Jogadores de handebol pedem renúncia de presidente da Confederação

27 de abril de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Após 28 anos de reinado do presidente Manoel Luiz Oliveira na Confederação Brasileira de Handebol, um movimento de atletas finalmente se aglutinou e ocupou espaço na imprensa, pedindo a renúncia do dirigente. Na última segunda-feira, a Comissão de Atletas publicou manifesto nesse sentido.

A Justiça Federal em Brasília já havia determinado o  afastamento por tempo indeterminado de Oliveira. Antes disso, ele tinha se licenciado, alegando motivos médicos. Ele fez cirurgia para colocação de três pontes de safena e uma mamária. Na semana anterior, o Banco do Brasil avisou que não renovaria o contrato de patrocínio, de R$ 15,5 milhões por dois anos, que expira no final de maio.

Oliveira é acusado de supostas ilegalidades que teriam sido praticadas pela CBHb na aplicação de R$ 21.377.272,00 repassados, via convênios, pela União (Ministério dos Esportes), durante o ciclo preparatório dos Jogos Olímpicos do Rio.

Gustavo Nakamura Cardoso, o Japa, do time de São Caetano do Sul, explica por que os jogadores demoraram a se movimentar. “Acho que fomos omissos durante muito tempo. Não tínhamos tanta informação. Hoje temos mais certeza. Antes havia apenas boatos de má gestão e desvios. Os atletas tinham receio e medo de retaliações, porque queriam realizar o sonho de participar dos Jogos Olímpicos”.

Bruno Carlos de Oliveira, que integra a seleção brasileira de handebol de praia e é membro da Comissão de Atletas da modalidade, teme que a perda do patrocínio possa comprometer o futuro da modalidade. “Esse apoio financeiro era fundamental para a realização dos acampamentos com jovens jogadores, que revelaram vários talentos para as categorias de base. Nós organizamos esse movimento pensando muito em toda a cadeia de profissionais que vivem do handebol, como os professores de educação física nas escolas. Com essa gestão, os jovens não terão mais suporte, motivação e inspiração e deverão procurar outras modalidades, como o vôlei ou o futebol”.

Se a situação é dramática no handebol de quadra, no Beach Handball, a versão praiana, o cenário é ainda mais preocupante. O Brasil é tetracampeão mundial no masculino e tri no feminino dessa modalidade. “A IHF (Federação Internacional de Handebol) está tentando colocar o beach handball na Olimpíada. Nos Jogos Olímpicos da Juventude, o beach handball já é olímpico. Infelizmente, o Brasil não participou do Mundial Juvenil, classificatório para os Jogos da Juventude, por falta de verba”, lamenta Bruno, que trabalha como advogado.

Nos World Games, espécie de Olimpíada dos esportes não olímpicos, o Brasil é tricampeão no masculino. “Na última edição, tivemos que recorrer a vaquinhas e doações para podermos participar”.

Nakamura, que começou a jogar handebol na escola Encomar, em sua cidade natal, Toledo, no Paraná, calcula que 60% da seleção masculina que disputou os Jogos Olímpicos foi revelada nos acampamentos, iniciativa lançada pelo ex-técnico da seleção, Jordi Ribera. “O Jordi não continuou devido à arrogância do Manoel, que não foi conversar com ele. O Jordi sempre recebia propostas de outros clubes e seleções, mas o Manoel ficou quatro meses sem conversar com ele. Não pôde esperar a definição e acabou arrumando outra colocação”.

Duda Amorim, eleita a melhor jogadora do mundo em 2014, concedeu entrevista ao Portal da Educação Física desde Gyor, na Hungria, onde defende a equipe local. “Depois de nos organizarmos, chegamos à conclusão de que o ideal seria que o presidente afastado renunciasse e respondesse pelo que tem que responder fora da Confederação para que pudéssemos mostrar a seriedade e independência da instituição. Perdemos chances de assinar com patrocinadores por causa das denúncias e precisamos de uma mudança o mais rápido possível. Por estas razões, decidimos que agora era o momento”.

Orgulhoso com a repercussão obtida na mídia pelo movimento, Nakamura não acredita, no entanto, que Oliveira vá renunciar. “Creio que deveria partir dele essa atitude, se é que ele gosta mesmo do handebol. Mas acho mais fácil que a Justiça o afaste”.