Game over: como realizar a transição de carreira no esporte?

01 de agosto de 2018 ● POR Redação

A carreira esportiva tem início e término mais cedo do que outras carreiras. Enquanto na maioria das profissões tradicionais o auge de carreira pode se dar por volta dos 40/50 anos, raramente temos modalidades em que os atletas chegam a esta idade competindo em alto rendimento.

Salmela (1994) identifica três grandes fases da transição: a iniciação, o desenvolvimento e o término. Assim deve-se ter em vista que a transição de carreira não trata apenas do encerramento (retirement), mas também das diversas etapas da formação e que resultam na transição do atleta, por exemplo, do juvenil para o profissional. Assim, as transições são definidas como fases de mudança no desenvolvimento de carreira que se manifestam por conjuntos de demandas que os atletas têm que enfrentar para continuarem com sucesso no esporte e/ou outras esferas da vida (Alfermann & Stambulova, 2007). O que tem levado ao desenvolvimento de importantes programas no exterior que possam auxiliar os atletas nas diversas fases de transição, como o programa da Federação Britânica de Tênis (PUMMELL & LAVALLEE, 2018)

Nosso artigo centrará na fase final, a qual é mais comum ser associada a transição e ao término de carreira no esporte.

Fato é que a aposentadoria do esporte é um processo complexo, multidimensional e individual (WARRINER, LAVALLEE, 2008). Para Wylleman, Lavallee e Alfermann (1999) o término da carreira esportiva é, na maioria das vezes uma combinação de fatores individuais e influências sociais. Os autores citam que a idade cronológica, a fadiga psicológica, os problemas de relacionamento, novos interesses pessoais, os problemas de contusão ou saúde, o declínio no rendimento são os fatores determinantes.

Tão importante quanto preparar-se financeiramente, o lado psicológico deve e tem de ser trabalhado para enfrentar essa nova fase de vida de maneira estruturada e consciente. Para Schlossberg (apud Alferman et al, 1999, p. 7), a transição de carreira esportiva pode ser definida como “um evento ou não evento que resulta em uma troca nas suposições sobre si mesmo e o mundo, e assim, requer uma mudança correspondente nos seus relacionamentos e comportamentos”, o que corresponde a vivenciar algo que afeta diretamente questões de identidade, da visão que o atleta tem de si e do mundo, solicitando dele uma adaptação do modo de ser e de se relacionar.

Mendelsohn (1999) ressalta que a aposentadoria é um dos momentos mais difíceis na vida de um atleta profissional. É complexo imaginar o convívio com o prefixo “ex” e a perda de status. Ademais ao ex atleta não cabe a possibilidade de procurar um emprego similar nos sites e jornais tradicionais. É natural que nossos caminhos mudem e evoluam, mas é como você se move através deles que faz a diferença.

No primeiro momento da transição há uma sensação de desconforto, pelo sentimento de que algo está acabando. Surge então as sensações de desamparo e dúvidas quanto ao que fazer e para onde ir aliados a um medo do que está por vir. E por fim, a busca pelo novo começo. Independente qual será o caminho traçado posterior ao término da carreira esportiva será importante o autoconhecimento para alinhar essa nova fase com seus propósitos de vida e como trilhar esse novo caminho.

Agresta, Brandão e Barros Neto analisaram o término da carreira de 79 ex-atletas de basquete e vôlei, e por meio de uma entrevista semi-estruturada observaram que 75,9% encerraram a carreira de forma espontânea, onde, a idade (49,4%) e outros interesses (43%) foram os motivos mais relevantes. Os sentimentos mais latentes em relação ao término de carreira foram à tristeza (50,6%) e a conformidade (36,7%). Samulski et al (2006) concluíram em seu estudo que fatores como a retomada dos estudos e a busca pela formação acadêmica, uma maior dedicação a suas famílias e a inserção em outros grupos sociais fora do contexto esportivo foram fundamentais para uma transição adequada, sem sequelas e que permitiu a esses atletas terminar suas carreiras esportivas e retornar a sociedade em busca de novos desafios pessoais e profissionais.

Mas como se preparar para um processo de transição?

Stambulova (2010) sugere 05 passos para definição da estratégia de planejamento de carreira para atletas em fase de transição . São elas: primeiro passo   “Crie uma linha do tempo”, segundo passo “Estruture seu passado”, na terceira etapa “Estruture seu presente”, na quarta etapa, “Estruture seu futuro”, e o quinto passo, “Construa uma ponte entre seu passado, presente e futuro” .

O melhor manejo para atletas e profissionais que se encontram nesta situação é estabelecer novas rotinas diárias. Mediante a investigação do autoconhecimento ser capaz de estruturar um caminho para restabelecer um propósito e um senso de direção capaz de ressignificar o espaço deixado pela pratica e os sentimentos decorrentes dela.

Há desafios, mas também há aspectos positivos e maneiras de os atletas se prepararem para o futuro além do esporte. Se eles sentem que têm uma rede de apoio, há todas as chances de sucesso. Toda transição de carreira pode potencialmente ser uma crise, alívio, ou uma combinação de ambos, dependendo da avaliação dos atletas frente à situação.

Referências

Agresta, M. C., Brandão, M. R. F., & Barros Neto, T. L. Causas e conseqüências físicas e emocionais do término de carreira esportiva. Rev Bras Med Esport, v. 14, n. 6, p. 504-508, 2008.

Alfermann, D., & Stambulova, N. (2007). Career transitions and career termination. In G. Tenenbaum and R. C. Eklund (Eds.), Handbook of sport psychology (3rd ed., pp. 712–736). New York, NY: Wiley.

Alfermann, D., Lavalle, D. & Wylleman, P. (1999). Career transitions in competitive sports. Fepsac Monograph Series #1.

Mendelsohn, D. El retiro del futbolista. Efdeportes [periódico en Internet]. 1999 oct [citado 2005 dic 12];4(16):[cerca de 4 p.]. Disponible en: http://www.efdeportes.com/ efd16/retiro.htm       [ Links ]

Pummell, E. K., & Lavallee, D. (2018). Preparing UK tennis academy players for the junior-to-senior transition: Development, implementation, and evaluation of an intervention program. Psychology of Sport and Exercise.

Salmela, J. H. Phases and transitions across sport careers. In: HACKFORT D. (Ed.). Psycho-social issues and interventions in elite sports. Frankfurt: Peter Lang, 1994. p.11-28.

Samulski, D. M. (2006). Transição da carreira infanto-juvenil para a carreira profissional. In: _____. Tênis: dicas psicológicas para vencer. Belo Horizonte : Imprensa Universitária, pp. 113-116.

Stambulova, N. (2010). Counseling Athletes in Career Transitions: The Five-Step Career Planning Strategy. Journal of Sport Psychology in Action. 1. 95-105. 10.1080/21520704.2010.528829.

Warriner, K., & Lavallee, D. (2008). The retirement experience of elite female gymnasts: Self-identity and the physical self. Journal of Applied Sport Psychology, 20, 301-317.

Autores

Rodolfo Codo Rasmusen – Psicólogo e especializando em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio

Letícia Capuruço – Psicóloga e especializanda em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio

Dr. Flávio Rebustini – Coordenador da Pós-Graduação da Universidade Estácio e membro do LEPESPE