Atenção e estratégia são aliados do professor no combate ao bullying

30 de novembro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

No final de 2016, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) explicitou em números uma sensação que já era bastante clara nas escolas. A pesquisa apontou que, em 2015, 46,6% dos 13 milhões de jovens entrevistados, entre 13 e 17 anos de idade, estudantes de escolas públicas e particulares de todas as regiões do país, disseram já ter sido alvo de bullying. Em 2012, esse percentual era de 35,3%.

O bullying é caracterizado por condutas agressivas sistematizadas, movidas pelo objetivo deliberado de maltratar uma pessoa, causar-lhe tensão. Normalmente as vítimas são pessoas mais acanhadas e tímidas, que se veem com poucos recursos para reagir às agressões. Os alvos dessas perseguições são envolvidos pelo crescimento dos sentimentos de ansiedade e insegurança, o que pode resultar em quadros depressivos.

As aulas de Educação Física são uma oportunidade bem clara para os agressores lançarem seus ataques. As crianças acima do peso e as desprovidas de um nível de habilidade mais aproximado da média apresentada por seus colegas ficam expostas.

Autora de uma das primeiras dissertações de mestrado sobre o tema no Brasil, que é inclusive componente de editais de concursos públicos na área, a profissional de Educação Física Flavia Fernandes de Oliveira prepara-se para revisitá-lo em sua tese de doutorado.

Formada em 98 pela Universidade Castelo Branco, do Rio de Janeiro, Flavia não foi apresentada ao tema em seus anos de graduação. Em tese, as novas levas de professores de Educação Física estão mais aparelhadas para lidar com esse quadro. “Naquela época, ainda eram recentes as normativas do MEC e a abordagem de temas transversais pelos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais). Hoje o bullying é abordado nas práticas pedagógicas. Faz parte também da temática dos concursos públicos, assim como as questões de gênero e as que versam sobre violência e multiculturalismo”.

Para trabalhar o combate ao bullying, o professor precisa estar muito atento e disposto a conversar, segundo Flavia. “O bullying sempre existiu, e está na escola. O professor deve estar atento e precisa atentar a apelidos, ao bullying. E precisa tomar cuidado para não reforçar esses comportamentos. Muitas vezes, terá que parar a aula. Muitos professores não querem interromper um jogo quando ocorre o bullying, mas é necessário”.

Boa parte das atitudes que resultam em bullying não ocorrem às vistas do professor de Educação Física. “As meninas são mais discretas, praticam o bullying de forma velada. Elas são mais perversas, escrevem no banheiro, por exemplo”.

O bullying e situações constrangedoras que ocorrem em aulas de Educação Física podem ser combatidos com medidas às vezes muito simples. “A Educação Física escolar não deve estar voltada para o rendimento. A quem procura alto rendimento, eu já digo logo para procurar um clube. Na hora da escolha dos times, você pode determinar que os menos hábeis escolham. Assim, eles já estarão inseridos. Caso contrário, os mais hábeis, os melhores, sempre estarão na frente. É preciso ter essa sensibilidade, pensar nos valores. Hoje o que se busca na Educação Física é a participação de todos”.

Na dissertação de mestrado de Flavia, intitulada “Bullying na Educação Física”, de 2006, há relatos de casos que seriam mais raros hoje. É o caso de uma garota extremamente habilidosa, sobretudo para jogar futebol. Em determinado dia, ela aparece na escola com o cabelo cortado curto, e se torna alvo de colegas, que a chamam de “sapatão”.

“Hoje é muito mais comum você ter meninas jogando futebol com os meninos. É preciso ter cuidado com a diferença de força física, e eu oriento a todos para que tomem cuidado com isso. Hoje em dia, com o empoderamento feminino, as mulheres lutam mais para ser aceitas”, diz Flavia, que leciona numa escola municipal situada na Vila Valqueire, na zona oeste do Rio, e também no Centro Universitário Augusto Motta.

Na opinião de André Ramos, coach especializado em inteligência emocional e Educação, o professor deve buscar o aprimoramento pessoal e o autoconhecimento, identificando e aceitando inclusive os sentimentos negativos.

Isso significa não julgar a agressividade de quem promove e a passividade de quem sofre o bullying. Com o tempo, segundo Ramos, o educador conseguirá compreender melhor as carências dos alunos, levando em conta que os mais jovens sentem dificuldades para elaborar melhor o que sentem, transformando suas frustrações, como a derrota num jogo, em reações destrutivas.

“É importante que o próprio professor busque o aprimoramento pessoal, passando por vivências que promovam o autoconhecimento”, disse Ramos, em entrevista ao site Esporte Essencial.