Punhobol, esporte da colônia alemã, ganha espaço nas escolas do Sul do país

13 de junho de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Graças ao esforço de abnegados apaixonados pelo esporte, o Punhobol, modalidade praticamente desconhecida na maior parte do Brasil, resiste no Sul do país e experimenta um período de crescimento, sendo difundida principalmente entre escolas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Segundo a pesquisadora Ana Miragaya, doutora em Estudos Olímpicos e mestre em Educação Física pela Universidade Gama Filho, o Brasil tem hoje apenas cerca de cinco mil praticantes da modalidade. Mesmo assim, é uma das quatro potências internacionais do esporte, ao lado de Alemanha (100 mil), Áustria (30 mil) e Suíça (10 mil). O Brasil já conquistou dois títulos mundiais no masculino (99 e 2003) e um no feminino (2010).

Há relatos mais frequentes de prática de jogos baseados no impulsionamento de bolas pelos punhos desde a Idade Média. O jogo punhobol, com esse nome, foi mencionado pela primeira vez num texto atribuído a um obscuro imperador romano, Gordiano I, em 240 a.C.

O punhobol chegou a ser muito popular na Itália, no final do século XIX. As regras, no entanto, só foram padronizadas, nessa mesma época, por G.H. Weber, considerado o pai do punhobol alemão. No século seguinte, o esporte se difundiu internacionalmente, espalhando-se pelos países que mais receberam imigrantes alemães, como Estados Unidos, Canadá, África do Sul, Namíbia, Brasil, Paraguai e Argentina.

Trata-se de uma espécie de voleibol praticado apenas com os punhos, em campos gramados (50x20m) – a bola pode quicar uma vez no chão. Há uma versão indoor também, praticada no interior de ginásios, em quadras de 40x20m. Segundo pesquisadores, o voleibol, criado nos Estados Unidos por William George Morgan, em 1895, deriva do punhobol.

O punhobol foi introduzido no Brasil em Porto Alegre, na Sociedade Turnerbund, atual Sogipa, pelo professor Georg Black. A colônia alemã no Sul do país adotou a prática do esporte, que atingiu certa popularidade e chegou até o clube Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo) e à cidade de Nova Friburgo, no Rio. No entanto, a forte repressão ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial às colônias alemãs, italianas e japonesas no Brasil durante o governo Getúlio Vargas explica o desaparecimento do esporte no Sudeste.

No Sul, segundo a professora de Educação Física Deise Heck, o esporte foi retomado por iniciativa de clubes, como a Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo. “Um dos presidentes do clube, na década de 60, fez um movimento para que o esporte voltasse a ser praticado aqui. Infelizmente, em localidades como Sapiranga, Campo Bom e Navegantes, não houve renovação na base de praticantes e o esporte acabou morrendo”.

Nos anos 60, algumas iniciativas mantiveram o esporte vivo em São Paulo, como sua introdução na Sociedade Recreativa de Bragança Paulista, por exemplo.

A partir de 2011, o projeto “Legal é…Punhobol nas Escolas e Comunidade”, parceria da Prefeitura de Novo Hamburgo, Associação Desportiva e Cultural de Novo Hamburgo e Sociedade Ginástica Novo Hamburgo, muitos professores foram capacitados. A modalidade foi incluída na Olimpíada Escolar do município e experimenta franco crescimento. “Em 2017, foram inscritas 80 equipes em três categorias. Tivemos que cancelar as disputas na categoria 17 e 18 anos por falta de espaço físico”, diz Deise.

Paralelamente, em Camaquã, outra cidade gaúcha, o projeto “Punhobol para todos” capacitou mais professores, forjando outro polo de punhobol no estado. Em Curitiba, o punhobol feminino viceja em alguns clubes, como o Duque de Caxias, Curitibano e Mercês.

Em Santa Catarina, um dos veículos que colaboram para a propagação da modalidade são os Jogos Abertos de Santa Catarina, os Jasc, que a incluíram em sua programação. No ano passado, oito cidades se inscreveram: Florianópolis, Pomerode, Rio Negrinho, Balneário Piçarras, São Bento do Sul, Caçador, Blumenau e Joinville.

A grande facilidade para a prática do esporte, na avaliação de Deise Heck, ex-jogadora da seleção brasileira, explica o crescimento. “Nas escolas, é possível praticar em quadras de vôlei. Dá para improvisar diversos formatos de disputa. Você pode até dividir a quadra com um banco. Pela regra, o esporte é disputado por duas equipes com cinco jogadores cada uma. Mas dá para jogar em trios, em duplas…”.

Por muitos anos, o crescimento do esporte foi dificultado pelo custo de importação das bolas. O punhobol é disputado com bolas ocas, completamente pressurizadas, com peso entre 350 e 380 gramas. Felizmente, hoje há um fabricante nacional, a Ludwig, empresa da cidade gaúcha de Bom Princípio, que produz material de boa qualidade, segundo Heck.

Um dos entraves para a propagação do punhobol é a disputa de espaços gramados com o futebol. “Os clubes querem os gramados para jogar bola. A locação desses espaços é mais rentável para o futebol. O campo de punhobol é grande. O tamanho de dois campos de punhobol equivale ao de um de futebol. O que nos ajuda é que certos clubes, como a Sogipa, que tem 11 títulos de mundiais de clubes, faz questão de preservar o espaço para o nosso esporte”, diz Mateus Kuntzler, jogador da seleção brasileira.