Atleta olímpica sexagenária luta para concluir curso de Educação Física em Minas

27 de agosto de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Aos 62 anos de idade, Maria Elisabeth Jorge lutava com certa calma contra suas dificuldades nos estudos da fisiologia humana e de citologia. Ela entrara no curso de graduação em Educação Física da Faculdade de Viçosa, sua cidade natal, em 2014, e se esforçava para concluí-lo mineiramente, de forma discreta. Foi então que, em meio aos Jogos Pan-Americanos de Lima, a TV Record veiculou uma matéria que mostrava que aquela não era apenas uma senhora bastante dedicada aos estudos. Trata-se da única brasileira a representar o país na edição olímpica em que estrearam as competições femininas da modalidade, em Sydney-2000. “Todo mundo descobriu que eu era a Beth do levantamento de peso. Aí acabou a minha paz, porque foi divulgado na página do Facebook da faculdade. Não gosto de ficar falando do que fiz. Agora os colegas me param no corredor, conversam comigo a todo instante, pedem dicas para fazer exercícios de força na academia”, diverte-se a bem-humorada sexagenária.

Beth ficou famosa meses antes dos Jogos. Quando a imprensa descobriu sua história pra lá de incomum no esporte, fascinou-se pela fibra da halterofilista das Alterosas. Ela começou a praticar o levantamento de peso aos 34 anos de idade, depois de deixar o atletismo e o handebol. Ocorreu-lhe que podia levar jeito para a modalidade nos tempos em que lavava roupa para estudantes, carregando trouxas pesadas. Em pouco tempo, tornou-se a melhor do país. E conquistou o bicampeonato mundial masters (97/98) antes mesmo de se tornar a única mulher a representar o Brasil em Sydney no esporte. Na categoria até 48kg, obteve a 9ª colocação – aos 43 anos de idade.

O repórter Roberto Salim, então na ESPN Brasil, fez a melhor matéria sobre Beth, para o programa “Histórias do Esporte”. Acompanhou o dia a dia daquela forte mulher, e mostrou as andanças dela até o açougue, de onde voltou com olhos de boi. “Alguém me disse que olhos de boi davam força, nem lembro quem foi. Eu batia no liquidificador com abacate ou banana para não aparecer muito o gosto. Tomei umas duas vezes só, porque meu treinador disse que a gente não sabia a origem do animal, e eu poderia pegar uma doença”, recorda ela.

Foi David Monteiro Gomez, o colombiano que presidia a Confederação Brasileira de Levantamento de Peso na época em que Beth competia, quem a aconselhou a cursar Educação Física. “Eu dou treino para uns meninos. Já treinei em Viçosa alguns atletas que estão entre os melhores que o Brasil já teve, como Welisson Rosa da Silva (sexto no Pan do Rio/2007 e 17º em Pequim/2008), Matheus Gregório (17º na Rio/2016), Marco Túlio Gregório (sétimo no Mundial de 2017) e Romário Martins (campeão do Pan juvenil da modalidade em 2014). Com um diploma de profissional na mão, vou poder trabalhar onde quiser”.

Beth sonha alto. Já orienta alguns atletas no ginásio da ASAV (Associação dos Servidores Administrativos da Universidade Federal de Viçosa), mas quer ter um espaço próprio. “O problema é que os terrenos no centro de Viçosa são muito caros. Já me disseram até para procurar o Luciano Huck ou o Ratinho, mas acho difícil eles me darem um terreno”.

De qualquer forma, Beth já provou que sonhar alto não custa mais caro. Quem imaginava que uma atleta poderia começar a praticar um esporte aos 34 anos e chegar ao nível olímpico, e num esporte em que o Brasil não tem grande tradição?

“Fazer Educação Física era o meu sonho desde 1983, quando concluí o segundo grau. Eu prestei o vestibular para a Federal de Viçosa naquela época, mas não passei. Tive um desmaio, não suportei a pressão. Era a maior atleta de Minas Gerais nos 1500m naquela ocasião, mas fiquei muito nervosa”.

Trinta anos depois, em 2013, o apoio da irmã foi decisivo. “Ela viu uma propaganda na rua, de que ia haver vestibular para a Faculdade de Viçosa. Disse que me ajudaria a pagar a inscrição. Foram R$ 25. Eu fui lá e passei. Ela me ajudou muito”, diz Beth, agradecida.

A atleta olímpica diz que tira de letra a diferença de idade, e que praticamente não sente preconceito. “Houve um episódio, na aula de dança, em que pedi para nosso grupo trocar a música que íamos tocar, e duas colegas insinuaram que eu estaria com medo de dançar por causa da minha idade, rindo com deboche. Fui lá e dancei. E não estou nem aí. Eu ainda me saio melhor do que a média da classe nas partes práticas do curso”.

Ao final da entrevista, Beth aconselha as pessoas mais velhas a nunca desistir do sonho de cursar uma faculdade. “Eu não tenho vergonha de ser a mais velha da classe. Simplesmente não ligo pra isso”, diz a treinadora. “Muitos nem se inscrevem num vestibular por falta de dinheiro para pagar a mensalidade. Aconselho que se informem sobre o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil). Muita gente mais velha quer estudar, mas nem sabe que isso existe”.

Praticamente na reta final para concluir o curso, Beth toma cuidado para não levar novas bombas. “Presto atenção nas aulas, faço os trabalhos, me dedico. Levarei um tempo maior para concluir o curso, porque viajei muito para arbitrar competições, mas vou realizar esse sonho”.