Escolinha do Corinthians prova crescimento do interesse pelo basquete

03 de dezembro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

O esporte brasileiro é, de maneira geral, pobre em números. Mas quem trabalha com o basquete percebe um crescimento de interesse nos últimos anos. O NBB, depois de um início difícil, firmou-se e, na atual edição, apresenta quatro equipes “de camisa”, como se diz: grandes clubes de futebol que investiram na montagem de equipes adultas de basquete. Trata-se de Flamengo, Botafogo, Corinthians e São Paulo.

A diretoria corinthiana, depois de criar as escolinhas Chute Inicial (de futebol, é claro) e Toque Inicial (vôlei), abriu a Arremesso Inicial, há um ano. A escolinha de basquete funciona apenas no interior do clube, no Parque São Jorge. É uma atividade mista, mas a grande maioria dos inscritos é constituída por garotos (aproximadamente cem, segundo a assessoria de imprensa do clube). As meninas são seis, apenas.

Segundo Rosana Lopes, coordenadora do basquete de base do Corinthians, um dos objetivos que nortearam a criação da Arremesso Inicial é melhorar o nível da base do clube. “A primeira categoria a ter competições é a sub-12. Essa equipe era montada no mesmo ano em que haveria a competição. Com a Arremesso Inicial, podemos criar uma equipe de crianças com oito anos de idade, e elas terão quatro anos de vivência no esporte até começarem a competir. No sub-11 já preparamos, com a organização de festivais, a equipe que será sub-12 no ano seguinte. Mas toda a filosofia que envolve o projeto vai no sentido de trabalhar de forma lúdica, porque o objetivo principal dos pais que inscrevem as crianças não é transformá-las em atletas profissionais, mas oferecer-lhes atividade física”.

Formada em Educação Física pelas Faculdades Integradas de Guarulhos, Rosana foi atleta do Centro Olímpico por alguns anos, até que as seguidas lesões deram ponto final na carreira. Ao todo, a jogadora se submeteu a três cirurgias de joelho e a duas de ombro. Foi a senha para mergulhar nos estudos – a profissional fez uma pós lato sensu em basquete na Universidade de São Paulo (USP) e um mestrado em reabilitação neuromotora na Uniban.

Munida da vivência nas quadras e com currículo acadêmico interessante, Rosana já atuou em diversos clubes: Finasa/Osasco, Círculo Militar, Tietê, Guarulhos e Barueri. Quanto aos grandes clubes “de camisa”, a treinadora tem uma passagem de oito anos pelo Palmeiras e outra, de cinco, pelo São Paulo. Ela diz, com orgulho, que dois atletas que receberam o carimbo da NBA já foram treinados por ela: Leandrinho (no Palmeiras e no Tietê) e Bruno Caboclo, atualmente no Memphis Grizzlies, nos tempos em que defendia a base de Barueri.

“Muita gente acha que o Bruno Caboclo foi formado no Pinheiros. Ele foi para esse clube quando era sub-19, mas fez o sub-17 em Barueri. Muita gente me perguntava: ‘onde você foi buscar esse garoto?’ Não foi buscar em lugar algum. Ele já estava em Barueri quando era sub-11”.

Revelar jogadores como Caboclo no Corinthians é um sonho, mas não uma meta. Segundo Rosana, já se comentou no clube a possibilidade de abrir filiais da Arremesso Inicial fora do clube, mas se trata de algo a ser trabalhado no longo prazo. “Queremos uma estabilidade maior. Temos uma quantidade limitada de isenções (crianças dispensadas de pagar mensalidade)”, diz a treinadora.

Rosana avalia que a volta da NBA à TV aberta e a presença do NBB na programação de canais fechados e aberto está ampliando a visibilidade do basquete. “Conseguimos atingir um público mais carente. Trabalho com projetos sociais. Alguns anos atrás, íamos a Paraisópolis, por exemplo, e o interesse pelo basquete era menor, os garotos não acompanhavam. A TV e os times de camisa estão mudando isso”.

Um dos pontos fracos do Arremesso Inicial é a adesão ainda diminuta das meninas. “Temos pouquíssimas jogadoras, de fato. Damos oportunidades a todos, mas acho que elas ficam inibidas ao verem que há uma maioria destacada de meninos e poucas garotas”. Cabe lembrar que o Corinthians, em outra era, já contribuiu para a formação de Janeth Arcain, campeã mundial em 94 e medalhista olímpica, além de estrela do Houston Comets, da WNBA.

Antes de encerrar-se o intervalo que antecede as aulas no Centro Universitário Ítalo-Brasileiro, onde leciona, Regina manda recado, na entrevista por telefone, aos estudantes de Educação Física que simpatizam com o basquete: “O mercado de trabalho está crescendo para quem gosta do nosso esporte. Muitos atletas querem um trabalho extra durante as férias, ou almejam desenvolvimento em fundamentos específicos, e contratam personal trainers. Os pais de garotos que estão na base também contratam esse tipo de profissional”.