Por que professores ainda dificultam acesso de meninas ao futebol na escola?

14 de março de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Onze anos depois de publicar artigo a respeito das barreiras do sexismo nas escolas em torno do esporte, acadêmica reflete sobre o tema

Neste ano, pela primeira vez todos os jogos da seleção brasileira feminina de futebol na Copa do Mundo serão transmitidos ao vivo por uma emissora de TV aberta, a Rede Globo. A partir deste ano, todos os 20 clubes da Série A do Brasileirão terão que manter equipes femininas de futebol, da base ao profissional. Ao mesmo tempo, em muitas escolas meninos e meninas jogam futsal juntos. Não é raro, também, ver, em parques públicos, quadras de futsal e campos de society ocupados por mulheres.

Estaríamos então caminhando rumo ao fim do preconceito contra a prática feminina no futebol?

Não exatamente. No Portal da Educação Física, recebemos relatos de pais cujas filhas têm dificuldades para praticar a modalidade na escola. Na escola do meu próprio filho, de dez anos de idade, às meninas é oferecido o handebol quando os garotos jogam bola. Para discutir a questão, procuramos a professora doutora Cássia Cristina Furlan, docente do curso de Educação Física na Universidade Federal da Grande Dourados. Em 2008, ela publicou, na revista Mortrivivência, da Universidade Federal de Santa Catarina, o artigo “Futebol feminino e as barreiras do sexismo nas escolas: reflexões acerca da invisibilidade”.

Antes de mais nada, devemos ter em mente que a luta contra o preconceito voltado ao futebol feminino ainda é recente. O Conselho Nacional de Desportos (CND) só legalizou o futebol feminino em 1983. A professora Furlan contextualiza:

“Para compreendermos historicamente essa relação entre a proibição do futebol (e outras modalidades consideradas inadequadas) para as mulheres, temos que olhar para a história das práticas corporais e esportivas no âmbito da constituição da Educação Física.  No início do século XX, o fortalecimento do corpo feminino através da exercitação física era visto como uma maneira melhor de preparar as mulheres para a condução de uma boa maternidade, no entanto, não eram quaisquer atividades queeram recomendadas, e o futebol, com suas características consideradas violentas e de excessivo contato físico, não era uma das modalidades adequadas à conformação corporal feminina. Assim, Silvana Vilodre Goellner, referência nos estudos da história das mulheres no futebol, aponta que mesmo que as mulheres participassem de alguns eventos esportivos já no início do século XX, o temor à desmoralização feminina frente à exibição e espetacularização do corpo, a preocupação de que as mulheres pudessem romper com a perspectiva do sexo frágil, faziam surgir diferentes perspectivas acerca da relação entre mulheres e atividades físicas, produzindo em diversos setores da sociedade, um movimento de cerceamento à participação das mulheres em determinadas modalidades esportivas. Fruto desse movimento, em 1941, um documento apresentado ao Conselho Nacional de Desportos oficializou a interdição das mulheres a algumas modalidades, tais como as lutas, o boxe, o salto com vara, o salto triplo, o decatlo e o pentatlo; outras foram permitidas, desde que praticada dentro de determinados limites. Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos  aprovou, a Deliberação no. 7 que, em seu artigo segundo registrava não ser permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo aquático, ‘rugby’, halterofilismo e ‘baseball’. Assim, percebe-se que, por um longo período, tais práticas foram consideradas incondizentes com o ideal de feminilidade esperado para as mulheres. Toda história é feita de lutas e resistências e, anos depois o futebol é oficialmente permitido às mulheres.

No entanto, os valores agregados às proibições tornaram muitos preconceitos enraizados na sociedade da época. E, como Albert Einstein dizia: ‘É mais fácil desintegrar um átomo do que o preconceito’. Como tal, vivemos ainda com conjunturas conservadoras que instigam a valorização de padrões e ideais que regem a vida de homens e mulheres e ditam normas de sociabilidade. São valores culturais construídos ao longo de uma época e que ainda mantém valores e práticas intocáveis (segundo interesses econômicos, políticos, sociais, etc). E no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, que marca historicamente um movimento de luta das mulheres por igualdade e respeito, temos presente que a data nos lembra que ainda precisaremos lutar para que haja real igualdade dentro da nossa sociedade”.

Na opinião de Furlan, os professores têm um papel fundamental na tarefa de distribuir iguais oportunidades de práticas de atividades culturais. “Entender a igualdade entre os gêneros como um princípio fundamental dentro da sua ação docente é primordial para que haja uma intervenção consciente nas aulas de Educação Física. Mas, para isso, é preciso formação e um olhar mais detido sobre essas questões. Quando se é oportunizada a vivência corporal a partir do princípio de que todos/as têm direito a experienciar o futebol ou qualquer outra prática corporal, não deveriam ter como fatores impeditivos um padrão de feminilidade e/ou masculinidade que cerceia a liberdade dos sujeitos. Portanto, há que se incentivar a participação de meninos e meninas em todas as atividades, planejar aulas em que estas questões sejam problematizadas, não somente a partir do viés prático, mas sobretudo pela reflexão acerca dessas vivências. Diria que o ponto-chave para o debate é a desconstrução de certas normas que regimentaram e conduziram a sociedade para uma separação de modos de ser e estar no mundo, segundo certos conceitos do que é ser mulher e o que é ser homem no sentido de que se possa permitir a vivência e a liberdade de escolha por meninos e meninas. Assim, é importante trabalhar pedagogicamente o futebol com as meninas na escola em razão da possibilidade de ampliação de seus conhecimentos e habilidades, fato que configura um direito de igualdade e empoderamento. Além disso, isso potencializa a quebra de barreiras e resistências dentro do ambiente escolar, produzindo um espaço mais saudável e educativo”.

Se nas escolas o preconceito é observado com mais frequência, no ambiente acadêmico é possível observar que os estudantes de Educação Física se preocupam com a questão, segundo Furlan. “Há uma preocupação dentro do ambiente acadêmico. No entanto, essa preocupação se intensifica à medida que tais questões vão sendo problematizadas na formação inicial desses/as acadêmicos/as. Às vezes, estruturas machistas e sexistas estão tão arraigadas na vida das pessoas que elas só se dão conta de que ainda há muito a ser feito em termos de igualdade quando são instigadas a refletir sobre essas problemáticas. Assim, como um tema que é transdisciplinar, ele deve perpassar a formação desses/as estudantes, para que efetivem em sua prática pedagógica a garantia de igualdade de acesso e oportunidades, compreendendo a importância de possibilitar a vivência em uma variedade de práticas que compõem a Cultura Corporal de Movimento”.

A professora Furlan foi alvo de preconceito em sua infância e adolescência por ter abraçado o futebol feminino. “Sempre gostei de futebol. Jogava sempre com os meninos na rua em que morava. Na escola, vivenciei uma educação física extremamente sexista, inclusive separada (meninos e meninas). Aos meninos, sempre eram desenvolvidas atividades esportivas consideradas masculinas (sobretudo o futebol) e, para as meninas, atividades calistênicas/ginásticas, ‘próprias’ ao ideal de feminilidade. Já naquele momento, as meninas que se identificavam com o futebol questionavam a norma de gênero e a escola insistia na separação e em uma certa ‘proibição’ do futebol feminino. Por um pequeno momento de resistência e insistência, algumas meninas da escola conseguiram organizar uma equipe e convencer o professor de futsal da escola a nos inscrever nos jogos escolares representando a escola. No entanto, na sequência essa possibilidade nos foi cerceada (na época, não entendia bem os motivos). O professor me orientou a procurar um técnico conhecido da cidade, que treinava meninas. Esse fato que me fez iniciar a participação na equipe de futsal feminino que representavam a cidade, aos 11 anos de idade. Assim, me tornei atleta amadora de futsal e hoje jogo por prazer e diversão. Quando atleta era comum escutar frases como: ‘o futebol não é coisa de menina’, ‘nossa, mas essa menina até parece um menino’, expressões como ‘machona, ‘sapatona’, e outros derivados que, de um modo ou outro, se dirigiam às meninas com um tom de ofensa e/ou deslegitimação de sua feminilidade. Eu me incomodava bastante com isso, um dos fatos pelos quais hoje estudo e pesquiso feminismos e questões de gênero. Cada menina lida com as violências verbais e físicas de um modo diferente.

Sempre tive um grande incentivo familiar para vivenciar com liberdade o futebol, fato que sem sombra de dúvidas me possibilitou autonomia e segurança para enfrentar os preconceitos advindos de parcela da sociedade”.

Felizmente, a Educação Física, que já se prendeu muito a paradigmas positivistas e militaristas, tem sido oxigenada por diferentes ideias, na opinião da pesquisadora.

“Sem dúvida, a Educação Física tem produzido e repensado suas práticas já há algum tempo. Infelizmente, as mudanças são muito lentas e necessitam de uma consciência que ultrapassa a sistematização de conteúdos e metodologias, mas que compreende as interrelações entre a Educação Física e suas interseccionalidades (gênero, raça, classe, geração, sexualidades, dentre outros). Muitas estudiosas e estudiosos (a exemplo de Helena Altmann, Silvana Goellner e Maria do Carmo Saraiva) vêm problematizando essas questões dentro da Educação Física. Mas não é tão fácil romper com paradigmas, por isso a importância da formação docente, da formação para as questões de gênero e sexualidade e do combate a discursos que, com uma pseudo-neutralidade científica que negam o direito à livre discussão das temáticas em instituições e nas políticas educacionais, objetivando a manutenção de certos modelos de sociedade que reproduzem desigualdades (como Escola Sem Partido e o pânico moral instaurado sobre uma pretensa ‘Ideologia de gênero’). Assim, é preciso que a Educação Física, assim como outras áreas do conhecimento, se abra para olhar efetivamente para os sujeitos em suas individualidades. Só assim poderemos reconhecer que a sociedade é repleta de diversidades que devem ser respeitadas, reconhecidas e tratadas com igualdade e respeito”.