Educação Física a distância? Professores discordam de Bolsonaro

01 de novembro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Esta semana, obviamente, é de ressaca para os 47 milhões de eleitores que optaram por Fernando Haddad no segundo turnos das eleições presidenciais. Mas é também de inquietação para muitos professores, nesse grupo incluídos, é claro, os de Educação Física, devido à indefinição dos planos de Jair Bolsonaro para a educação.

Educação Física a distância

No início de agosto, uma entrevista do então candidato do PSL deixou muitos educadores atônitos. O capitão reformado do Exército defendeu a educação a distância desde o ensino fundamental, e disse que essa modalidade de ensino “deve ser considerada como alternativa para as áreas rurais onde as grandes distâncias dificultam ou impedem aulas presenciais”.

Bolsonaro disse que a presença física dos alunos nas escolas ocorreria nos dias de provas e de aulas práticas, mas não ofereceu nenhum tipo de detalhe sobre essa ressalva.

A ideia foi apresentada após uma conversa de 2h30 de Bolsonaro com Stravos Xanthopoylos, ex-coordenador da área de ensino à distância da Fundação Getúlio Vargas, hoje dono de uma empresa que presta consultoria a instituições que preparam o lançamento dessa modalidade de ensino. O empresário de ascendência grega já se distingue como o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro na área de educação, que deverá ser abrigada num novo superministério, dividindo espaço com Cultura e Esportes.

“Conversei muito sobre ensino a distância. Me disseram que ajuda a combater o marxismo. Você pode fazer ensino a distância, você ajuda a baratear. E nesse dia talvez seja integral”, disse o então candidato.

O ensino à distância, segundo Xanthopoylos, poderia ser ministrado em áreas rurais e também nas urbanas afetadas por problemas de transporte. Poderia ser oferecida, ainda, como alternativa para pais que optem por manter os filhos em casa.

Indagados sobre o assunto pelo Portal da Educação Física, alguns professores de Educação Física se disseram incomodados com essa proposta. É o caso do professor Nilo Terra Arêas Neto, membro do Grupo de Pesquisa “Vulnerabilidades e desenvolvimento infanto-juvenil” da Fundação Oswaldo Cruz e doutor em Ciências da Saúde na linha de pesquisa Violência e Saúde.

“Essa questão tem vários vieses. Estão aplicando esse conceito do Estado mínimo, e, nesse contexto, o Estado vai descuidando de suas obrigações. Ensino à distância significa economia com merenda, com transporte escolar, com estruturas físicas. Aí vamos ter um Estado que arrebata quase 40% do nosso salário em impostos e dá um retorno muito pequeno”.

Nilo Terra fez questão de dizer que sua opinião não está vinculada à questão partidária. “Nem tenho vontade de discutir a questão político-partidária. Nenhum dos dois candidatos que passaram para o segundo turno teve o meu aval. O que me incomoda é que alguns direitos que nunca foram exercidos podem ser riscados. Em termos de arcabouço jurídico, estamos bem. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) é um documento muito avançado. Mas já estão querendo modificá-lo sem que vários de seus direitos jamais tenham sido de fato oferecidos”.

Na opinião de Terra, a introdução do ensino à distância desde o ensino fundamental haverá de alargar as desigualdades econômicas entre classes sociais no Brasil. “Acho que essa é uma violência estrutural e de classe. Você acha que os pais que têm dinheiro colocarão suas crianças no ensino à distância? Isso apenas vai aumentar o fosso entre pobres e ricos do país”.

Com mais de duas décadas de atuação como professor de Educação Física na rede pública e privada em Campos de Goytacazes, a mais populosa cidade do interior do Rio, Terra só enxerga prejuízos para as crianças que forem expostas ao ensino à distância em tão tenra idade. “Educar é um ato político. Com o ensino à distância estaremos perdendo o conceito de Pólis, de espaço de convivência, de cidade. Foi na Pólis que nasceu a democracia. Se as crianças não conviverem, passarão a integrar apenas uma massa de manobra, como conceituava Paulo Freire que, aliás, é o terceiro educador mais citado no mundo em artigos e é execrado pelos militares. E tudo isso porque era um educador que ensinava a pensar”.

As ideias de Bolsonaro sobre ensino à distância ainda são incipientes – segundo a revista Época, os contatos do então presidenciável com Xanthopoylos se resumiram à conversa de 2h30 e depois a contatos por WhatsApp.

Qual seria a carga de aulas práticas? Os pais levariam seus filhos à escola apenas para as aulas de Educação Física? Haveria alguma redução da carga dessa disciplina?

Terra esclarece que o desenvolvimento físico está intimamente ligado ao das estruturas cognitivas para o aprendizado de outras disciplinas. “Atendo-nos agora à questão da Educação Física: o desenvolvimento da motricidade humana é fundamental para o aprendizado de português e matemática. O desenvolvimento das vias nervosas e sensoriais necessário à motricidade é o mesmo que será utilizado para o aprendizado dessas disciplinas. É como se tivéssemos o carrinho de pipoca e um Scania, ambos utilizando a mesma estrada. Uma das variáveis mais importantes no aprendizado é a coordenação espaço-temporal. Como você vai fazer isso pelo Skype ou por meio de uma aula gravada no You Tube?”.

Mesmo que a carga de aulas de Educação Física seja preservada, a redução dos contatos entre as crianças e com os professores seria extremamente prejudicial para o aprendizado das crianças. “A aprendizagem se dá pelas relações. Como dizia Sarte, eu me constituo pelo olhar do outro. E como você fará se não houver o outro? A criança aprende na escola a todo o momento, até quando se organiza em filas. A percepção é a chave do conhecimento. Isso pode parecer filosófico, mas é muito fácil de se constatar. A educação pelo ensino à distância é uma educação sem afeto. Você estará desumanizando num momento em que é muito cedo para desumanizar. Eu mesmo já fiz cursos de ensino à distância. Mas eu já tinha graduação, duas especializações, já era doutor. Existe um momento para o ensino à distância, e acho que ele deve ocorrer inclusive depois da graduação, em certos cursos”, preconiza Terra.

Presidente do Sinpef (Sindicato dos Profissionais de Educação Física) do Rio de Janeiro, Diego Verón está preocupado com as notícias a respeito dos planos de Bolsonaro para a educação. “Está tudo muito nebuloso. Não temos ainda muitas informações a respeito. A princípio, temos apenas a ideia da Escola Sem Partido e a do barateamento da educação por meio do ensino à distância, que são duas ideias totalmente nocivas, ao meu ver”.

Verón espera que ao menos a carga de aulas de Educação Física seja mantida. A redução poderia afetar até mesmo a saúde das crianças. “Há uma relação intrínseca entre teoria e prática na educação. A diminuição ou até mesmo a falta da vivência corporal prejudicariam o aprimoramento da maturação motora. E perder a parte prática poderia ocasionar um transtorno específico de desenvolvimento da condição motora, bem como possíveis comorbidades associadas à ausência de estímulos motores”.

A ideia de optar pelo EaD como forma de ajudar a “combater o marxismo” é alvo de críticas do educador e sindicalista. “No que tange ao desenvolvimento cognitivo e afetivo, a falta de incentivo ao pensamento crítico e relexivo nos levaria a um retrocesso cultural à medida que temas transversais, como a ética, saúde, meio-ambiente e orientação sexual deixariam de ser abordados no âmbito escolar. E a escola é o meio mais efetivo para a prática de atividade física no ensino fundamental. A Educação Física é a disciplina mais eficiente para o desenvolvimento da interação social do indivíduo”.

O presidente do Sinpef do Rio Grande do Sul, Ubirajara Brites, também se manifestou contrário ao EaD desde o ensino fundamental. “Nós vivemos num país desorganizado. A figura da mamãe dona de casa é cada vez mais rara. As famílias não dispõem de estrutura para que seus filhos possam aprender em casa, porque todos têm que sair para batalhar em seus empregos. Acho essa ideia imprópria, impraticável e não dará os resultados esperados”.

Brites espera que a discussão desse tipo de questão seja aberta à sociedade. “Não queremos nada empurrado goela abaixo, a exemplo da reforma trabalhista, que não foi discutida pela sociedade e virou esse desastre que está aí”.

O professor de Educação Física Carlos Camilo, treinador de atletismo do projeto “Campeões do Futuro”, de Vila Velha (ES), entendeu a ideia de Bolsonaro como uma alternativa para áreas rurais, onde seja difícil o acesso à escola. “Acho que é uma forma de oferecer ensino a locais como o interior de Tocantins, por exemplo. Ainda assim, acredito que o dever do Estado é construir escolas por todas as partes do território nacional”.