Por que sentimos medo praticando esporte?

23 de setembro de 2019 ● POR Letícia Capuruço

O movimento humano, mais do que simples deslocamento do corpo no espaço, é também uma forma de expressar sentimentos, emoções e pensamentos. O medo, a fobia e a vergonha são sentimentos comumente experimentados durante a execução de movimentos esportivos.

Durante uma competição o atleta vivencia emoções intensas que podem alterar de forma positiva ou negativa seu desempenho. Independente de serem positivas ou negativas, essas emoções irão inferir no nível de atenção e concentração deste atleta, aproximando ou afastando o mesmo de alcançar a meta desejada (MIGUEL, BRANDÃO & SOUZA, 2009; WEINBERG & GOLD, 2001).

O estado emocional varia de acordo com a categoria na qual o atleta pertença. Cruz (1996) relata isso, dizendo que atletas de baixo de rendimento em relação a atletas de nível alto se sentem menos confiantes, já os de nível alto faziam uso da imaginação mesmo antes da competição, além de ter mais pensamentos positivos, e isolavam as coisas negativas, além de não se importarem tanto com os adversários, e tendo como resultado a diminuição da tensão antes das competições.

No âmbito do esporte, o medo pode ser percebido subjetivamente por meio da tensão, nervosismo e opressão. O indivíduo medroso apresenta um comportamento perturbado pela apreensão do fracasso e coloca em questão suas capacidades, interferindo em sua  performance ótima (Machado, 2006).

Para Dobránszky (2001, apud Lavoura & Machado, 2008, p. 4) existem várias causas do medo no contexto apresentado, como mais comuns, o atleta pode ter medo de fracassar, podendo acabar com sua performance e carreira, além  do  medo  de  contusões,  e  o  medo  em  não  desempenhar  com  êxito determinada tarefa e acabar passando por vexame social.

Os sentimentos de medo, ansiedade e vergonha se associam. O medo do fracasso ou do vexame, por exemplo, levam o indivíduo a duvidar e questionar todas suas capacidades físicas e seu desempenho. Pressupõe-se que o medo interfere no rendimento atlético, porque sabe-se que este sentimento (sua percepção por parte dos indivíduos) é responsável pela aparição de várias sensações e outras emoções e que essas acompanham e regulam as ações esportivas, contribuindo para o êxito ou para o fracasso no esporte (Roffé, 1999, 2005, 2006).

O medo pode ser identificado ou avaliado de diversas formas, considerando indicadores fisiológicos ou psicológicos. Para Hackfort & Schwenkmezger (1980) o medo se revela, ou é expresso, de diversas formas: rosto pálido, olhar petrificado, dilatação da pupila, inquietação motora generalizada, tremor das mãos, postura corporal enrijecida, braços tensos, suor, fala rápida, tremor da voz, erros freqüentes na fala, entre outros. Essas diferentes expressões do medo podem ser agrupadas, diferenciando fatores que podem ser percebidos visual ou acusticamente. No medo, normalmente, a altura do som é diminuída, a velocidade é aumentada e o ritmo é inconstante. Nos fatores visuais, pode-se diferenciar expressões  motoras finas e grosseiras, além de aspectos da mímica facial, dos gestos das extremidades e do corpo todo. A interpretação desses fatores é complicada já que eles são influenciados por fatores culturais, educacionais e sociais, entre outros, que têm a ver com a comunicação não verbal.

Segundo Seligman (1975) a imprevisibilidade de acontecimentos futuros tem um papel importante no surgimento do medo. A incerteza relacionada a uma situação de rendimento pode provocar medo. No esporte de competição, fica claro que, quanto mais bem estruturada estiver a situação de competição para o atleta, menor a possibilidade de aparecimento de reações de medo e estresse. Isto se obtém, fornecendo informações suficientes sobre os adversários, sobre a programação do evento, sobre a tarefa a ser desempenhada e sobre o que se deve esperar realisticamente da própria atuação. Para que estas informações sejam otimizadas, é necessário excluir excesso de informações e acentuar informações incompatíveis com o medo.

Hackfort e Schwenkmezger (1980) utilizaram uma técnica para redução do medo em esporte de rendimento que chamaram de “preparação cognitiva para o movimento”. Este método tem como princípio básico a complementação do treinamento mental com auto-instrucões, para otimizar a preparação para a realização dos movimentos. Este método foi aplicado inicialmente para voleibol, mas parece ser adequado também para outros esportes.

A preparação cognitiva para o exercício consiste numa descrição precisa do movimento, que é formulada em frases curtas, em primeira pessoa (eu). Em uma primeira análise, ela foi elaborada para os elementos técnicos “jogo baixo” e “jogo alto”. O atleta é orientado a ler, com concentração e em total silencio , a descrição detalhada do movimento. Simultaneamente ele deve imaginar o movimento correspondente sendo executado com perfeição . Figuras adicionadas podem auxiliar nesta  mentalização. Apos a aplicação desta técnica o atleta realiza que possivelmente ele já domina o movimento em questão e, portanto, não tem razão para estar inquieto ou ansioso.

O medo é negativo, quando se torna fator de limitação da motivação para o esporte ou atividade física ou quando impede a aquisição de habilidades específicas, essenciais para a melhora do rendimento em determinada modalidade esportiva. Certa quantidade de medo é necessária para chamar a atenção do desportista sobre riscos inerentes a certas atividades, prevenindo possíveis acidentes. Ele colabora também para uma mobilização ótima no estado pré-competitivo.

A autoconfiança também ajuda a controlar o medo: quanto maior se apresenta a autoconfiança de um atleta, menor é a sua ansiedade, insegurança e hostilidade, além de maior decisão, capacidade de arriscar e de autocontrole. Os grandes atletas controlam o seu medo, todos sentem, é inevitável. Após um grande feito é comum os atletas relatarem, além das glorias, o sentimento de alívio, de dever cumprido, da superação dos próprios limites.

O reconhecimento é o primeiro passo para analisar e eliminar medos e ansiedades que limitam a vida do atleta. Um bom profissional em psicologia do esporte é muitas vezes essencial para o acompanhamento e devido tratamento de medo ou ansiedade crônica. Trabalhar a resistência mental do atleta é tão crucial quanto o condicionamento físico e a força do mesmo. Um jogador vencedor traz um sólido jogo mental, assim como as habilidades reais.

Referências

Miguel, M. C. N., Brandão, M. R. F., & Souza, V. H. D. (2009). Jogadores de basquetebol de alto rendimento e a vivência de emoções pré-competitivas. Motriz rev. educ. fís.(Impr.), 15(4), 749-758.

WEINBERG, R.S.; GOULD, D. Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício. 2° Ed. Porto Alegre: Artmed. 2001

Cruz, J. F. (1996a). Psicologia do desporto e da actividade física. In J. F. Cruz (Ed.), Manual de Psicologia do Desporto (pp. 17-41). Braga: Sistemas Humanos e Organizacionais, SHO.

LAVOURA, Tiago Nicola; MACHADO, Afonso Antonio. Investigação do medo

Cruz, J. F. (1996) Motivação para a prática e competição desportiva. In J. F. Cruz (org.) Manual de psicologia do desporto. Braga: Lusografe, 305 – 332.

Roffé, M. (1999)  Psicología del jugador de fútbol: con la cabeza hecha pelota. Buenos Aires: Lugar Editorial. 

Roffé, M. (2005) La preparación psicológica de la selección juvenil argentina sub-20 de fútbol para el mundial 2001: un año de trabajo con futbolistas de elite. In M. Roffé; F. E. G. Ucha (org.) Alto rendimiento, psicología y deporte. Buenos Aires: Lugar Editorial, 77 – 98. 

Roffé, M. (2006) Miedos y Presiones: una investigación con 200 futbolistas de difetentes culturas. Lecturas: Educación Física y Deportes. Revista Digital, Buenos Aires, 11, 97. Disponível em <http://www.efdeportes.com>. Acesso em: 11 set. 2006.

HACKFORT D., SCHWENKMEZGER P. Angst und Angstkontrolle im Sport: sportrelevante Ansätze und Ergebnisse theoretischer und empirischer Angstforschung, 1980 – 277 paginas

Seligman, M. E. P. (1975). Helplessness. San Francisco: Freeman.

Letícia Capuruço – Psicóloga do CTE – UFMG . Especialista em Gestao de Pessoas e Especialista em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.

Karina Godoy Arruda – Especialista em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.