A Capoeira na Educação Física

05 de julho de 2016 ● POR Karina Dias

O lúdico deve ser inserido na prática de qualquer atividade, mas com objetividade. A capoeira não foge dessa lógica. Nasceu como luta, arte marcial e transformou-se em manifestação cultural popular. O processo para que isso acontecesse foi longo, muitos costumavam dizer que foram inseridos conceitos de dança, devido a introdução dos instrumentos musicais e principalmente de sua ginga, onde muitos acreditam que este movimento tem esse nome em homenagem à Princesa Nzinga Mbandi Ngola Kiluanji, nascida em 1582. Como contexto histórico, é importante citar que a ginga surgiu para ludibriar os policiais, que vinham a cavalo, terminar com qualquer tipo de atividade que era julgada como fora da lei. No decorrer do processo, foi criado o toque de berimbau, intitulado cavalaria, e, consequentemente, talvez o maior símbolo dessa arte, o seu gestual, que executado tinha como interpretação brincadeiras entre seus jogadores, que simulavam nesta ritmicidade um bailado que encobria esta luta por uma igualdade social.

Para inserir a capoeira na escola, compreendi que o lúdico seria uma ferramenta essencial para este objetivo, tendo uma base oferecida pelo Sr. Gládson de Oliveira Silva, e seu discípulo Vinícius Heine, o “Mestre Gladson”, precursor da Capoeira na Universidade, que entendia que muitas brincadeiras de rua, poderiam ter elementos de capoeira, e facilitava assim a absorção do conteúdo programático e simultaneamente estimulava sua prática.

Freire (1992, p.13) cita que “corpo e mente devem ser entendidos como componentes que integram um único organismo” e a crítica fica por conta das escolas, que conforme os autores apenas adestram e dificultam a formação e o desenvolvimento do aluno, este desenvolvimento pode ser aprendido com mais entusiasmo se o lúdico tiver objetividade, e for, na maioria das vezes interdisciplinar.

Silva (1995), demonstra que as atividades lúdicas ressaltam a cooperação. Brincadeiras como o pega-pega onde o capitão do mato poderia tentar pegar os escravos fugitivos, e os mesmos poderiam salvar aqueles que estavam pegos por meio de um movimento da capoeira contribui para essa motivação de aprender a história da capoeira. A interdisciplinaridade fica presente com a história e geografia do Brasil, assim como a contribuição do caráter por se tratar de uma atividade cooperativa e de cunho reflexivo lembrando todo o período de escravidão do Brasil. Ou mesmo um “corre cotia”, onde ao invés de caminhar por fora da roda o participante pode estar realizando movimentos de capoeira dentro, ou fora da roda enquanto os demais cantam e batem palma no ritmo empregado pelo educador daquela turma. O objeto utilizado para deixar atrás de um dos participantes sentados pode ser um apetrecho de algum dos instrumentos como um dobrão ou caxixi do berimbau. A criatividade e o caráter interdisciplinar entre a capoeira e a educação física escolar caminham lado a lado para constituir uma educação física brasileira.

(Fonte: Márcio Rodrigues dos Santos – “Mestre Márcio” – Coordenador do Projeto Capoeira Escola – Baixada Santista, docente na Universidade Santa Cecília – Santos SP, docente na Universidade Metropolitana de Santos – capoeiraescola@hotmail.com. Foto: Marcos Piffer).