Educação e Reeducação Psicomotora na Educação Física Escolar

31 de janeiro de 2019 ● POR Redação

A escola, entendida como campo principal de atuação do Licenciado em Educação Física, propõe um campo de essencialidade para a experimentação, reconhecimento e legitimação da profissão, apresenta-se como um espaço essencial para a formação de indivíduos conscientes e preparados para uma intervenção social efetiva, tanto no conhecimento da saúde, como da cultura e na defesa de uma cultura de paz. Tendo como base esse entendimento, devemos nós profissionais da área, pautar-nos do conhecimento científico apropriado para que já no início da educação física escolar, nossos alunos tenham de nós professores de educação física a vivência necessária para que sua bagagem motora seja integral, não acarretando déficit psicomotor para os próximos anos e sendo necessárias intervenções futuras. Pois segundo Le Boulch (1987, pg 23):

A disponibilidade corporal, tal como a concebemos, precisa portanto não apenas uma forma de inteligência psicomotora, como assim também um nível elevado de inteligência operatória que, necessariamente, deve ser desenvolvida durante o período da escola primária.

O corpo vai se desconstruindo e reconstruindo, dentro de um complexo de adaptações biopsicossociais, dentro de um complexo de sensações e experimentações associativas, entre o ser humano e o meio. Este corpo vai intervindo com o meio, ao mesmo tempo em que vai sofrendo intervenções com o mesmo. Le Boulch (1987, pg 27), no diz que “A aplicação de uma educação psicomotora integrada ao conjunto das disciplinas escolares passa pela formação do professor primário”. Então partindo desse pressuposto devemos planejar, elaborar e desenvolver a Psicomotricidade propriamente dita no início da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental pois através dela atenderemos nossos alunos de forma integral. Mas se nos depararmos ao longo do caminho com alunos que não tiveram contato com profissionais qualificados e/ou despreparados, o aluno não terá desenvolvido sua “bagagem motora”. O presente artigo busca discutir a importância da Reeducação Psicomotora nas aulas de educação física, iniciando da educação infantil até o ensino fundamental, utilizando a Psicomotricidade como ferramenta vital nas aulas de Educação Física e a sua relevância como prática psicomotora. Tendo como principal objetivo o de contribuir para o desenvolvimento integral dos alunos, propondo questões e ideias relacionadas à aprendizagem e reeducação psicomotora nas aulas de Educação Física.

Psicomotricidade: seu significado, sua história

Durante as últimas décadas muito vem se falando a respeito da Psicomotricidade, sendo essa área de muita importância para o desenvolvimento de nossos alunos, pois é na escola, durante as aulas de educação física que inicia o trabalho do desenvolvimento psicomotor, onde o aluno ano após anos irá construir sua bagagem motora que as levarão para a fase adulta. Porém boa parte dos professores de educação física a renegam ou a deixam de segundo plano, muitas vezes não sabendo como desenvolver tais atividades, e para podermos incorpora-la em nossas aulas precisamos conhecer o que é Psicomotricidade, sendo que a prática psicomotora se iniciou por volta de 1935, quando o neurologista Francês Édouard Guilmain considerado o pai da reeducação psicomotora desenvolveu uma metodologia de trabalho, que segundo, Guilmain (apud LEVIN, 2009):

“Determina um novo método de trabalho: a reeducação psicomotora, que estabelece por meio de diferentes técnicas (provenientes da neuropsiquiatria infantil) um modelo de exercitações: exercícios para reeducar a atividade tônica (exercícios de mímica, de atitudes e de equilíbrios), a atividade de relação e o controle motor (exercícios rítmicos, de coordenação e habilidade motora, e exercícios que tendem a diminuir sincinesias) (Levin, p 26)”.

O conceito de Motricidade, podemos destacar o seguinte:

Forma concreta de relação do ser humano com o mundo e com seus semelhantes, relação esta caracterizada por intencionalidade e significado, fruto de um processo evolutivo, cuja especificidade encontra-se nos processos semióticos da consciência, os quais, por sua vez, decorrem das relações recíprocas entre natureza e cultura – portanto, entre as heranças biológica e sócio-histórica. A motricidade refere-se, portanto, a sensações conscientes do ser humano em movimento intencional e significativo no espaço-tempo objetivo e representado, envolvendo percepção, memória, projeção, afetividade, emoção, raciocínio. Evidencia-se em diferentes formas de expressão – gestual, verbal, cênica, plástica, etc.. A motricidade configura-se como processo, cuja constituição envolve a construção do movimento intencional a partir do reflexo, da reação mediada por representações a partir da reação imediata, das ações planejadas a partir das simples respostas a estímulos externos, da criação de novas formas de interação a partir da reprodução de padrões aprendidos, da ação contextualizada na história – portanto, relacionada ao passado vivido e ao futuro projetado – a partir da ação limitada às contingências presentes. Esse processo ocorre, de forma dialética, nos planos filogenético e ontogenético, expressando e compondo a totalidade das múltiplas e complexas determinações da contínua construção do homem. (KOLYNIAK FILHO, 2002, p. 31-32.).

A psicomotricidade extrapola compreensão e os limites do corpo, causando um complexo de estímulos e sensações no ser humano, bem como estreita a sua relação com o meio em que o ser humano está inserido. Desde seu início vem se preocupando com o processo de desenvolvimento humano, pautando-se no desenvolvimento dos vários tipos de linguagem humana, mas principalmente a linguagem corporal. Trata como essencial a comunicação do ser humano com o mundo a partir de seu corpo e movimento.

A importância da estimulação psicomotora precoce

Já identificada e relatada a importância da Psicomotricidade, temos que nos basear de fundamentos a desenvolve-la precocemente, contudo, devendo ser acompanhada sempre por professores de educação física, pois esta estimulação se dá no dia-a-dia, onde a criança através de suas conquistas vai aos poucos se apropriando de seu corpo e conforme orienta o (I.N.S. 2018), O desenvolvimento psicomotor surge a partir do momento em que o pequeno lida com as tarefas. Importante frisar que a elaboração de jogos lúdicos e as brincadeiras são completamente indicadas por incutir na criança adaptações que passarão a fazer parte da vida delas. A estimulação psicomotora precoce ocupa-se das preocupações fundamentadas na educação, principalmente na prevenção, mas também na cura antecipada de distúrbios apresentados muito precocemente em determinadas crianças. A estimulação precoce interfere e estimula os vários níveis de expressão corporal, encontrados na criança, buscando atenuar ou adiantar o processo de adaptação, acelerando e qualificando os resultados e médio prazo. A estimulação permite o encontro efetivo entre o adulto que propõe as atividades e a criança, que deverá aceita-las caso sejam oferecidas a partir de um clima que lhe permita o afeto e a segurança (é necessário um diálogo caloroso). 

Reeducação psicomotora: como auxiliar o professor

Para poder desenvolver o papel da reeducação psicomotora em alunos, o professor dever ter a sensibilidade de aplicar testes e desenvolver a metodologia a ser aplicada nas aulas, sem isso interferir no funcionamento e andamento dos alunos que não apresentem “déficit motor”. Ao aplicar testes e percebendo a necessidade de intervenção, o professor de educação física deve desenvolver atividades reeducativas através de técnicas específicas para cada caso, inserindo atividades de psicomotricidade envolvendo: coordenação motora (ampla/geral e fina), lateralidade, equilíbrio, noção de tempo e espaço, dissociação segmentar, praxia global e fina, ritmo, trabalhos cognitivos, afetividade, socialização, grafismo, relaxação, etc. O professor deve se atentar a promover e diferenciar em seus alunos os conceitos de comportamento motor, desenvolvimento motor e habilidade motora, que segundo Gallahue, Ozmun e Goodway (2013):

Comportamento Motor: mudança no aprendizado, controle e desenvolvimento motores, causada pela interação entre os processos biológicos e de aprendizado” (p. 32).  Desenvolvimento Motor como: “mudança progressiva no comportamento motor ao longo do ciclo da vida, causada pela interação entre as exigências da tarefa de movimento, a biologia do indivíduo e as condições do ambiente do aprendizado” (p. 32). Gallahue, Ozmun e Goodway (2013) conceituam Habilidade Motora, como: “processo subjacente comum de ganho de controle do movimento voluntário do corpo, dos membros e/ou da cabeça (também chamado de “tarefa” ou “ação”) (p. 32).

Fases e estágios do desenvolvimento motor (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013     p.69).

Para efeito desse artigo buscamos que o professor tenha o entendimento e centre na importância das fases que vão do movimento rudimentar (que são as primeiras formas de movimento, ocorrendo do nascimento ate dois anos), passando pela fase do movimento fundamental (que engloba alunos da educação infantil com 4 e 5 anos e alunos do ensino fundamental do primeiro e segundo ano) e se concretize na fase motora especializada (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Intervenção das habilidades motoras nas aulas de educação física escolar

Analisando o desenvolvimento psicomotor dos alunos e percebeu-se que a criança não consegue desenvolver os trabalhos propostos de forma adequada, o professor de educação física deverá intervir sempre que necessário para que somente através da prática motora ele poderá evoluir e concordando com Le Boulch que em sua fala podemos encontrar crianças com nível psicomotor correspondente com a idade cronológica, embora outros alunos possam manifestar dificuldades sejam de ordem funcional ou de origem afetiva. Aconselha desenvolver as seguintes atividades: “I- Jogos e expressão livre; II- Coordenação global (coordenação dinâmica geral e coordenação fina da mão, dos dedos e coordenação oculomanual; III- Percepção e conhecimento de seu “corpo próprio”. Desempenho da função de interiorização (controle tônico, descoberta e conscientização das diferentes partes do corpo com verbalização, jogos de imitação de gestos e de atitudes e orientação do corpo próprio); IV- Ritmo – Ajustamento ao tempo, percepção temporal (as rodas e as danças cantadas, jogos motores acompanhados de percussão, o ajustamento com tema musical, a expressão com tema musical e percepção temporal; V- Percepção dos elementos do espaço e estruturação do espaço (o ajustamento ao espaço, consolidação das noções de geometria topológica, organização do espaço de ação dentro de um grupo e o acesso ao espaço orientado”,    (LE BOULCH, 1987, pg 57).

  • CONCLUSÃO

As novas tendências voltadas para a educação física escolar (educação infantil e ensino fundamental), devendo passar a ter como foco principal o desenvolvimento da Psicomotricidade em toda a sua essência, servindo como base principalmente na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, pois é através dela que desenvolveremos em nossos alunos os sistemas psicológico, neurológico e motor das crianças, que criarão uma bagagem, onde elas a levarão para a vida toda, uma construção de forma generalizada para estes alunos, contribuindo em ações do dia a dia durante sua existência, onde devemos formar alunos pensantes e envolvidos diretamente no desenrolar das aulas e não apenas meros participantes.  Neste sentido a educação e a reeducação psicomotora surgem, como ferramentas de excelência, tanto no processo de formação motora, como de formação psicossocial, cognitiva e socioafetiva. Suas intervenções e propostas, promovem estímulos variado que proporcionam, além dos estímulos motores, a percepção e reflexão crítica do meio. A escola como um campo essencial de promoção, resgate e manutenção da cultura, dentre elas acultura corporal, abre-se como espaço de excelência para o desenvolvimento de tais conhecimentos, principalmente no campo da Educação Física e sua construção baseada no movimento humano e na cultura corporal de moviemento.

Com todas as ferramentas e seguindo um planejamento adequado, o professor de educação física conseguirá de forma pontual e gradativa auxiliar da recuperação psicomotora dos alunos e conseguirá fechar e completar o ciclo dentro da idade cronológica do aluno.

  • REFERÊNCIAS

GALLAHUE, David L.; OZMUN, John C.; GOODWAY, Jacqueline D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor: Bebês, Crianças, Adolescentes e Adultos. 7. ed. Porto Alegre: AMGH Editora LTDA, 2013. 486 p.

(INS) Instituto Neuro saber. Educação precoce e estimulação psicomotora Disponível em: https://neurosaber.com.br/educacao-precoce-e-estimulacao-psicomotora/ Acesso em: 02 de Out. de 2018.

KOLYNIAK FILHO, Carol. Contribuições para o ensino em motricidade humana. In: Discorpo, revista do Departamento de Educação Física e Esportes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: São Paulo, 2002, n°13, p. 27-39.

LE BOULCH, Jean. Educação psicomotora: psicocinética na idade escolar. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 1987, 356 p.

LEVIN, Esteban. A clínica psicomotora: o corpo na linguagem/Esteban Levin, 8 ed.; tradução de Julieta Jerusalinsky. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 26-

Autores

Peter Mattos Drey
Graduado em Educação Física
petermattosdrey@gmail.com

Gustavo Rachid Mesquita Sauáia
Professor da SEEDUCMA. Professor Bolsista II PROFEBPAR/PARFOR/UFMA
gustavosauaia@gmail.com

Lucio Carlos Dias Oliveira
Docente do Curso de Educação Física CCHNST/UFMA/PIHEIRO-MA
lucio.oliveira@ufma.br