Hoje é (mais um) dia de sentir orgulho da profissão

31 de agosto de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

O dia do profissional da Educação Física, aquele que contribui para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população, é comemorado neste sábado, 1º de setembro. A data foi escolhida por ser a mesma em que ocorreu a regulamentação da profissão, em 1998. Este ano, o dia é duplamente especial – completam-se também 20 anos desse marco histórico.

O status social conferido ao profissional de Educação Física não é dos mais elevados. Não se compara àquele de que historicamente gozam os graduados em engenharia, direito e medicina, a tríade que embalava os sonhos das moças casadoiras em priscas eras. No entanto, poucas profissões reúnem um acervo tão vasto de belas histórias de transformação de vidas, de realidade social.

Nesta semana, nossa equipe de reportagem colheu três belos relatos, capazes de orgulhar a classe e inspirá-la, a despeito da defasagem salarial, da precariedade reinante em tantas escolas públicas pelo país afora. São três profissionais, de três diferentes cidades e que trabalham com três esportes distintos. É a forma que encontramos de homenagear nosso leitor, o profissional de educação física, a cada dia mais necessário. Hoje é dia de sentir orgulho da profissão!

1. Fábio de Souza Filho, São Paulo

Talvez falte uma remuneração mais condizente com todo o esforço de Fábio de Souza Filho, mas não lhe falta trabalho. Formado pela Uniban, com pós-graduação pela Unicid, Fábio é especializado na orientação a corredores de rua, e faz múltiplas correrias: monta planilhas e dá treinos no Parque do Carmo e no Parque Chico Mendes aos alunos de sua assessoria, a “Treine o Ritmo”, atua como personal trainer e é preparador físico das categorias sub-15 e sub-17 do clube de futebol Grêmio Mauaense.

Quem o vê em plena atividade não imagina que parte da adolescência e os primeiros anos da vida adulta do educador foram mergulhados em álcool. “Passei uns oito anos na bebida. No meu bairro, o Jardim Santa Terezinha, é muito comum encontrar jovens nesse estado. Todos os meus amigos bebem muito até hoje. Eu consumia o meu tempo achando que aquilo era o meu mundo”.

Muitos projetos socioesportivos contêm relatos de vidas de jovens drogados ou alcoólatras transformadas por meio do esporte. O curioso no relato de Fabinho é que sua inspiração esportiva nasceu de um grupo de idosos que jogavam malha em seu bairro.

“Jogar malha com aqueles velhinhos era minha válvula de escape”, diz o educador.

Outra boa influência era o cabeleireiro Ney, que o chamou para uma corrida de rua em Ferraz de Vasconcelos. “Lembro que paramos num bar para tomar algumas cervejas antes da largada, e já corremos meio alterados, quase não conseguíamos correr. Foi então que vi uma moça correndo descalça, com muita determinação. Essa imagem não saiu da minha mente até hoje, e a tomei como exemplo. Depois desse dia, não coloquei mais nenhuma gota de álcool na boca”.

Fábio passou a se dedicar aos treinos e chegou até a vencer algumas provas, como a etapa de inverno do Circuito das Estações. Empolgado com o esporte, descobriu sua vocação e resolveu cursar Educação Física. “Foi complicado para mim, porque fiquei dez anos sem frequentar uma sala de aula. A Uniban é bem tecnicista, e tive que me virar para aprender a jogar basquete, vôlei, handebol. O nível era alto. Meu professor de basquete, por exemplo, era o Sérgio Maroneze (auxiliar técnico de Miguel Ângelo da Luz na comissão técnica campeã do Mundial Feminino de 94 e vice-campeã olímpica em 96)”.

Inspirado no amigo Francisco Carlos da Silva, o Fran Kauê, corredor que pintou uma pista na rua, em Itaquera, e orienta atletas, Fábio pretende, no futuro, montar algum projeto social.

“A educação física e o esporte me deram muita coisa. Não é uma profissão formidável financeiramente, mas não sei onde estaria se não fosse ela. Acordo todos os dias com muita disposição para trabalhar, com muito orgulho do que faço. Sei que terei que montar alguma coisa para retribuir. Devo resgatar outros que vivem problemas semelhantes ao que vivi”, afirma o educador.

2.  Leca Jentzch, Curitiba.

Acomodar-se nunca foi uma tendência para a profissional de Educação Física Leca Jentzch. Aos 40 anos, já estabelecida no mercado de trabalho, a professora se viu encantada por um esporte que desconhecia, o rugby. Desse encontro nasceu o projeto social Vivendo o Rugby , que recebeu o Spirit of Rugby Award em 2014 da International Rugby Board, entidade máxima do esporte. A distinção é conferida a clubes ou entidades que contribuam para a difusão dos valores do esporte ao redor do mundo.

Hoje, o projeto contempla mais de trezentas crianças em 12 escolas públicas de Curitiba. Quarenta dos atletas revelados pelo projeto foram aquinhoados com bolsas reservadas a talentos esportivos do Paraná, e 20 foram encaminhados a seleções brasileiras de diferentes categorias. Um braço do projeto atua na Casa de Custódia, entidade onde ficam internados jovens infratores em estado de semi-liberdade.

A aproximação de Leca com o esporte nasceu a partir de uma necessidade. Em 2005, ela montou um projeto para introdução do rugby em escolas públicas que submeteu a uma banca na segunda fase de um concurso público.

“Eu queria colocar um esporte diferente. Um amigo meu me chamou para ver um treino e gostei muito do esporte. Muitos brasileiros que desconhecem o rugby o consideram violento, o que produz um preconceito. O que muitos não sabem é que é um esporte muito bom para se trabalhar na escola. Esses movimentos de cair, levantar, empurrar e os valores de respeito e autocontrole, que norteiam o esporte, são ótimos para o desenvolvimento do caráter”, diz Leca. “O rugby é muito inclusivo. Os gordinhos e os fortes são necessários, mas também os baixinhos, magrinhos e rápidos, que correm com a bola. A convivência é estimulada. Além disso, é um esporte de estratégia, trabalhado com a inteligência”, acrescenta a educadora.

Hoje com 50 anos de idade, Leca avalia a profissão com bons olhos, apesar de todos os senões. “Os professores em geral não são valorizados no Brasil. E as áreas de educação artística e educação física são as primeiras a ser contestadas quando se fala em reforma curricular. Isso cria uma segurança. Eu me sinto insegura quanto a isso”.

Por outro lado, Leca entende que o mercado é promissor para o educador que realmente se prepara. “Aqueles que estudam, que fazem pós, vão atrás de aperfeiçoamento, conseguem se destacar no mercado. Acho que é um mercado de trabalho como qualquer outro. Conheço colegas muito bem-sucedidos”.

3. Natane Vicente, São Gonçalo (RJ).

O nome da localidade, Vista Alegre, é simpático, mas trata-se de uma área de vulnerabilidade social, cercada por comunidades carentes de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. Lá, Natane Vicente, ex-jogadora de futebol, atua com orgulho tanto na secretaria como no campo de um projeto social, o Karanba.

O Karanba é o fruto improvável de uma viagem ao Brasil de Tommy Nilsen, um ex-jogador norueguês de futebol. Em 2004, o escandinavo, chateado com uma lesão no joelho que decretou o fim de sua carreira, veio espairecer no Brasil. Acabou se apaixonando pelo Rio e resolveu firmar suas bases na Cidade Maravilhosa.

Mudou-se para um apartamento ao lado da Cruzada São Sebastião, no Leblon. No campo do condomínio, tinha contato com moradores da comunidade próxima. A ideia de criar o projeto social nasceu de certa perplexidade: o contraste entre as belezas naturais, o espírito do povo e as desigualdades sociais. A palavra “caramba” descrevia bem esse espanto, e foi utlizada para batizar o projeto – o “k” foi inserido para facilitar o registro da marca, e o “n”, para homenagear a Noruega.

Com patrocínio de empresas norueguesas, o Karanba contempla 320 alunos carentes, entre 6 e 20 anos de idade. Num dos núcleos atua Natane, jogadora que atuou no Friburguense, Volta Redonda e Fluminense de Niterói.

Ela já trabalhava na secretaria quando Nilsen lhe perguntou quais eram os seus planos para os próximos anos. Ao constatar que não tinha nenhum, pensou um pouco mais e disse que gostaria de cursar Educação Física.

“Não foi nada fácil. Passei por uns apertos, porque meu salário não é alto e, no último período, minha mensalidade na faculdade (do grupo Universo) era de R$ 716. Mas tive que me esforçar. Sou negra, pobre e, sem ensino superior, a minha vida seria ainda mais difícil”.

O projeto oferece aulas de informática e inglês às crianças, e faz o monitoramento escolar. Notas baixas os empurram para aulas obrigatórias de reforço em português e matemática. Quem não frequentá-las é excluído do projeto.

“Tenho orgulho deste projeto. Eu me sinto muito feliz por poder atuar como transformadora social. Acho que o maior gol que fiz na vida foi com uma caneta na mão, ao me formar em educação física”, diz a fã de Romário, incumbida do treinamento da categoria sub-9 masculina do Karanba.