Psicologia do esporte para árbitros

26 de setembro de 2018 ● POR Flávio Rebustini

A história dos árbitros, juízes e oficiais do esporte começou com os primeiros Jogos Olímpicos na Antiguidade. Os Hellanodikai, os juízes dos gregos, tinham muitos papéis incluindo; selecionar os atletas, supervisionar seu treinamento, coordenar os sorteios, arbitrar as competições e julgar e decidir sobre as sanções se fosse necessário (Bagnall, Brodersen, Champion, Erskine, & Huebner, 2013).

As demandas psicológicas dos árbitros aumentaram substancialmente nos últimos anos. A preparação psicológica para árbitros de elite precisa ser especifica às exigências únicas de sua tarefa. Fatores psicológicos relativos à tomada de decisão, gerenciamento do jogo, avaliação de demandas de jogos, decisões motivacionais, planejamento, simulação mental e análise pós-jogo são algumas das atividades que poderiam ser realizadas com os árbitros. Não apenas para ajudá-los a lidar com o ruído, a pressão e o desempenho, mas também buscando ajudá-los a melhorar e lidar com a tomada de decisões sob diferentes aspectos e cenários.

Durante a competição, as decisões dos árbitros estão sempre sujeitas à opinião pública. Como resultado, os árbitros são frequentemente criticados e questionados sobre suas habilidades de tomada de decisão e gerenciamento de jogos. Bons árbitros podem fazer com que os eventos esportivos fluam bem e eles são capazes de criar um ambiente positivo focado no espírito esportivo e na competição. Uma boa arbitragem acelera o fluxo do evento esportivo, tendo em mente que o resultado da partida depende da tática e habilidade dos jogadores; Em contraste, a arbitragem ineficiente estraga o prazer do jogo para jogadores, técnicos e torcedores.

Para ser bem-sucedido como árbitro, é importante ser proficiente nas seguintes áreas: conhecimento do jogo, habilidades de tomada de decisões, habilidades psicológicas, habilidades estratégicas, comunicação ou controle do jogo e condicionamento físico (Guillen & Feltz, 2011).

O sucesso ou fracasso de um árbitro depende tanto de suas habilidades físicas (por exemplo, a preparação para as demandas específicas de um determinado esporte, a técnica e mobilidade, faculdades visuais) quanto de suas habilidades mentais (por exemplo, confiança, concentração, controle emocional). Essa relação entre os aspectos físicos da arbitragem e os psicológicos é essencial.

Os árbitros dos esportes que amamos têm um dos trabalhos mais importantes do mundo esportivo. É um clichê horrível, mas sem eles esses esportes competitivos não aconteceriam. Os árbitros são sujeitos a constantes pressões fisiológicas e psicológicas ao arbitrar (Wolfson & Neave 2007). Essas pressões incluem exigências de condicionamento físico, abuso verbal e pressão para tomar uma série de decisões corretas ao longo de uma partida. Basta lembrarmos do ocorrida na última final do USOPEN de Tênis provocado pela Serena Williams e a imensa pressão sofrida pelo árbitro por ele ter cumprido a regra. Chegando ao ponto de Serena Williams em um momento tê-lo chamado de “ladrão” e de que ele estava fazendo aquilo por ela ser “mulher”. Num estudo de Sarmento, Marques e Pereira (2015) em que entrevistaram 19 árbitros de futebol encontraram que de um lado os árbitros se sentiam prazer e estavam estimulados pela carreira e pela possibilidade de progresso, por outro, relataram uma série de constrangimentos como: comportamentos agressivos de adeptos, dirigentes e público, as dificuldades de conciliação com a vida familiar e profissional, as dificuldades de progressão na carreira e a injustiça na avaliação do desempenho.

Não é incomum ver casos de árbitros de alto nível que tamanha a pressão optam pela aposentadoria. Este foi, por exemplo, o caso de Anders Frisk que se aposentou dos gramados devido a ameaças de morte recebidas de torcedores do Chelsea após arbitrar uma partida da Champions League contra o Barcelona em 2005.

Esportes como tênis, críquete, vôlei e rugby tentaram ajudar os árbitros implementando tecnologias como o DRS em críquete e “Hawk-Eye” em tênis, junto com Desafio implantado no vôlei. Embora não haja apoio psicológico, essas intervenções tecnológicas reduzem o impacto de decisões imediatas no jogo, pois uma segunda opinião pode ser obtida rapidamente. Rolim et al (2018), destaca que a tecnologia pode contribuir como uma auxiliar na redução de situações estressoras, e com a pressão em que um arbitro é imposto por parte das torcidas, jogadores, técnicos e dirigentes. Pois o uso da tecnologia torna as decisões mais assertivas reduzindo a probabilidade de erros.

O treinamento típico da maioria dos árbitros enfatiza as técnicas físicas. Mas as habilidades que distinguem os melhores árbitros do resto são mentais e não físicas. A boa notícia é que existem técnicas que podem ajudá-los a aprender essas importantes habilidades mentais. Adquirir essas habilidades psicológicas pressupõe esforço, mas, com prática constante, os árbitros podem desenvolver suas habilidades psicológicas a ponto de serem capazes de controlar os estados mentais e emocionais, em vez de sentir que são controlados por eles.

Indiscutivelmente, para que um arbitro de qualquer nível alcance o resultado desejado de ser justo e consistente em suas decisões, enquanto experimenta o estresse mental do desempenho, eles devem ir além de simplesmente aperfeiçoar as regras e mecânicas e começar a desenvolver habilidades psicológicas. É importante que a psicologia do esporte reconheça que o desempenho dos árbitros esportivos é tão importante quanto o dos atletas, já que eles também são atores cruciais no desempenho do esporte.

REFERÊNCIAS

Bagnall, R.S., Brodersen, K., Champion, C.B., Erskine, A., & Huebner, S.R. (2013). The Encyclopedia of Ancient History. Malden, MA: Wiley-Blackwell.

Sarmento, H. M., Marques, A., & Pereira, A. (2015). Representações, estímulos e constrangimentos do árbitro de futebol de 11. Motricidade, 11(4), 15-25.

Guillen, F., And Feltz, D. L. (2011). A conceptual model of referee efficacy. Frontiers in Psychology, 2(25), 1-5.

Rolim, R. M., Gonçalves, G. H., & Gadelha, S. L. F. B. (2018). Novas tecnologias na arbitragem do futebol: uma prática suscetível a erros. In: Araújo, R. M.; Pinheiro, R. R. L. M. P. Educação, Direitos Humanos, Cidadania e Gestão. Coletânea Fronteiras do Saber 1. Unifacex, Natal.

Autores

Letícia Capuruço – Psicóloga. Especialista em gestão de Lideranças, Especializanda em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.

Ms. Cássio J. S. Almeida – Formado em Educação Física. Especialista em Psicologia do Esporte e Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.

Flávio Rebustini – Doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologias e Coordenador da Pós-Graduação em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio