas que cerceiam o ensino da natação. Talvez pela pesquisa nessas áreas não ter se voltado para o contexto pedagógico, talvez pelo desconhecimento dos professores sobre como essas áreas poderiam lhes orientar na prática do ensino da natação, talvez pelas deficiências dos currículos que formam os professores de Educação Física.

Em qualquer caso, não cabe buscar causas, mas sim, a partir do reconhecimento das dificuldades, traçar novos caminhos para a superação destas, identificando alguns pressupostos teóricos para que o ensino da natação supere o “aprendizado do saber fazer”. Este ensaio conceitua a natação como um conjunto de habilidades motoras que proporcionem o deslocamento autônomo, independente, seguro e prazeroso no meio líquido, sendo a oportunidade de vivenciar experiências corporais aquáticas e de perceber que a água é mais que uma superfície de apoio e uma dimensão, é um espaço para emoções, aprendizados e relacionamentos com o outro, consigo e com a natureza.

Nesse sentido, o processo que leva a essa experiência e a esse aprendizado é chamado aqui de ensino-aprendizagem da natação, no qual os quatro estilos da natação competitiva são um dos conteúdos a serem desenvolvidos e não as metas do processo. Nesse caso, o meio líquido é visto como um mundo com várias possibilidades de ação e movimentos, abandonando-se a visão puramente utilitária, segundo a qual é preciso aprender a salvar-se ou a salvar vidas na água, bem como a abordagem puramente desportiva, fragmentando movimentos e exigindo uma ação voltada para o domínio mecânico dos quatro estilos de nado.

Resumo
Este ensaio tem o objetivo de discutir uma possibilidade para o ensino da natação a partir de uma perspectiva que supere o “aprendizado do saber fazer”. São levantados alguns aspectos da pesquisa em Educação Física que poderiam subsidiar propostas pedagógicas alternativas ao modelo desportivo para o ensino da natação. Destaque é dado à necessidade de produção de conhecimento pedagógico em Educação Física, a fim de que este subsidie a ¨ciência do ensinar¨ em natação. O ponto de partida é uma avaliação dos métodos encontrados na literatura e dos pressupostos pedagógicos que têm orientado as diferentes escolas. Em seguida, apresenta-se uma proposta baseada na interação dinâmica entre organismo, ambiente e tarefa como possibilidade pedagógica para a sistematização de um ensino em natação que valorize os quatro estilos de nado como conteúdos e não como metas do processo, sugerindo uma alternativa ao modelo desportivo. A proposta apresentada indica que o ensino da natação possa ser pautado por uma pedagogia que enfatize a diversidade na relação do homem com o meio líquido, ao invés do domínio técnico dos quatro estilos de nado.

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Autores: Josiane Regina Pejon Fernandes; Paula Hentschel Lobo Da Costa
Publicação: Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, n.1, p.5-14, jan./mar.  2006