Você já pensou em trabalhar numa ‘academia’ para bebês?

25 de abril de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

O fisioterapeuta Lucas Silva deu uma tacada certeira: deixou o trabalho na reabilitação de ombros e joelhos de profissionais venezuelanos da Major League Baseball, em Caracas, em 2014, e hoje é dono da franqueadora My Baby Gym, uma espécie de academia para bebês. A rede é formada por 17 unidades, mas as projeções do empreendedor gaúcho sinalizam que esse número deverá saltar para 30 até o final do ano.

A My Baby Gym, segundo Lucas, é um promissor mercado de trabalho para profissionais de Educação Física com pós-graduação em psicomotricidade. “Nós admitimos fisioterapeutas, psicomotricistas, fisioterapeutas, pedagogos e educadores físicos com pós em psicomotricidade. Nossas portas estão mais do que abertas para esses profissionais”.

Com o tempo, Lucas percebeu a necessidade de exigir o registro no CREF dos profissionais de Educação Física. “Recebemos algumas visitas do CREF e agora só admitimos profissionais com registro”.

Há educadores físicos que compraram franquias também. “O Brasil tem muita vontade de empreender. Recebemos de sete a dez e-mails semanais de pessoas interessadas em ser franqueadas. Os perfis variam bastante: temos advogados, investidores, recém-formados em Educação Física que decidem abraçar essa área”.

Silva orienta os franqueados a ter cuidado extremo na admissão de pessoal. “Trabalhamos com crianças de dois meses a quatro anos de idade. Nossa atividade é como andar num slackline. Qualquer descuido pode acabar com a nossa reputação. Por outro lado, os pais são bastante sensíveis, com grande propensão a se encantar e a se engajar quando aprovam o trabalho. Temos cuidados muito severos com segurança e higiene”, diz o empresário.

O empreendedor avalia que há um belo nicho de mercado em academias. Já houve uma filial da Baby Gym situada no interior de uma unidade da Cia. Athletica, mas já foi fechada devido à exiguidade de horários.

O potencial desse mercado, segundo Silva, é enorme. “Hoje você não vê uma criança com braço engessado. As crianças não caem mais de uma árvore, já não sobem nela. Vemos hoje os pais muito ocupados, sempre on-line, respondendo a e-mails em casa. Chegam cansados em casa, dão banho e comida para os bebês. Nesse contexto, fica mais fácil dar o tablet para a criança do que brincar com ela. Nossa proposta se casa muito com a necessidade de os pais dedicarem um pouco mais de tempo aos filhos, nem que seja uma hora por dia. E eles fazem isso”.

As atividades oferecidas pelo My Baby Gym não são exatamente exercícios físicos. Trata-se de brincadeiras formatadas para desenvolver o potencial psicológico, físico e social dos bebês. A ideia é contar com o envolvimento dos pais, que podem e devem repeti-las em casa. “Aqui não damos uma folha de papel para a criança desenhar. Damos tinta, terra, areia cinética”, diz Silva. As crianças escalam blocos de espuma, engatinham em túneis, brincam com latas…

O fisioterapeuta percebeu que poderia se transformar em empreendedor ao buscar (e não encontrar) em Porto Alegre um lugar para deixar o filho justamente no momento em que procurava emprego, em março de 2014, após se mudar da Venezuela. Seu filho, Matias, tinha então sete meses e não havia vagas em creches na capital gaúcha.

“Eu tinha um dinheirinho contado e o diploma obtido no exterior, que não me valia de muita coisa”.

Silva foi se aventurar em Caracas depois de conhecer uma venezuelana e se enamorar por ela no Canadá, onde foi cursar fisioterapia. A experiência na Venezuela foi boa profissionalmente – ele trabalhava no consultório do traumatólogo Hernán Medina, que atendia atletas venezuelanos de altíssimo nível da Major League Baseball.

Com o decorrer dos anos, no entanto, a crise econômica e social do país venezuelano assumiu enormes proporções. “Estava começando a faltar comida. Tínhamos que recorrer ao mercado negro, que cobrava preços altíssimos. Passou a faltar luz, água. Começamos a ficar sem nada”.

Feliz por ter dado a volta por cima, Silva se considera afortunado por poder também ser um empregador numa quadra especialmente difícil da vida econômica nacional. “Nosso negócio tem muito a crescer. Eu me interesso muito por fóruns e blogs de Educação Física, e vejo anúncios de cobertura de férias para professores de academia e personal trainers. Paga-se R$ 6, R$ 10 por hora. Por outro lado, temos um vácuo no que tange à mão de obra. Muitos fisioterapeutas querem atender em hospitais, gostam de se ver como quase médicos. Os educadores físicos são profissionais gabaritados por saberem trabalhar com o desenvolvimento humano. Eu aconselho aos profissionais e aos estudantes de Educação Física que façam uma pós em psicomotricidade, que estudem e se atualizem. Este mercado é interessante”.