Suicídio de ciclista americana evidencia necessidade de formação psicológica na EF

20 de março de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

O estudante de Educação Física e o profissional já formado só têm a ganhar se estudarem psicologia. Essa é a opinião de Rodrigo Scialfa Falcão, psicólogo formado pelo Mackenzie com mestrado em Esportes para Resolução de Conflitos pela Universidade Aberta da Catalunha.

“Ter um mestrado em psicologia é um baita diferencial. É importante para saber como lidar com certos problemas, como encaminhar”.

Falcão atua hoje como psicólogo do esporte na ADC Bradesco, em Osasco, nas categorias de base femininas de basquete. Consultor em Psicologia do Esporte com experiência atuando junto a esportistas profissionais e amadores, o profissional já lidou com atletas, treinadores e preparadores físicos de diversas modalidades, como futebol, futsal, rúgbi, basquete, tênis, lutas, natação e triathlon. “Já lidei com muitos casos de depressão e de depressão grave. Presenciei muitos casos de jovens atletas que não conseguem lidar com pressões simultâneas, como as da vida escolar, demandas da família e próprias. Consegui identificar, inclusive, casos de abuso sexual num clube de futebol de São Paulo, a partir da identificação de alguns sintomas, e encaminhamos a questão para o Ministério Público”.

Hoje, a gama de cursos de especialização disponíveis para educadores físicos é bastante ampla, segundo Falcão. “Eles podem aprender a lidar com demandas desse tipo como instrutores de academias de ginástica, por exemplo, e a incentivar alunos a criar e a manter motivação para praticar a atividade física, por exemplo”.

A necessidade de profissionais especializados em psicologia esportiva foi colocada novamente em evidência com a divulgação do suicídio, aos 23 anos de idade, da ciclista norte-americana Kelly Catlin, três vezes campeã mundial e vice-campeã olímpica nos Jogos do Rio.

Há diversas indicações de que atletas de elite estão expostos a riscos mais elevados de desenvolver ansiedade e depressão, ambos fatores de risco para o suicídio. Recentemente, em muitos casos, os atletas têm demonstrado maior desprendimento para falar a respeito. É o caso de nadadores consagrados, como Michael Phelps e Missy Franklin. No Brasil, foram bem divulgados desabafos de jogadores de futebol de sucesso, como Pedrinho e Nilmar.

Charlie Townsend, primeiro treinador de ciclismo de Catlin na NorthStar Development Cycling, em Minnesota, especula que a atleta pode ter sido vítima de suas próprias expectativas. Em menos de dois anos, a jovem prodígio ascendeu a competições nacionais e internacionais. “Acho que Catlin colocava expectativas muito, muito altas, sobre si mesma. E, em sua grande maioria, ela esteve à altura dessas expectativas”.

A importância da detecção de problemas dessa ordem por parte de treinadores e preparadores físicos pode salvar vidas. Pedrinho, cuja carreira foi prejudicada por numerosos casos de lesões, tendo recebido o maldoso apelido de “Podrinho”, foi salvo, após sofrer a terceira cirurgia de joelho, pela observação atenta de um profissional sensível aos sintomas, mesmo sem ter nenhuma formação em psicologia: Vanderlei Luxemburgo.

“O Luxemburgo, que na época era meu técnico, percebeu que eu não estava bem. Identificou e me mandou para o psicólogo. Ele mesmo me levou para um psiquiatra. Fui diagnosticado com depressão profunda. Morava sozinho na época. Ia entrar com medicamento forte e tinha um prazo de melhora. De repente, teria até que ser internado. Mas não acreditava que os medicamentos fossem capazes de me fazer parar de chorar”, disse o ex-jogador, em entrevista ao site da Fox Sports.