Rápido, fácil e não requer habilidade: é o floorball, parente simpático do hóquei

20 de janeiro de 2020 ● POR Alessandro Lucchetti

Muita gente que quer dar um basta ao sedentarismo sonha com um esporte dinâmico e fácil de praticar, que não requeira grandes habilidades. A boa notícia é que podem parar de sonhar, porque essa modalidade já existe: trata-se do floorball. É uma espécie de parente do hóquei com claras vantagens: pode ser praticado numa quadra poliesportiva, dispensa patins, o material é relativamente barato e suas regras coíbem a violência, o que torna o esporte especialmente atraente para ser inserido em aulas de Educação Física.

As regras hoje em voga foram conformadas em 1986: as partidas são disputadas por equipes constituídas por seis jogadores de campo e um goleiro. Os praticantes utilizam sticks (tacos) e uma bola de plástico com 72mm de diâmetro e 26 orifícios. Marca ponto quem faz o gol. As penalidades máximas são dinâmicas: o cobrador pode conduzir a bola em direção ao gol e tentar fintar o goleiro.

Reza a lenda que intercambistas suecos que praticavam hóquei sobre patins na América do Norte criaram a modalidade, na década de 70, para poderem se entreter ao longo do verão escandinavo, quando não disporiam do gelo. Modalidades aparentadas ao hóquei são conhecidas desde o século XIX, como o floorhockey, descendente do hóquei no gelo, praticado na América do Norte e Inglaterra, e o indoorhockey australiano, derivado do hóquei sobre grama.

O esporte, mais popular na Finlândia, Suécia, República Tcheca e Suíça, chegou ao Brasil no final da década de 90. Inicialmente, restringia-se à comunidade escandinava radicada em São Paulo, mas logo ganhou impulso ao ser ministrado para o público geral do SESC e da ACM (Associação Cristã de Moços). Na Argentina, talvez por ser eclipsado pelo próprio hóquei sobre grama, muito popular no país austral, ainda não vingou.

Hoje, o floorball é jogado em São Paulo, Rio, Minas, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Goiás, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Pará e Amapá. Em São Paulo, Campinas é um dos fortes polos interioranos, já com três equipes: Invictus, Guarás (vinculada a projeto de extensão da Unicamp) e Winners. Quando uma equipe de reportagem da Record foi gravar uma matéria para o programa Esporte Fantástico, dirigiu-se a uma quadra da Universidade Estadual de Campinas.

Um dos entusiastas da modalidade na Cidade das Andorinhas é Guilherme Freitas, professor que concluiu o licenciamento em 2007, na Unicamp, e o bacharelado em 2010, na mesma instituição.

Irrequieto, Guilherme, nos tempos em que lecionava na rede estadual, começou a pesquisar esportes não convencionais para enriquecer as aulas de Educação Física e romper a monotonia imposta pelo quarteto fantástico (futsal, basquete, vôlei e handebol).

“Entrei em contato com a Associação Brasileira de Floorball e recebi panfletos e revistas que guardo até hoje. É possível improvisar com tacos feitos de cabos de vassoura, caixas de papelão, bolinhas de tênis e cones para delimitar o espaço dos gols”, salienta o educador, que também teve contato com a modalidade quando atuou como instrutor de atividades físicas das unidades do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, e de Campinas.

Num primeiro momento, Guilherme testou a atratividade do esporte entre amigos e depois o ofereceu a crianças e adolescentes com idades variando entre 8 e 15 anos. Antes disso, o professor tirou do bolso 60 dólares para importar um jogo de 12 tacos e dez bolinhas. O material, de plástico, flerta com a indestrutibilidade e resiste a anos e anos de uso. Existe fabricação nacional de tacos, mas ele não a recomenda. “É um material não certificado, produzido por meio de injeção caseira de plástico. A gente receia que possa machucar as crianças”.

Segundo Guilherme, a rede francesa Decathlon fabrica o material e o comercializa em suas lojas na Europa, mas no Brasil ainda não existe escala que desperte o interesse comercial da empresa. De acordo com Adriano Serafim de Lira, presidente da ABF, o país tem 8,5 mil jogadores regulares (que têm contato com o esporte ao menos uma vez por mês) e 120 jogadores de alto rendimento.

Uma das grandes vitórias de Guilherme foi conseguir transformar o irmão Rodrigo, um programador de computação outrora firme adepto do sedentarismo em entusiasmado praticante, entregando-se ao floorball ao menos três vezes por semana.

Segundo Guilherme, a dificuldade imposta pelo manuseio do taco nivela “por baixo” a performance dos praticantes. “É um esporte muito adequado para quem não tem muita habilidade. É claro que um garoto que é habilidoso com uma bola de basquete ou de futebol será capaz de replicar essa destreza com um taco na mão, mas seu nível não vai ser muito destoante em relação a um praticante menos dotado”.

Bastante organizada, a Associação Campineira de Floorball divulga a modalidade entregando folhetos e marcadores de livros, além de trabalhar as redes sociais. Empresas como a YMAX, Injelétrica e Gold Max, todas do ramo automotivo, contribuem para a disseminação do esporte na região viabilizando a aquisição de kits de tacos e bolas e capacetes para goleiros. A entidade tem um projeto para criação de escolinhas, e sempre há necessidade de verba para custear professor e a compra de lanches para a garotada.

Quem ainda estiver em dúvida sobre a capacidade que o floorball tem de motivar alunos para a prática de atividade física deve ficar atento ao recado de Guilherme. “A gente tem um problema sério na mídia, que mostra predominantemente o futebol. Na minha experiência, sempre que mostro um esporte diferente, a garotada aprecia e se motiva”, diz o intrépido professor, que já ofereceu tênis, tênis de mesa, tchoukball, parkour, skate, ciclismo, rúgbi, ginástica, ginástica rítimica e beisebol em suas aulas.