Piracicaba se orgulha de um esporte que pode chamar de seu: o Quimbol

13 de dezembro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Quem acompanha este Portal com alguma regularidade já se deparou certamente com relatos da introdução da prática de outros esportes nas aulas de Educação Física por iniciativa de professores dispostos a romper a mesmice do chamado quarteto fantástico (futsal, vôlei, basquete e handebol). Piracicaba, no entanto, é um caso raro de cidade que pode se orgulhar por oferecer disputas de uma modalidade desenvolvida em seu próprio território, o Quimbol.

O Quimbol é reconhecido como o único esporte piracicabano, ou seja: foi desenvolvido e caracterizado como esporte em Piracicaba. É um dos poucos esportes criados no Brasil, como a capoeira, a peteca, o futebol de areia e o biribol (criado em Birigui).

O esporte é disputado numa quadra de vôlei, com quatro atletas de cada lado, que empunham raquetes de madeira. Tal como no vôlei, são executados os movimentos de recepção, levantamento e ataque. A finalidade é colocar a bolinha, de borracha macia, dentro da quadra adversária, mas fora do alcance do adversário. As partidas são disputadas em quatro quartos de dez minutos.

A altura da rede para o jogo adulto masculino é 2,30m; a do feminino é 2,10m. É possível, disputar os sets em 15 ou 25 pontos, em vez de por tempo. Além do uso da raquete, pode-se, também, usar o solo quatro vezes durante o set como recurso alternativo, bem como partes do corpo, com exceção das mãos e braços, para, da mesma forma, ajudar na recepção e passe da bolinha.

Em caso de empate, realiza-se um quinto tempo (melhor de cinco pontos) sem troca de lados, iniciada pela equipe que marcou o último ponto.

A modalidade foi criada no Pontal do Paranapanema por Joaquim Bueno de Camargo, o Quim, nascido em Santa Bárbara D’Oeste, em 1947. Quim radicou-se em Piracicaba a partir de 1968, cidade em que faleceu, em 2004. Foi nessa cidade que as regras foram desenvolvidas e a prática se firmou como esporte. O nome da modalidade é uma homenagem ao seu criador, conhecido como “Quim”, e homenageia também o time de coração dele, o XV de Novembro de Piracicaba, apelidado como “Nhô Quim”.

Quim concebeu o jogo após ganhar de presente uma surrada bolinha de tênis de um imigrante alemão, o Sr. Eirich. Como Eirich tinha vários filhos, e Quim, muitos irmãos, o intuito do criador da modalidade foi entreter vários praticantes ao mesmo tempo com uma bolinha apenas. As raquetes foram confeccionadas com pedaços de uma madeira leve e de fácil entalhe, o timburi. Nos primórdios da prática, o engenhoso barbarense esticava uma corda no fundo de sua casa. As partidas eram disputadas sobre um chão de terra batida, quando os atletas chegavam do trabalho na roça.

Hoje, o Quimbol é praticado em várias escolas públicas e particulares, em Piracicaba e outras cidades, sobretudo no ensino fundamental. “A modalidade tem sido conteúdo das aulas de Educação Física nas diversas faixas etárias, e também como atividade eletiva em algumas escolas de tempo integral do estado de São Paulo. Nossa equipe sempre participa de clínicas para os alunos em várias escolas a convite de professores e da direção. Recentemente ministrei um curso de Quimbol para professores de Educação Física da rede pública estadual da região de Piracicaba e da região de Marília”, afirma Johnny Godoy, ex-secretário de esportes de Piracicaba. Hoje, ele é coordenador técnico do Quimbol e professor contratado pelas secretarias de saúde e de esportes da cidade, onde coordena o programa “Piracicaba Saudável”.

O CREF-4 e o Sesc-São Paulo têm sido parceiros na difusão do Quimbol para além das fronteiras de Piracicaba. O jogo criado por Quim já foi praticado na Universidade de Camaguey, em Cuba, no Chile, Canadá, Estados Unidos, Peru e Dinamarca. “Recebemos até fotos de atletas praticando a modalidade de alguns desses lugares”, orgulha-se Johnny.

Em 2008, quando Piracicaba recebeu os Jogos Abertos do Interior, a modalidade foi incluída como esporte de exibição. “Aquele foi um momento inesquecível para o Quimbol. Naquela ocasião, ocorreu um jogo entre as equipes masculinas e femininas de Piracicaba e Amparo. Já temos conversações no sentido de repetir esse tipo de participação na cidade de Marília, onde os Abertos de 2019 serão disputados”, diz Godoy.

Na avaliação de Johnny, o Quimbol tende a se disseminar. “É um esporte de fácil aprendizagem. Pode ser praticado como um jogo ou apenas como brincadeira nas escolas, contemplando assim praticamente todas as faixas etárias da grade escolar. O Quimbol utiliza fundamentos de outros esportes em sua prática, como o voleibol, o tênis e o futebol, e isso facilita o aprendizado pelos alunos, colaborando também para a aprendizagem dessas modalidades. É disputado numa quadra de vôlei, e isso facilita muito a sua difusão, pois quase toda escola tem uma quadra com as demarcações do vôlei. Mesmo que a escola não tenha uma quadra, o Quimbol pode ser praticado de forma adaptada, até mesmo dentro de uma sala de aula”.

A adaptação pode se estender também aos materiais. O esporte pode ser praticado com outros tipos de raquetes, como as de frescobol, e de bolinhas. Em vez de rede, pode ser utilizada uma simples corda, como se fazia nos primórdios do esporte. “Temos relatos de experiências do trabalho na escola com o Quimbol de forma interdisciplinar, usando os conteúdos de outras disciplinas”, frisa Johnny.

Para além das escolas, o Quimbol é praticado em outras faixas etárias. “Um dos destaques da nossa modalidade são as competições masters promovidas pela Secretaria de Esportes (SELAM), as quais reúnem atletas com mais de 50 ou 60 anos para um grande torneio anual, que já se tornou tradicional em Piracicaba”, diz Johnny, que deixou seu e-mail e WhatsApp para os interessados em cursos, palestras e clínicas da modalidade:  jfrg@uol.com.br e 019 9 9789 1960.