Bicicleta na escola: professora de Floripa ensina crianças a ir à escola pedalando

19 de setembro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Uma placa de gordura foi responsável por transformações impactantes na vida da professora de Educação Física Ana Destri, de Santa Catarina, e de muitas crianças. Em 2012, ela recebeu o diagnóstico de que tinha uma doença genética que provocava acúmulo de gordura na artéria carótida, que liga o coração ao cérebro. Essa má circulação eleva os riscos de ataque cardíaco e de AVC (acidente vascular cerebral).

Ana foi orientada a tomar remédios, mas se recusou, num primeiro momento. “Professor de Educação Física é meio metido. Eu disse ao médico que ia reduzir a placa praticando mais atividades físicas e me alimentando melhor”.

Posteriormente, ao consultar um especialista em medicina esportiva, a professora se convenceu de que tinha que tomar os remédios, além de cuidar da alimentação e de se exercitar mais. Resolveu ir pedalando até as escolas em que dava aula – antes já corria e praticava muay thai.

Pedalar exige maior consumo de oxigênio para geração de energia, além de estimular a frequência cardíaca e de exigir mais trabalho do coração, proporcionando elevação das capacidades cardiopulmonar e cardiovascular.

Pela primeira vez, Ana teve uma bicicleta própria, que ganhou até nome – Bik’Ana. Na infância e adolescência, dividia uma magrela com os irmãos. Morando no bairro do Coqueiros, na parte continental da capital catarinense, Ana se desafiou a atravessar a Ponte Pedro Ivo Campos pedalando, e teve uma grata surpresa. “A ponte tem uma passarela por baixo, que foi descoberta por muitos ciclistas e pedestres. Como o ônibus é caro – R$ 4 para atravessar três quilômetros, muita gente começou a pedalar em Florianópolis. Nós, ciclistas, deixamos de ser invisíveis”.

Logo no primeiro dia em que foi dar aulas na Escola Desdobrada Municipal José Jacinto Cardoso, no bairro da Serrinha, Ana chamou a atenção das crianças. “As crianças me viam chegando de bicicleta e começaram a me entupir de perguntas: se era perigoso, se eu morava muito longe, se eu ficava muito cansada. Foi essa curiosidade que me moveu a criar um projeto para orientá-las para ir até a escola de bicicleta”.

Ana foi formatando o projeto Bicicleta na Escola, que consiste justamente em orientações para que as crianças usem a bike como meio de transporte entre o lar e a escola, com destaque para a sinalização. A atividade é exercida em cinco sessões com as crianças, com auxílio do professor de sala ou com os colegas educadores físicos.

“Aos poucos fui aprendendo que essas sessões não podem substituir as aulas de educação física, é uma atividade à parte. As crianças não abrem mão de ir para a quadra, é a oportunidade que têm para extravazar, gastar toda a sua enorme energia. Depois fomos articulando o conteúdo nos chamados aros: por meio da bicicleta, passamos conteúdo sobre respeito, gênero, compartilhamento, mobilidade urbana”.

No primeiro encontro, as crianças mostram suas habilidades na bicicleta. “Elas me mostram a bike como seus brinquedos. Vejo o repertório delas sobre a bike. No segundo encontro, realizamos a grande ruptura: é para a criança deixar de ver a bicicleta como brinquedo e enxergá-lo como meio de transporte. O gran-finale é levar as crianças da escola até suas casas pedalando, mostrando como deve ser feita a sinalização”.

O conteúdo já foi ministrado a 20 escolas de Florianópolis, e foi exportado para a cidade de Pirenópolis (GO), cuja administração a adotou como política pública. Há contatos com as prefeituras de Santa Bárbara D’Oeste, em São Paulo, e do Rio de Janeiro, para implementação. A professora já expôs o projeto na Holanda, México e Chile.

Até hoje, Ana não tem uma estimativa do número de ciclistas que ajudou a criar. “Muita gente me pergunta, mas não tenho ideia. Mas fico satisfeita por constatar que não só as crianças, mas professores e pais passaram a pedalar. Em cada escola, já vejo três, às vezes quatro professores pedalando. Eles são espelhos para as crianças”.

O relevo acidentado de Florianópolis e a omissão do poder público, que deixa a desejar quanto à construção de ciclovias, são obstáculos para que os ciclistas proliferem. Ana, com o auxílio da UCB (União de Ciclistas do Brasil), redigiu uma carta-compromisso, que já foi assinada por vários vereadores e pelo próprio prefeito Gean Loureiro (PMDB) quando eram candidatos. A carta consiste em dez itens para a promoção da bicicleta como meio de transporte na cidade. “Ainda este mês, junto com as crianças, terei uma audiência com o prefeito para cobrá-lo sobre a carta”.

Os pais das crianças, muitos deles temerosos quanto aos riscos da adoção da bicicleta, ganham segurança a partir das orientações repassadas por Ana. “Grande parte das crianças que participam do projeto tem até 12 anos. O Código Brasileiro de Trânsito permite que crianças pedalem nas calçadas. Aí nós reforçamos que é obrigatório respeitar o pedestre. Nós ensinamos a elas que o maior cuida do menor: o motorista deve respeitar e proteger o ciclista, e o ciclista deve fazer o mesmo pelo pedestre”.

No caso de Ana, santo de casa faz milagres. O marido dela, João Destri, de 52 anos, hoje pedala até o trabalho, num total de oito quilômetros diários. A filha mais velha ganhou uma bicicleta de aniversário.

E a placa de gordura? “No ano passado, fizemos um exame e ela sumiu. Até brinquei com o médico, dizendo que tinham nos dado o resultado de outro exame”, diz Ana, satisfeita por ter ajudado a proporcionar mais qualidade de vida a tanta gente. “É engraçado que o projeto não nasceu por vontade própria. Tudo aconteceu a partir da curiosidade das crianças de me ver pedalando”.