Joanna Maranhão: “atletas precisam resistir aos cortes no orçamento”

27 de setembro de 2019 ● POR Redação

O presidente Jair Messias Bolsonaro não teve dificuldades para abrir uma brecha em sua agenda para receber medalhistas dos Jogos Pan-Americanos de Lima em Brasília, no mês passado. As fotos do mandatário, todo sorridente, mordendo medalhas dos atletas, rapidamente foram disseminadas pelos eficientes espalhadores de conteúdo que trabalham no Palácio do Planalto. Parte do trabalho foi executada, com gosto, pelos próprios atletas, que se encarregaram de distribuir imagens do efusivo encontro com o “Mito”.

Na última quinta-feira, aqueles que tiveram a preocupação de se inteirar sobre as notícias mais importantes do esporte brasileiro não puderam exibir sorrisos. O blog Olhar Olímpico, do Uol, registra que o PLOA (projeto de Lei Orçamentária Anual) de 2020, elaborada pela equipe econômica do Poder Executivo, propõe um corte drástico na verba destinada ao esporte: o valor despenca dos R$ 431 milhões destinados no último ano da gestão Michel Temer para R$ 220 milhões. É pouco mais do que a metade da verba de 2019.

Nessa estimativa estão incluídos gastos com atividades (como Bolsa Atleta e Rede Nacional de Treinamento) e projetos (implementação de infra-estrutura).

O desnível fica ainda mais gritante quando se compara o valor proposto para o primeiro ano do atual ciclo olímpico, 2017: era de R$ 722 milhões.

A rubrica destinada à preparação de atletas e capacitação de profissionais para o Esporte de Alto Rendimento contemplou um orçamento de R$ 105 milhões para 2016. A turma de Paulo Guedes reservou agora R$ 3 milhões.  Atenção: não há aqui erro de digitação – são três milhões de reais. “A preparação de seleções para representação do Brasil” gozava de um orçamento de R$ 40 milhões em 2017. No ano seguinte, o valor despencou para R$ 1 milhão, verba idêntica àquela proposta para o ano de 2020.

Caso os parlamentares não alterem a peça orçamentária, todo o esporte de alto rendimento terá R$ 4 milhões para se preparar no ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio. No ano olímpico de 2016, tal verba foi de R$ 241 milhões.

A reportagem do Portal da Educação Física teve enormes dificuldades para encontrar atletas dispostos a emitir uma opinião sobre o assunto. A ex-nadadora Joanna Maranhão, uma das raras finalistas olímpicas brasileiras em seu esporte, recebeu a solicitação de entrevista enquanto amamentava o filho Caetano. “Eu tô com meu bebezinho agora. Quero muito comentar. Assim que ele terminar de mamar eu falo contigo”.

Dito e feito: a reportagem esperou meia hora. Assim que o telefone tocou, Joanna começou a responder. Articulada e combativa, a quinta colocada nos 400m medley nos Jogos de Atenas se posicionou.

“Não me surpreende essa medida. Repito desde sempre que o esporte é visto como algo secundário ou talvez até terciário pelas autoridades governamentais. No governo Dilma já era assim. Não é por eu ser progressista que vá deixar de lembrar disso. Mas o que podemos dizer sobre pessoas de uma gestão que, na campanha eleitoral, sequer mencionaram a palavra esporte no plano de governo? É um governo que extinguiu o Ministério do Esporte, e isso significa perda de força. Houve atletas dizendo que preferem uma secretaria do esporte forte dentro do Ministério da Cidadania. Aceitaram o argumento do governo, de que seria preferível assim, porque a gestão seria mais técnica do que política. Hoje vemos que essa secretaria não tem poder para absolutamente nada. Mas não adianta eu ficar naquela do ‘eu avisei’. O que importa é discutir o que faremos daqui para a frente”.

Joanna está residindo no momento no Distrito Federal, onde obtém apoio dos pais de seu marido, o ex-judoca brasiliense Luciano Correa (campeão mundial em 2007), em seus afazeres maternos nos primeiros meses de vida do filho do casal de atletas. Ela diz que tem aproveitando a localização privilegiada para conversar com parlamentares interessados no esporte e articular algum tipo de resistência ao severo corte orçamentário.

Incomodada com a omissão dos atletas, que por anos ficaram de braços cruzados (e continuam), mesmo ouvindo que diversas irregularidades eram cometidas por importantes dirigentes de confederações esportivas, Joanna pondera que este não é o momento de silenciar. “A comunidade esportiva historicamente não se posiciona, por medo de retaliação, que pode afetar o rendimento esportivo. Mas, neste momento, é uma questão de sobrevivência. Tenho conversado com pessoas que furam bolhas, aquelas capazes de dialogar tanto com pessoas de posicionamento político mais à direita quanto com aquelas mais à esquerda. É hora de reagir. Infelizmente, muitos atletas só vão tomar conhecimento da importância do tema quando souberem que uma viagem que desejavam fazer para um período de preparação no exterior foi cancelada. É necessário haver um nível mínimo de politização. Vejo o desempenho do Brasil em Tóquio 2020 seriamente ameaçado”.

Joanna já até imagina quais argumentos serão apresentados pelos parlamentares da situação e pelos membros da equipe econômica. “Dirão que os anos de governo do PT nos conduziram a uma crise econômica enorme. É a única resposta que dão para tudo. Vi um vídeo em que o Ciro Gomes disse: ‘nesta era de pós-verdade, é necessário criar um arqui-inimigo para justificar as incompetências’. Essa é a tática do Steve Bannon”, diz a dona de oito medalhas dos Jogos Pan-Americanos, referindo-se ao estrategista que ajudou a eleger Donald Trump presidente dos Estados Unidos.

Muito atacada nas redes sociais pelos defensores de Bolsonaro, Joanna não se furta a apontar falhas cometidas nas gestões Lula e Dilma. “Eu integrei o Programa Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas. Fiz parte do Exército. Acho que foi o general Heleno quem disse que estava passando um cometa esportivo pelo Brasil: recebemos o Pan, a Olimpíada, Copa do Mundo, Copa América, Jogos Mundiais Militares e tantos outros grandes eventos ao longo de poucos anos. Era uma oportunidade única, e deveria ter sido criada uma política esportiva. Poderia ter sido feito um investimento em estruturas esportivas, e houve um pouco disso, mas a prioridade do governo foi investir em atletas para que conquistassem medalhas na Rio 2016. Para isso foram transferidos recursos para os Programas Bolsa Atleta e Bolsa Pódio. Acho que não devemos ir na exceção, mas na regra. É fato que alguns atletas utilizaram o dinheiro para comprar apartamento ou carro. Mas a maior parte, eu friso, buscou seu crescimento como atleta. Minha opinião é de que o Bolsa Atleta deve ser revisto: deve haver um controle maior”.

De qualquer forma, Joanna pondera que nenhum governo, seja de qual faixa do espectro ideológico for, deve ao menos aportar verbas decentes para manutenção das instalações esportivas que já foram construídas. “A UFMG tem instalações magníficas. Umas 200 crianças correm na pista de atletismo, e a piscina é excelente. O Adam Peaty (britânico que detém o recorde mundial dos 100m peito) treinou lá antes da Olimpíada de 16. Mas todo ano a universidade tem que mendigar verba para a manutenção. Acho isso uma vergonha”.

Para que esse estado de coisas mude, Joanna considera fundamental que os atletas não se omitam. “Compreendo que os atletas focam em sua preparação. Na minha época, treinava de 6 a 8 horas diárias, fazia treinamento mental e fisioterapia. De fato é difícil reservar um tempo para se articular politicamente. Mas eu repito: não haverá preparação boa se não houver dinheiro. É questão de sobrevivência. Acabaram com o dinheiro do esporte”.