Professor dá tacada na mesmice e introduz golfe na Educação Física

27 de setembro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Assim como o Padre José de Anchieta, que escreveu poemas na areia em Ubatuba, o professor de Educação Física Diego Jabois também gosta de improvisar. Depois de estimular, com sucesso, a prática do badminton e do softbol, o irrequieto educador deu outra tacada na mesmice e está ensinando a criançada a praticar golfe na Escola Municipal Harry Forsell, em Itanhaém, cidade onde, por sinal, o jesuíta catequizou muitos índios.

“O que temos constatado é que a criançada está perdendo o foco na parte esportiva devido a vivências frustrantes. A prática, nas aulas de Educação Física, apenas dos chamados quatro fantásticos (futsal, vôlei, basquete e handebol) não atende muitos alunos. As crianças são muito diferentes entre si”.

Jabois monitora o feedback dessas práticas por meio de redações escritas pelas crianças. “Muitas delas sabiam da existência desse esporte por meio de desenhos animados do Pica-Pau, por exemplo.   Mas elas não se sentiam empoderadas para praticá-lo”.

A introdução do golfe na EM Harry Forsell se deve também a um esforço de Jabois e da companheira dele, que investiram R$ 500 num jogo de tacos e bolas usados com diferentes cores para diferenciação entre os jogadores. Os grupos de professores de Educação Física que preconizam a introdução de outras modalidades defendem o improviso, como a utilização de bambus à guisa dos dardos do atletismo, por exemplo. Mas Jabois entende que esse tipo de adaptação tem limites.

“É legal esse espírito de Professor Pardal, o cara criativo que fomenta essas adaptações, mas nem sempre elas proporcionam práticas duradouras. O improviso tem limite e, muitas vezes, as crianças acabam se desinteressando por conta dessa precariedade. E esse improviso constante acaba isentando o poder público de suas responsabilidades. Vejo as escolas gastando tanta grana com besteiras…Poderiam investir em material esportivo”, sustenta o educador.

A declaração de Jabois deve ser ponderada: ele não é totalmente contra o improviso, mas enxerga restrições nessa estratégia. Nos circuitos de golfe dos alunos, por exemplo, os buracos são trocados por garrafas pets e caixinhas de madeira.

Sempre disposto a proporcionar a melhor experiência possível aos alunos, Jabois foi montar circuitos no pequeno terreno gramado da escola, no estacionamento. “As crianças viram que lá o comportamento da bolinha é totalmente diferente”.

As invencionices de Jabois são fomentadas no programa de Mestrado da Universidade São Judas Tadeu.

A introdução de modalidades diferentes cria alternativas para alunos que não se identificavam com os esportes tradicionais. “Os outros esportes atraem crianças que buscam alternativas ao corre-corre. Alguns alunos preferem continuar no futsal mesmo, mas vão aderindo à medida que os outros alunos vão aderindo ao badminton, ao golfe, para ter com quem jogar. Dessa maneira, vou combatendo as panelinhas”.

Segundo Jabois, o golfe atrai crianças que se especializam em contar os pontos dos colegas, enquanto não estão jogando, além de integrar as meninas, que disputam a modalidade em pé de igualdade com os garotos. Além disso, os tacos em cores diferentes embutem uma visão igualitária.

“Eles ressignificam o esporte e quebram os estereótipos. Para muitos, o golfe é um esporte de gente rica, velha e branca. Mas nós o vemos como um patrimônio da cultura esportiva. As outras classes sociais também podem praticar. Esta é uma forma de empoderar, de romper certas costuras hegemônicas e de desmistificar”, diz o educador.