Longe dos holofotes, o trabalho de desenvolvimento de futuros craques do basquete

17 de março de 2020 ● POR Redação

Russell Westbrook do NBB, Mr. Triplo-Duplo. Quem é são-paulino e tem olhos para algo além do futebol e até quem não é, mas acompanha basquete, sabe que esses apelidos pertencem a George Lucas Alves de Paula. Georginho, o armador cheio de efeitos especiais, alcançou uma grande façanha no mês passado: registrou seu quinto triplo-duplo na temporada, estabelecendo recorde na liga. Aos 23 anos de idade, o regente do Tricolor lidera cinco itens das estatísticas da principal liga nacional: é líder em rebotes, assistência e eficiência, além, é claro, de deter o maior número de triplos-duplos e de duplos-duplos da atual temporada.

No finalzinho do ano passado, outro talento do basquete despontou na mídia: trata-se de Riquelme Benigno de Lima, recentemente contratado pelo Pinheiros. Proveniente do Jardim Colombo, bairro que integra o complexo de Paraisópolis, o promissor basqueteiro de 13 anos de idade com nome de craque argentino foi tema de uma reportagem que mereceu uma página inteira de uma edição dominical do Estadão. Mas o que liga as histórias desses dois talentos do basquete brasileiro? Uma professora de Educação Física que está bem distante dos holofotes. Trata-se de Monique de Souza Ferreira Poles, que soma 40 anos de carreira no basquete, entre as fases de atleta e de treinadora. Técnica do Instituto Brazolin/São Bernardo, Monique desenvolve talentos que chegam a chamar a atenção até de scouts da NBA.

Com trabalho de décadas no Colégio São José (atual Bom Jesus), Monique chamou a atenção de um sujeito que conhece um “pouquinho” de basquete: Marcel Ponikwar de Souza, um dos maiores talentos que a seleção brasileira já teve. Entre outras façanhas do ala, é sempre bom recordar a cesta, praticamente do meio da quadra, que deu ao Brasil o bronze no Mundial das Filipinas, em 78, para desalento dos italianos. Foi o cerebral companheiro de Oscar Schmidt, Guerrinha, Israel e Gérson, entre outros, que deu a oportunidade para que Monique trabalhasse na base de São Bernardo.

Monique é do tipo que gosta de ensinar mesmo: pegar garotos ainda bem crus e trabalhar fundamentos, verdadeiramente ensinar o que é o basquete. “Gosto demais do sub-12. Eu me sinto muito bem pegando um garoto do zero. No sub-13 você já começa a ver a conclusão dessa fase de trabalho”.

Monique é mais uma trabalhadora do meio de basquete que vem constatando um crescimento do interesse pela modalidade. Em outras matérias do Portal da Educação Física isso já foi discutido. Mas a experiente profissional deixa bem claro que não se trata de um mar de rosas.

“Temos visto jogos do NBB que apresentam capacidade de público esgotada, com gente do lado de fora do ginásio. Quanto a salários e espaço, temos limitações. Manter a base não é fácil para os clubes, principalmente em tempos de recessão. Os clubes e times bancados por prefeituras sofrem de problemas adicionais. Quando os meninos chegam ao Sub-13, clubes com mais recursos, como São Paulo, Espéria, Palmeiras e Corinthians, tiram-nos de nós. Antigamente, só o Pinheiros e o Paulistano faziam isso. Além disso, as prefeituras normalmente não registram profissionais como eu. Esse é o meu caso”. Os clubes bem estruturados, segundo ela, têm mais apreço por essa modalidade de trabalho que está virando manga de colete no Brasil: aquela em que se registra o trabalhador na Carteira de Trabalho e Previdência Social.

Monique já está acostumada a ver os talentos deixarem São Bernardo. Nem sempre as reportagens citarão o envolvimento dela na fase inicial de aprendizado, mas a professora se diz satisfeita com o reconhecimento dos próprios garotos.

“Se qualquer um perguntar ao Georginho quem é a mãe branca dele, receberá como resposta que é a Monique. Isso para mim não tem preço”.

Outra forma de realização é mostrar a um garoto como Riquelme que o basquete oferece um caminho, caso ele se esforce de verdade. Riquelme foi “descoberto” por André Brazolin, armador que defendeu Corinthians e Flamengo, entre outros. Gestor de um projeto social de verdade, Brazolin já atuou em presídios, ofereceu prática esportiva a filhos de presidiários e atua constantemente em comunidades socialmente vulneráveis. Riquelme foi detectado há três anos, na comunidade de Paraisópolis, que sofreu recentemente um trauma devido a uma ação desastrada e injustificável da Polícia Militar paulista. O garoto evita falar sobre seu dia a dia na região. Em mais de uma oportunidade, já declarou que quer tirar a mãe do Jardim Colombo.

“Quando recebo um jovem como o Riquelme, que vem de uma comunidade carente e logo se percebe que é um menino doce, sonhador e com os olhos brilhando, é sensacional; ter ciência que você pode dar condições a ele através do esporte para conseguir obter alguma coisa a mais para a vida dele e da família é gratificante”, disse Monique ao assessor de imprensa Fred Batalha.