No ex-país do futebol, cresce a demanda por profissionais que ensinem a jogar bola

28 de janeiro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

No final do ano passado, o Ministério da Saúde divulgou resultados de uma pesquisa sobre as atividades físicas preferidas pelos brasileiros. A prática de corrida e de artes marciais mais do que dobrou nos últimos 11 anos, segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2017. De 2006 para 2017, a prática de corrida aumentou 194%, enquanto a de lutas subiu 109%. O contraponto é o futebol. A procura pela “paixão nacional” caiu quase pela metade – 43,5% no período.

Apesar da queda, o futebol continua no pódio, ocupando o terceiro lugar entre as práticas esportivas adotadas no país, com 11,7%. Está atrás apenas da caminhada (33,6%) e da musculação (17,7%).

 A falta de campos é uma das hipóteses imaginadas como responsáveis por essa queda por Luiz Rigolin, proprietário da Fity, uma das principais empresas especializadas em assessoria e consultoria para escolinhas de futebol do Brasil. A Fity é responsável pela remodelagem de gestão e parte pedagógica da Chute Inicial, rede de escolinhas oficial do Corinthians, além de ter atuado na modelagem da parte administrativa e pedagógica das escolinhas de Neymar e na elaboração do plano de negócios da rede de escolas da CBF. Hoje, está colaborando na formatação das redes do Bahia e do Ceará.

“Li os dados dessa pesquisa e fiquei em dúvida. À medida em que se faz um acompanhamento em 2006 e outro em 2017, ficamos sem saber se houve uma queda vertiginosa a partir de 2014, por causa do vexame do 7 a 1, que pode ter provocado uma redução significativa de interesse. Sei que o interesse de 2006 a 2014 oscilava pouco. Pode ser também que o efeito provocado pela chegada do Tite não tenha sido inteiramente captado pela pesquisa”, diz Rigolin.

Dúvidas à parte, o empresário salienta que o rápido crescimento dos centros urbanos no País liquidou uma infinidade de campos de várzea e terrenos baldios onde o talento nacional para o futebol vicejava. Além disso, a expansão do trânsito e a falta de segurança reduziram a prática do futebol de rua. A cada dia, o futebol brasileiro dependerá mais e mais do trabalho de revelação feito por escolinhas de futebol, na opinião do especialista.

Aos poucos, jogadores revelados por escolinhas vão tomando espaço em categorias de base e mesmo em elencos profissionais. Fabricio Oya, que disputou a última Copa São Paulo de Juniores pelo Corinthians – foi campeão dessa mesma competição em 2017 – é cria da Chute Inicial. Ele começou a jogar nas escolinhas do clube, em Campinas. Seu pai, o ex-jogador de futsal Nico Oya, é proprietário de quatro unidades de escolinhas do Corinthians na Terra das Andorinhas. Aos 12 anos de idade, o Japa, como é conhecido, foi aprovado numa peneira do Timão, depois de ser preterido em suas duas primeiras tentativas.

Oya, que já foi observado por Milan e Roma, tem contrato com o Corinthians até setembro de 2021, e já treinou com o elenco profissional, sob o comando de Fábio Carille.

Outra cria de escolinha é o atacante Lincoln, que tem contrato assinado com o Flamengo até 2023 – a multa rescisória do jovem de 18 anos se aproxima dos 50 milhões de euros. Lincoln foi revelado pela escolinha mantida por Jeremias Américo de Oliveira, o DJ Jerê, na comunidade Feu Rosa, na cidade capixaba de Serra.

“O Lincoln é sobrinho de  um outro atleta meu, o Manel. Ele tinha apenas quatro anos e o pai e a mãe tinham que trabalhar. Nenhuma escolinha recebia crianças dessa idade. Como eu aceitava, o garoto ficou comigo. Hoje o Lincoln reconhece a importância da nossa escolinha na vida dele e tenho o maior orgulho disso”, disse Jerê, em entrevista por telefone ao Portal da Educação Física.

Jerê ganhou a camisa do rubro-negro que Lincoln vestiu ao anotar seu primeiro gol como profissional, contra o Grêmio, além de 60 jogos de uniformes da Puma, marca que patrocina o atacante do Fla.

Mas será que as escolinhas estarão preparadas para oferecer novas levas de Lincolns e Oyas em quantidade para manter o futebol brasileiro em evidência?

“É indiscutível que esse processo de conurbação das grandes metrópoles está fazendo com que os espaços que antes eram livres para as crianças jogarem estejam cada vez mais escassos. Não tenho dúvidas de que aquele futebol que era praticado de maneira livre vai ser substituído pelo futebol de escolas, em razão da escassez de espaço. O futebol não institucionalizado vai ceder lugar para o institucionalizado. A grande dúvida é se estaremos preparados para fazer a formação com a mesma qualidade que havia nas ruas e nas várzeas”, pergunta-se Rigolin.

Na avaliação do profissional, parte das crianças têm chegado às escolinhas com déficit motor. “Os talentos que eram formados na rua tinham uma competência motora muito boa porque não apenas jogavam futebol, mas soltavam pipa, brincavam de polícia e ladrão, jogavam taco, subiam em muro e em árvore…Você tinha um desenvolvimento motor bom e um futebol não institucionalizado, que era jogado no barro, na rua, nos buracos, que criam uma dificuldade muito maior do que a que se tem num campo gramado, limpinho, todo nivelado. É por isso que você tinha uma fábrica de talentos na várzea e na rua. O que temos visto nas nossas avaliações é que esse talento motor geral está mais escasso. As crianças estão se tornando analfabetas motoras e o trabalho que está sendo feito nas escolas de desenvolvimento motor não tem sido suficiente para superar essa lacuna”.

As crianças que eventualmente padecerem desse déficit motor necessitarão de professores muito bem preparados para fazer um bom trabalho, segundo Rigolin.

Diversos perfis de profissionais têm acesso a esse mercado de trabalho nas escolinhas de futebol, na avaliação do proprietário da Fity. “Você tem ex-atletas, professores de Educação Física e também não formados e não provisionados pelo Cref que trabalham em escolas de futebol graças a cursos oferecidos por sindicatos”.

A Fity tem proposto a seus clientes, as escolinhas, que contratem criteriosamente seus professores. “A gente defende que os professores não sejam contratados por indicação, mas por processos seletivos que envolvam análise de currículo, prova prática, prova teórica e entrevista. Não contratamos não-formados. Nosso padrão golden é: formado, com curso do sindicato e licença C da CBF. E não nos preocupamos apenas com a formação – se o professor tiver tido experiência prática no futebol, levamos em conta. Caso contrário, você contratará apenas aqueles profissionais com perfil teórico. O mercado, em geral, não segue isso que preconizamos – olham para indicação, número de títulos”.

Na opinião de Rigolin, ter sido jogador de futebol não é suficiente. “O fato de saber fazer não significa que você saiba ensinar. É preciso ter didática. Não adianta eu saber bater falta muito bem se não sei ensinar a bater falta. Aqueles garotos que não têm tanto talento, que tiverem algum atraso motor, vão precisar de um professor que crie exercícios e alternativas para ele poder aprender. Cada vez mais as escolas precisarão de professores com competências para poder ensinar numa escola de futebol”.

Os perfis das escolas de futebol também variam bastante, bem como as expectativas dos pais. A Fity, que presta assessorias a clubes que desejam criar redes de escolinhas, tem um braço com perfil mais educacional – a Caefb (Centro dos Alunos e das Escolas de Futebol no Brasil), que implanta escolinhas sem bandeiras de clubes.

A própria Fity tem uma escola, o  Projeto Futebol Escola, que tem perfil mais inclusivo, propondo-se a trabalhar prioritariamente com crianças iniciantes e também com crianças com deficiências físicas e cognitivas. “Não estamos preocupados em atender crianças que poderão ser indicadas para escolas de clubes. A gente está atento a aspectos educacionais, com orientação sobre cidadania, respeito ao idoso, ao meio ambiente, ao trânsito seguro. A gente também acompanha o ensino formal. Quando vamos participar de algum campeonato, aquele aluno que está com nota baixa não joga. O que mais tem no mercado é aquele tipo de escola com treinamento tradicional. Mas a gente espera que aumentem também as escolas especializadas, com diferentes nichos, porque há público para todos os tipos de escolas”, opina Rigolin.