Se exibir com o seu tempo de corrida nas redes sociais pode ser perigoso

19 de setembro de 2018 ● POR Flávio Rebustini

A prática de corrida tem se desenvolvido muito nos últimos anos, tanto em número de praticantes quanto na expansão do mercado que envolvem as diversas provas e modalidades. O número de competições voltadas ao público não profissional cresce diariamente. Cresce também o mercado de equipamentos e acessórios voltados para esse grupo de atletas amadores, sendo que parte desse grupo tem buscado sistemas de preparação similares aos dos atletas de alto rendimento. Podemos destacar a corrida de rua entre as modalidades esportivas que mais crescem no Brasil, podendo reunir mais de 25 mil pessoas em uma única prova.

Talvez o fato de não requerer um espaço exclusivo e necessariamente de equipamentos sofisticados, o que não afasta a escolha por equipamentos de alto custo, torna a sua prática possível por diversas classes sociais (EVANGELISTA, 2010; FREDERICSON e MISRA, 2007; YAMATO, SARAGIOTTO e LOPES, 2011). Em matéria de 2013 destacou-se que o conjunto de seis provas que formam o World Marathon Majors (WMM) – Boston, Berlim, Chicago, Londres, Nova Iorque e Tóquio – gera um impacto econômico superior a 400 milhões de dólares ao ano (TERRA, 2013).

Mesmo com os vários benefícios da prática de exercícios físicos, temos observado uma elevada incidência de lesões nesses praticantes (RIOS et al, 2017). Pesquisas demostram que as regiões mais afetadas são os membros inferiores, principalmente, joelhos (SOUZA et al., 2014; JUNIOR et al., 2012). Tais ocorrências podem estar relacionadas ao alto volume de treinamento que esses atletas amadores se submetem, percorrendo distâncias semanais acima de 80 km. Além disso, essas lesões podem ser por equipamento inadequado, erros na técnica de corrida, entre outros.

Essa expansão, a tentativa de similitudes com o ambiente de competição e de alto desempenho, em muitos casos, também tem levado à desvios. Tem trazido para o ambiente, mesmo de atletas amadores, e que iniciaram sua prática tendo como objetivo a saúde e o bem-estar, a adotarem práticas nada saudáveis. Neste contexto da busca por resultados, e não só por sua causa, tem crescido o uso do doping feito por atletas amadores. Em matéria feita pelo Esporte Espetacular em 2017, os entrevistados disseram que a maior razão para o uso dos remédios proibidos é a vontade/necessidade destes atletas em ostentar suas conquistas esportivas nas redes sociais. Álvaro da Costa Ferreira, treinador experiente, diz não saber precisar a quantidade de atletas dopados, mas ele suspeita que sejam muitos.

Outro aspecto é a expansão de aplicativos de treinamento que marcam e exibem o desempenho do corredor. Um destes aplicativos gera um ranking dos atletas que tem maior desempenho (ou seja, aqueles que correm maior distância em menos tempo) nos locais mais procurados. Os atletas passam a controlar seu “pace” – seu ritmo de corrida, comparam e buscam superar seus adversários não apenas nas provas como nos treinamentos via aplicativos. Competem contra alguém que não conhecem, não viram e não verão. Mas que se tornará sua referência a ser superada. Essa forte competição criada entre atletas amadores, o nível de pressão para melhorar os resultados e a vontade de impressionar com o tempo de corrida nas redes sociais pode ser motivo para que atletas amadores estejam copiando alguns dos exemplos ruins que existem no mundo do esporte de alto rendimento. Portanto, há uma grande necessidade de uma orientação adequada sobre os benefícios e riscos da prática esportiva, seja profissional ou amadora.

Referências

EVANGELISTA, Alexandre Lopes. Treinamento de corrida de rua: Uma abordagem fisiológica e metodológica. Phorte Editora LTDA, 2017.

FREDERICSON, Michael; MISRA, Anuruddh K. Epidemiology and aetiology of marathon running injuries. Sports Medicine, v. 37, n. 4-5, p. 437-439, 2007.

JUNIOR, LC Hespanhol et al. Perfil das características do treinamento e associação com lesões musculoesqueléticas prévias em corredores recreacionais: um estudo transversal. Braz J Phys Ther, v. 16, n. 1, p. 46-53, 2012.

RIOS, Edmar Tiago et al. Influência do volume semanal e do treinamento resistido sobre a incidência de lesão em corredores de rua. Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício (RBPFEX), v. 11, n. 64, p. 104-109, 2017.

DE SOUZA, Carlos André Barros et al. Treinamento resistido como fator preventivo de lesões em corredores dos 10 km tribuna fm-unilus. UNILUS Ensino e Pesquisa, v. 11, n. 24, p. 5-9, 2014.

YAMATO, Tiê Parma; SARAGIOTTO, Bruno Tirotti; LOPES, Alexandre Dias. Prevalência de dor musculoesquelética em corredores de rua no momento em que precede o início da corrida. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 33, n. 2, p. 475-482, 2011.

Autores

Ms. Cássio J. S. Almeida – Formado em Educação Física. Especialista em Psicologia do Esporte e Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida.

Letícia Capuruço – Psicóloga. Especializanda em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.

Flávio Rebustini – Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte. Doutor pela Unesp/Rio Claro.