Turma de Bocaina passou a praticar mais atividades físicas depois de aulas teóricas

07 de janeiro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

O professor de Educação Física não pode subestimar o poder da lousa e das carteiras. Essa é uma das conclusões do professor Ademir Testa Junior, que é mestre em Educação, especialista em Psicopedagogia Educacional e Clínica e em Educação Física Escolar.

Testa Junior assumiu, em 2006, o cargo de professor na escola estadual Capitão Henrique Montenegro, no pequeno município de Bocaina, com menos de 15 mil habitantes, situado no centro geográfico do estado de São Paulo. Logo o educador se deparou com dois problemas: o sedentarismo dos alunos e a forma como encaravam as aulas de Educação Física, como lazer e recreação. A reação a esse quadro resultou na construção do projeto “Movimento, Saúde e Qualidade de Vida: a Educação Física na Escola.

Esse projeto foi inscrito no Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, do grupo Abril – considerado o “Oscar da Educação”. Concorrendo com mais de cinco mil trabalhos do país, o trabalho de Testa Junior foi escolhido em 2009 o melhor na área de Educação Física. Entre os 10 vencedores, o projeto foi também o único nessa área do conhecimento.

Testa, que tinha então apenas 24 anos, e quatro de atuação na escola, desenvolvera um trabalho com 20 alunos da 5ª à 8ª série do Ensino Fundamental. Fora do horário das aulas, parte do grupo estudou temas relacionados às ligações entre a prática dos movimentos, as aulas de Educação Física e a saúde.

As crianças criaram uma comunidade na hoje falecida rede social orkut, na qual publicaram os trabalhos e textos.

Além de estudar sobre “exercícios físicos para a saúde”, por meio de jogos interativos, alongamento, danças integrativas, yoga, atividades de expressão cultural, pesquisas na internet, elaboração de trabalhos no Power Point sobre o tema “Saúde e Qualidade de Vida”, os alunos vivenciaram atividades e construíram um acervo de conhecimentos.

“Eu me propus a contribuir para desenvolver a vontade e a motivação para os alunos praticarem exercícios físicos na vida cotidiana”, afirma o professor.

Bocaina tem uma economia baseada na fabricação de equipamentos de proteção individual (EPI) , beneficiamento de couros, pecuária e cultivo de cana de açúcar, café, macadâmia e eucalipto. “Conversando com os alunos, percebi que a atividade física é entendida por alguns como algo ‘para rico, para quem tem tempo’. Quem trabalha o dia inteiro, por essa ótica, não teria oportunidade para isso. Esse tipo de pensamento acaba condicionando a mentalidade das pessoas naquela cidade pacata e sedentária”.

Um dos jogos interativos chamava-se “Canibalismo”. No bosque municipal, situado em frente à escola, as crianças foram divididas em grupos e pintadas com cores diferentes. Aquelas com cor preta eram as canibais, e os demais grupos deveriam fugir delas. A atividade, um exercício de corrida leve a moderada, durou 40 minutos. Ao final dela, Testa explicou as alterações observáveis no corpo, como as mudanças na frequência cardíaca.

As crianças aprenderam também a calcular o índice de massa corporal (IMC). Com uma calculadora, puderam concluir quem estava no peso ideal, acima ou abaixo dele. Foi montada uma banca no bosque – as crianças faziam a avaliação física dos transeuntes e sugeriam a prática de atividades físicas e o cuidado com açúcares e gorduras a quem estava acima do peso. Quem estava abaixo dele era orientado a reforçar a alimentação e praticar exercícios físicos, como a musculação, para aumentar a massa muscular.

Encerrado o mestrado, Testa Junior redigiu um livro apresentando o embasamento teórico do projeto e etapas de construção de aulas baseadas na resolução de problemas. “Educação Física Escolar: a Educação para a Saúde pela perspectiva da resolução de problemas” (Phorte Editora) foi lançado em dezembro do ano passado. “Construí uma metodologia baseada na resolução de problemas para o trabalho com saúde na escola. Se encarassem o sedentarismo como problema, provavelmente tentariam solucioná-lo praticando exercícios físicos”, diz o educador.

A sequência pedagógica construída pelo professor é composta por seis etapas e pode ser conhecida e utilizada para as aulas de Educação Física sobre qualquer tema, através das teorias e dos três modelos apresentados em seu livro.

Hoje atuando em Jaú, numa escola de Ensino Médio e Fundamental, Testa se prepara para defender, no final de fevereiro, sua tese de doutorado, que pretende demonstrar como, através da pesquisa, aulas teóricas são primordiais para conscientizar os jovens escolares e aumentar seus níveis da prática de exercícios físicos.

Em sua pesquisa de doutorado, juntamente com seu orintador Prof. Dr. Ídico Luis Pellegrinotti, Testa separou os alunos em dois grupos: um deles teve apenas aulas práticas, com atividade física. O outro, apenas aulas teóricas. “No estudo, nos deparamos com uma surpresa: o grupo teórico é o que passou a praticar mais atividade física fora da escola. Isso demonstra que a construção do conhecimento teórico estimula mais o sujeito a praticar atividade física por meio da conscientização que o saber conceitual permite ao indivíduo“.

Um novo livro deverá ser lançado ainda no primeiro semestre deste ano, mostrando resultados da metodologia sobre a aprendizagem, aptidão física e níveis de atividade física em escolares.

“Que eu saiba, ninguém havia proposto antes trabalhar a Educação Física aplicando um método de resolução de problemas. Um dia, assistindo TV, vi que escolas da Finlândia aplicam um método por descoberta, que não deixa de ser o método de resolução de problemas. Acho que esse é o futuro da escola. Quando o jovem pensa ativamente na resolução de um problema, sente a necessidade de resolver. Não é para tirar nota. Os fatores que levam um indivíduo a praticar atividade física são motivações intrínsecas”, afirma Testa Junior.

Mesmo após todo esse percurso, cerca de 20% dos alunos decidiram continuar sedentários – porém, com conhecimento de causa. “A escola deve gerar pessoas livres para decidir. As hipóteses que estabeleço para essa decisão são duas: ou o jovem não entendeu ainda o sedentarismo como um problema ou o meio social em que vive influenciou o comportamento do sujeito nessa direção. Ele enxerga a atividade física como algo que não pertence a esse meio”, conclui o educador.

O e-book “Educação Física Escolar: a educação para a saúde pela perspectiva da resolução de problemas” está disponível para comercialização no site da Amazon (www.amazon.com.br).