Entenda como o conceito da Autoeficácia pode melhorar os seus treinos

14 de março de 2018 ● POR Igor Hueb de Castro

Na semana passada me deparei com um interessante vídeo na homepage El sendero del Maestro na internet e gostaria de compartilhar a minha experiência com vocês. Um garotinho novo em idade escolar, durante uma apresentação para familiares e pais em uma escola japonesa, tenta saltar uma barreira de plintos por quatro vezes seguidas mas não obtém sucesso. Até aí nada demais, correto? Mas o que chama a atenção é que o grupo de alunos se reúnem com ele e formam um círculo com todos abraçados em cadeia de união. Após ser fortemente motivado pelos colegas, em um lindo e intenso momento de coesão grupal, ele é impulsionado pela torcida do grupo e ultrapassa o obstáculo. O que aconteceu? Será que o resultado foi consequência do grau de convicção que temos de que podemos executar com êxito um determinado tipo de comportamento necessário para se alcançar um objetivo? Qual a importância do companheirismo?

Albert Bandura, é um psicólogo canadense, professor de psicologia social da Universidade de Stanford. Fez contribuições no campo da psicologia social, cognitiva, psicoterapia e pedagogia. Nascido em 1925, definiu autoeficácia como o “julgamento das próprias capacidades de executar cursos de ação exigidos para se atingir certo grau de performance” (BANDURA, 1986, p.391). Para Bandura a auto-eficácia não se refere às habilidades próprias em si mesmas, mas sim aos julgamentos de valor que fazemos sobre o que podemos fazer com nossas próprias habilidades, ou seja, a autoeficácia percebida é relacionada com as crenças das pessoas em suas capacidades de exercer controle sobre seu próprio funcionamento e sobre os eventos que afetam suas vidas (BANDURA, 1993).

Para o autor a autoeficácia depende de duas expectativas fundamentais: a) a expectativa de eficácia pessoal, isto é, o grau de certeza e convicção pessoal que alguém é capaz de realizar com sucesso determinada atividade e, assim, alcançar o resultado almejado; b) a expectativa de resultado, definida como a crença pessoal de que a realização de determinada atividade levará a um determinado resultado.

As dimensões que constituem a autoeficácia são os processos cognitivos,  os processos motivacionais, os processos afetivos e os processos de seleção. A autoeficácia influencia nossas escolhas, no que desejamos fazer, na motivação e na perseverança frente a dificuldades.

Buscando por exemplos de autoeficácia encontrei na mídia inúmeros casos mas dois em especial gostaria de aqui tratar. A realidade de cada caso é repleta de impedimentos, adversidades, revezes, frustrações e injustiças. Mas fica nítida a importância da autoeficácia.

Todos sabemos que o corpo humano é perfeitamente adaptado para sobreviver no habitat em que nasce e vive a maior parte do tempo. Existe um equilíbrio interno que rege o bom funcionamento do corpo humano e qualquer alteração nas condições externas irá ter uma influência neste equilíbrio e conseqüentemente na fisiologia humana. Em condições extremas de temperatura, pressão, gravidade e radiação, entre outros fatores, corremos o risco de vivenciar desequilíbrios.

Em janeiro de 2018 a alpinista francesa Elisabeth Revol viveu uma situação extrema enquanto descia o Nanga Parbat, a “Montanha Nua” no Himalaia. Vale recordar que anteriormente, mais precisamente em 2009, seu parceiro de escalada Martin Manarik, desapareceu enquanto subiam o pico Annapurna, outra montanha do Himalaia, no Nepal. Tal fato fez Revol desistir do alpinismo até 2013, quando retomou as atividades. Elisabeth Revol é altamente respeitada dentro do fechado círculo europeu dos escaladores de elite por ter sido a primeira mulher a alcançar o topo de três cumes importantes do alpinismo mundial, com mais de 8 mil metros, em menos de 16 dias, e sem uso de oxigênio. Sem dúvida nenhuma, é uma outlier. Há mais de 10 anos ela é considerada uma das maiores experts no chamado “Himalaísmo de inverno”, ou seja, na difícil escalada dos picos do Himalaia com temperaturas e clima absolutamente desfavoráveis.

A tragédia a que nos referimos começou logo após haver conquistado o topo da  Nanga Parbat, de 8.126 metros, junto com o escalador polonês, Tomasz Mackiewicz. Vale lembrar que mais de 30 escaladores experientes já pereceram nessa montanha em tentativas de conquista do cume. Na noite de quinta (25) para sexta-feira (26), o polonês alertou por rádio via satélite que não estava se sentindo bem, e informou que já estava sofrendo congelamento de extremidades e de oftalmia das neves, condição que prejudica a visão por causa da alta luminosidade da neve. Exposto à altitude por um período muito prolongado, Mackiewicz começou a entrar em um estado conhecido como “síndrome de altitude”, ou “mal da montanha”, que nos casos mais extremos pode piorar e levar a um edema pulmonar e/ou edema cerebral.  O seu quadro médico agravou – se no momento da descida, quando o polonês começou a passar muito mal e pediu para parar e descansar. Buscando abrigo em uma cratera a 7.280 metros de altitude, ele tinha a esperança de que os socorros terrestres pudessem alcançá-lo. Mackiewicz começava a apresentar sinais e sintomas extremos do mal da montanha.

Nesse momento, Elisabeth tomou a dramática decisão de deixá-lo só e tentar descer a montanha, para buscar ajuda sem quaisquer suprimentos. Aqui nos aparece um senso robusto de eficácia para sustentar o esforço perseverante necessário para salvar a própria vida e ir buscar ajuda para o companheiro. Um helicóptero fretado pela embaixada da Polônia no Paquistão conseguiu decolar e recuperar a alpinista francesa, que foi transportada para um hospital em Islamabad. Como helicópteros não voam acima de 6.000 metros, foi impossível resgatar Tomasz Mackiewicz, que foi dado como morto, devido à hipotermia e a hipóxia em função da altitude em que se encontrava. Nas redes sociais, uma série de críticas fizeram menção à decisão de Revol em abandonar Mackiewcz. Algumas mensagens mais ácidas criticaram a decisão arriscada dos alpinistas de subir o pico no inverno da Himalaia e os riscos assumidos por ela e seu companheiro.

Sabe – se que escaladores mais experientes julgam-se mais capazes de realizarem ações específicas dentro deste esporte, demonstrando uma  autoeficácia elevada, considerando as situações de risco presentes nesta prática esportiva. Um outro caso para estudarmos neste artigo aconteceu durante a etapa final do circuito mundial de Triatlon, disputada em Cozumel, no México, em 2016. Esta final foi marcada por uma cena que ficará eternizada na história da modalidade.  Brigando pela vitória na prova, o britânico Jonathan Brownlee estava perto de conquistar o primeiro lugar. Faltando apenas 700 metros para o título de campeão mundial, o atleta entrou em um severo quadro de desidratação. O irmão de Jonathan, Alistair Brownlee, que estava logo atrás, na segunda posição, decidiu ajudá-lo. Abraçados, eles foram juntos até a linha de chegada.

O sul-africano Henri Schoeman, que estava em terceiro, conseguiu ultrapassá-los e ficou com o primeiro lugar, Jonathan terminou em segundo e Alistair em terceiro. Mas a imagem dos irmãos Brownlee correu o mundo. Os dois mostraram bom humor ao comentar o episódio e Jonathan, totalmente recuperado, agradeceu a atitude: – “Os últimos 200 metros pareceram muito longos. Claro que estou muito agradecido por ele ter salvo minha vida… Sei que o Alistair é competitivo, ele poderia ter ganho ou ter chegado em segundo pelo menos, ele teve a chance. Ele teve a chance de ganhar, mas preferiu me ajudar e claro que é preciso ser uma pessoa muito forte e muito boa para fazer isso” – agradeceu, em entrevista à BBC Sport.

Compreender como a participação no esporte afeta o desenvolvimento psicológico do indivíduo, sua saúde e bem-estar ao longo da vida é fundamental.

E você, o que pensa a respeito dos dois casos aqui relatados? Como tens trabalhado a autoeficácia com seus alunos?

REFERÊNCIAS

BANDURA, A. Self-efficacy: Toward a unifying theory of behavioral change. Psychological Review. 1977. v. 84, p. 191-215.

____________. Perceived effectiveness: an explanatory mechanism of behavioral change. In: LINDZEY, G. C.; HALL, S.; THOMPSON, R. F.. Psychology. New York: Worth, 1978.

____________. Social foundations of thought and action: a social cognitive theory. Englewood Cliffs, N. J.: Prentice – Hall, 1986.

____________. Perceived self-efficacy in the exercise of personal agency. Journal of Applied Sport Psychology. 1990. v. 2, p. 128-163.

____________. Perceived self-efficacy in cognitive development and functioning. Educational Psychologist. 1993. v. 28, n. 2, p. 117-148.

____________. On rectifying conceptual ecumenism. In: MADDUX, J.E (Ed), Selfefficacy, adaptation, and adjustment: Theory, reaserch, and application, New York: Plenum press. 1995. p. 347-375.

____________. Self-efficacy: the exercise of control. New York: Freeman. 1997.

Prof. Esp. Roberto Trindade – Formado em Turismo, Psicologia e Educação Física. Pós-Graduado em Psicologia do Esporte e Esportes de Aventura. Email: trindade_scuba@hotmail.com