“Handebol nasce e morre na escola”, diz oposição ao presidente da CBH

12 de janeiro de 2018 ● POR Pedro Cunácia

Por Alessandro Lucchetti

O país campeão do Mundial de Handebol de 2013 é o mesmo que apresenta, na Confederação da modalidade, um presidente cuja gestão é alvo de 50 denúncias apresentadas pelo Ministério Público. É um país em que há muitos anos se diz que o handebol é o esporte mais praticado nas escolas, mas esse potencial não se reflete numa base forte. Por outro lado, na mídia, trata-se do patinho feio entre os esportes coletivos de quadra, com escassa visibilidade. O Portal da Educação Física, diante do confronto desses dados conflitantes, pergunta-se: que handebol é esse?
Conversamos com o presidente da Confederação, Manoel Luiz Oliveira, e com o líder da oposição, Fabiano Lima Cavalcante, presidente da Federação Cearense, derrotado nas últimas eleições ao comando da CBH por 16 a 6, para tentar jogar luz sobre esse cenário complexo.
Na opinião de Cavalcante, a ideia de que o Brasil tem uma base potencial de praticantes renovada anualmente nas escolas não passa de uma pretensão romântica. “Fala-se muito que o handebol é o esporte mais praticado nas escolas. Talvez seja porque as meninas praticam mais. Muitas ainda não querem jogar futsal e não têm resistência contra o handebol, que é jogado com a mão, é mais fácil. Mesmo que seja verdade que o handebol é o esporte mais praticado, de que forma se dá isso? É recreativo, ministrado por professores de educação física que tiveram contato com a modalidade durante um semestre. Esses professores tiveram umas 20 aulas sobre handebol. Será que isso é suficiente para iniciar nossas crianças como se deve no esporte? Na minha opinião, o handebol brasileiro nasce e morre na escola. Esses talentos, ainda que despontem, depois têm dificuldades para prosseguir na modalidade, porque o trabalho na base no Brasil é malfeito”.
Quem procurar Oliveira para conversar sobre assunto ouvirá maravilhas sobre o Acampamento Nacional de Desenvolvimento e Melhoria Técnica, projeto implantado por Jordi Ribera em 2005, na primeira passagem do treinador espanhol no comando da seleção brasileira masculina. Irrigado com recursos do patrocínio da Petrobras, o projeto ganhou corpo e deu cria, dando origem aos Acampamentos Regionais.
“A gente tem atletas e talentos, mas temos clubes de menos, esse é o nosso problema. Joga-se handebol no Brasil em lugares em que não se imagina, como em Rondon do Pará e em Parintins, no Amazonas. Esses jogadores só atuavam regionalmente. Com esse projeto, muito bem estruturado, conseguimos selecionar talentos para os Acampamentos Regionais. Esses atletas selecionados nós não perdemos. Com o tempo, o Brasil vai se tornar o grande celeiro mundial do handebol”.
A visão de Cavalcante já não é tão rósea. “Veja o nome do projeto, Acampamento Nacional de Desenvolvimento e Melhoria Técnica. Não se pode melhorar e desenvolver o que não existe. O projeto chega a lugares em que não há handebol. Chegaram a um estado vizinho do Ceará e não tinha praticantes na localidade. Distribuíram os coletes e as bolas numa escola e botaram as crianças pra jogar. Muitos não sabiam segurar uma bola, não conseguiam fazer uma infiltração. É preciso ter gente capacitada pra tocar esse projeto, bons instrutores. Não existe capacitação no Brasil para o handebol. Professores de handebol estão indo trabalhar em academias de musculação, estão se tornando treinadores de futsal, porque paga-se muito pouco pela hora-aula”.
Na avaliação de Manoel, um dos calcanhares de aquiles do handebol brasileiro, o exíguo número de clubes, já não se observa. Houve anos em que a Liga Nacional foi disputada por seis equipes. “Tivemos em 2017 quatro conferências, e em 2018 teremos uma Liga com cinco conferências, com o desdobramento da Sul/Sudeste, e mais de 50 equipes. Esse é um estímulo absurdo para se jogar handebol em todas as partes do Brasil”.
Como disse o escritor norte-americano Gregg Eastebrook, “estatística é a arte de torturar os números até que eles confessem qualquer coisa”. Cavalcante chicoteia outros algarismos para revelar um ângulo mais sofrido dessa história. “Várias competições importantes da base foram excluídas do calendário de 2018, como Campeonato Brasileiro Junior Masculino e a Copa Nordeste de seleções, única competição de seleções estaduais do País, que movimentava nossos nove estados. Em 2014, no Ceará, chegamos a ter 180 rapazes em ação nessa disputa. Chegamos a ter Brasileiro Feminino Júnior com seis equipes, com três estados representados. Hoje, no Nordeste, temos poucas equipes. No Ceará, tínhamos clubes de bancos, como a AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), o Clube da Caixa e o Clube do BNB (Banco do Nordeste do Brasil). Hoje, esses clubes, em crise, já não têm mais nem voleibol, o que se dirá do handebol?”.
Em dado momento da entrevista, Manoel, que completará 28 anos no comando da CBH, saca seu argumento predileto e definitivo para alardear as maravilhas de sua gestão. “O Brasil foi campeão do mundo no handebol. Ao longo da história do Mundial, menos de dez países foram campeões, e apenas Coreia do Sul e Brasil são de fora da Europa”. Na verdade, 11 países já alcançaram o degrau mais alto do pódio nas disputas entre mulheres. Mas a segunda parte da frase está correta. Brasileiras e coreanas são as outras sócias de um clube que reúne Alemanha, Noruega, Dinamarca, França, Hungria, Romênia e as extintas União Soviética, Iugoslávia, Alemanha Oriental e Tchecoslováquia.
Cavalcante, sempre ele, tem na ponta da língua um argumento para rebater o de seu adversário. “Ninguém estudava o Brasil, não sabiam como jogávamos. No Campeonato Paulista de futebol, por exemplo, todo mundo sabe como o Palmeiras e o São Paulo jogam, mas nem todo mundo vai estudar o Linense. Isso é que aconteceu”, diz o presidente da Federação do Ceará. “Além do mais, as equipes europeias, em 2013, estavam se renovando para a Olimpíada de 2016. O Brasil tinha um grupo com média de idade de 27, 28 anos. As europeias tinham média de 22, 23 anos. Em 2016, as seleções europeias estavam já mais maduras e com força física, e o Brasil estava declinando, chegou velho ao Rio”.
De qualquer forma, Morten Soubak, o dinamarquês que comandou aquele grupo que fez história, não teve continuidade. Sem nunca tapar o sol com a peneira, o nórdico apontou algumas mazelas do handebol brasileiro, e foi defenestrado. “Morten começou a criticar o handebol brasileiro, disse que se jogava o esporte em quadras de cimento no País. Tenho sangue nordestino e brasileiro, não admito e não aceito esses ataques. O Morten veio ao Brasil com currículo zero. Chegou aqui para treinar a equipe masculina do Pinheiros sem nunca ter vencido uma Liga Dinamarquesa ou conquistado algo pela seleção de seu país. Hoje temos um técnico que já chegou aqui com medalha olímpica e de Mundial (Jorge Duenãs, bronze no Mundial de 2011 e na Olimpíada de 2012 no comando da Espanha). Como estarão as condições do handebol de Angola, onde ele está hoje”, alfineta Manoel. No comando do time verde-amarelo, o Duenãs viu o Brasil ser eliminado na primeira fase do Mundial da Alemanha, no mês passado, com uma vitória, dois empates e duas derrotas.
Manoel jura que seu atual mandato, iniciado após uma eleição conturbada e questionada na Justiça, no início do ano passado, será o último. “Estou há 27 anos como presidente da CBH, e muitos me criticam por isso. Mas me orgulho de cada segundo nesse período”. O tempo dirá qual será o legado dessa era manoelina.