Projeto social orgulha professor mineiro

23 de março de 2020 ● POR Alessandro Lucchetti

“Fico ilhada quando chove. Não posso nem passar mal porque o Samu não entra”. A frase da técnica de enfermagem Maria de Lourdes Diniz, colhida pela reportagem do jornal O Estado de Minas, compõe o quadro de dificuldades atravessadas pela comunidade do Ribeiro de Abreu, na região Nordeste de Belo Horizonte, no contexto das fortes chuvas que atingiram vários bairros da capital mineira neste verão.

Inaugurada há 122 anos, BH é fruto de um projeto elaborado sob influências dos ideais positivistas, que moldaram a mentalidade dos militares e civis responsáveis pela proclamação da República Federativa do Brasil. Como se sabe, ao longo desse período de mais de um século, aquilo que era bonito numa prancheta desandou, por força de levas migratórias descontroladas, insuficiente desenvolvimento econômico, injusta distribuição de riquezas.

Mas o poder público, a despeito dos fracassos, continua planejando e executando, na tentativa de ao menos mitigar os danos que se observam nos monstrengos urbanos que são as imensas metrópoles brasileiras. Algumas dessas iniciativas são extremamente bem-sucedidas. É o caso do programa Fica Vivo!, desenvolvido pela Subsecretaria de Prevenção à Criminalidade, ligada à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

Tal programa, já em 2006, foi um dos 48 finalistas do Prêmio Global de Excelência de Melhores Práticas para a Melhoria do Ambiente de Vida – Prêmio Dubai, criado pelo Centro das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UM-Habita) em parceria com a municipalidade de Dubai. Um total de 88 países inscreveu 703 projetos. Dentre os 48 finalistas, apenas dois eram brasileiros.

O programa tem dois eixos: Proteção Social e Intervenção Estratégica. A vertente social se encarrega de promover oficinas de esporte, cultura e arte em locais estratégicos, apontados por uma análise da dinâmica social das violências e da criminalidade registrados nos territórios. A vertente de intervenção pressupõe a articulação entre a Secretaria de Estado da Segurança Pública, as Polícias Militar e Civil, Ministério Público, Poder Judiciário e órgãos municipais de Segurança Pública.

O professor de taekwondo Diego Oliveira, que atua em um dos núcleos, nascido e criado no Ribeiro de Abreu, aprendeu a arte marcial num outro projeto social local, em 1999. Cinco anos depois, já atuava como instrutor, dando aulas. Hoje, cumpre carga horária de cinco horas semanais no Fica Vivo! e atua como professor de Educação Física na rede municipal de ensino de BH. “O programa é muito amplo. Trabalha-se com capacitação profissional, com esporte, com oficinas que vão do corte de cabelo à arte com junco. Além das oficinas, atuamos no sentido de buscar solução para conflitos”.

Na visão de Oliveira, que atua também como professor de parataekwondo, essa aproximação entre poder público e comunidades, propiciada pelas oficinas, ajuda a dirimir conflitos que costumam cobrar alto custo em vidas. “Expressiva parcela da violência que se observa em grandes cidades é consequência de brigas de namorados, brigas de vizinhos, pequenos furtos, crimes cometidos na chamada defesa da honra”. O mapeamento de potenciais conflitos contribui para a prevenção e redução de homicídios dolosos de jovens moradores das áreas de abrangência dos Centros de Prevenção Social à Criminalidade (CPC).

Oliveira destaca que seu papel é um daqueles que podem ser exercidos pelo profissional de Educação Física. O trabalho pode ser definido como voluntário. “Os oficineiros são obrigados a providenciar lanche para todos os participantes. Há verba para equipamentos e uniformes e também para a realização de passeios. Recebemos uma pequena ajuda de custo para fazer frente a gastos pessoais com transporte, combustível e alimentação”.

Obviamente, ninguém ficará rico exercendo o trabalho de oficineiro do Fica Vivo!. Nem por isso a atividade deixa de ser gratificante. “Não é comum um jovem de áreas vulneráveis fazer projetos de longo prazo. Alguns têm ambições de ser alguém dentro da biqueira (a boca de fumo, no jargão local). Normalmente, quando pergunto quais são os objetivos deles dali a cinco anos, não sabem o que responder. Quando começam a frequentar as aulas, passam a estabelecer metas, como mudar de faixa, participar de um campeonato. Inserir essa perspectiva de futuro é importante para a vida deles, para que possam traçar um caminho”, diz Oliveira.

Revelar atletas promissores nem é um objetivo do programa, mas o talento de certos jovens não sabe disso. No mês passado, o lutador Leonardo Henrique de Almeida Alcântara, cria do Fica Vivo!, teve a oportunidade de participar do Grand Slam, que funciona como via de acesso à seleção brasileira de taekwondo. A oportunidade de ingressar na competição, realizada na capital capixaba, foi conquistada porque Leonardo escalou o ranking nacional juvenil, chegando à décima posição. O jovem mineiro não conseguiu a tão sonhada vaga, mas forneceu mais um elemento para reforçar a convicção de que o Fica Vivo! está na direção correta.