O que fazer quando pinta uma atração entre personal trainer e aluno?

22 de janeiro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Young teacher the subject

Of schoolgirl fantasy

She wants him so badly

Knows what she wants to be

Inside her there’s longing

This girl’s an open page

Book marking – she’s so close now

This girl is half his age

Don’t stand so close to me

Em setembro de 1980, a banda The Police lançou um compacto com Don’t Stand so Close to me no Lado A. A letra, escrita pelo baixista e vocalista Sting, que foi professor de inglês, aborda sentimentos como desejo, medo e culpa que uma estudante jovem e um professor nutrem um pelo outro. A música é um dos maiores sucessos do trio britânico – foi o single mais vendido no Reino Unido naquele ano, com 900 mil cópias comercializadas.

Boa parte dos personal trainers não são alheios a episódios como esse. Como normalmente exibem músculos bem trabalhados e orientam alunos que também os cultivam, é bastante natural que a atração sexual surja, das duas partes.

Alguns relatos na internet já foram publicados sobre casos entre esses professores e seus alunos. Os títulos das matérias costumam ser recheados com a palavra “assédio”, talvez com o intuito de atrair cliques na rede. 

Ouvimos alguns profissionais ligados ao CREF 1 e ao Sindicato dos Profissionais de Educação Física do Rio de Janeiro no intuito de obter informação e orientação para quem deseje receber algum subsídio para lidar com essa questão.

Em primeiro lugar, convém esclarecer que, legalmente, insinuações sexuais entre professores e alunos dificilmente poderiam ser caracterizadas como assédio.

A lei 10.224, de 2001, que definiu esse tipo penal, assim caracteriza o assédio sexual: “Constranger alguém com intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”.

É questionável o tipo de ascendência que um profissional liberal, como um personal trainer, possa ter sobre um aluno. “Assédio sexual é, em sentido estrito, um tipo de coerção de caráter sexual praticada geralmente por uma pessoa em posição hierárquica superior em relação a um subordinado (embora o contrário também possa acontecer), normalmente em local de trabalho ou ambiente acadêmico. O assédio sexual caracteriza-se por alguma ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade contra o subordinado visando a algum objetivo”, diz o professor André Fernandes, conselheiro do CREF Rio.

O personal trainer Pedro Paulo Oliveira Martins, membro do conselho fiscal do Sindicato dos Profissionais de Educação Física do Rio, avalia que o professor deve zelar sempre por sua imagem. “A imagem que o personal trainer tem na sociedade já não é muito boa. Houve uma temporada de Malhação em que um professor vendia esteróides, e isso acarretou uma repercussão terrível. Muita gente também nos vê como pessoas fúteis, só ligadas às aparências, à estética. Em princípio, não tem nada de errado se um relacionamento ocorrer entre um professor ou professora e um aluno, caso ambos sejam descomprometidos. Mas há que se cuidar da forma como se desenvolve esse contato. Não acho interessante que a paquera se desenvolva no ambiente de trabalho, na academia, porque pode pegar mal. É preciso ter cuidado com as brincadeiras verbais, com o nível de agressividade”.

Martins acredita que é muito natural que a atração entre as duas partes ocorra. “O personal trainer tem uma relação diferente com o aluno, acaba tocando as pessoas. Ele também trabalha o lado psicológico do aluno, que por vezes desabafa, se envolve emocionalmente. Nem sempre é uma relação de trabalho autônoma, fria. Do lado do personal, vejo que muitos colegas até sentem vontade de se envolver, mas se resguardam para não se prejudicar”.

A estratégia de Martins para coibir qualquer tipo de iniciativa desse tipo é manter a seriedade. “Eu sou um cara muito fechado. Já recebi cantadas, mas manifesto, pelo semblante fechado, que não sou receptivo a esse tipo de abordagem. Se você ficar sem jeito e sorrir, essa manifestação pode ser interpretada como receptiva. Acho que nossa imagem já é bem manchada em meio à sociedade. Não podemos degradá-la ainda mais”.

Martins acredita que faz parte da função dos sindicatos e, mais ainda, dos Conselhos de Educação Física, orientar os integrantes da categoria para que lidem melhor com esse aspecto da profissão. “Isso tem a ver com a valorização do profissional. Acho que é função do CREF cuidar disso, sim”.

Na opinião do personal, seus colegas devem investir no cultivo de uma imagem de agente de saúde. “Nossa maior função na sociedade é essa. Podemos levar a cura para nossos alunos, podemos melhorar a saúde física, mental e emocional deles. Gostaria que não nos vissem apenas como donos de abdômens sarados, como o professor de aeróbica que fica rebolando”.

Segundo Martins, o assédio pode ser caracterizado em escolas, onde o risco de situações mal interpretadas e maledicências é alto. “Nas escolas, dependendo da faixa etária, a galera adolescente chega e abraça, dá beijinhos no professor. As aulas de educação física são muito vistas como momento de descontração, de alívio num dia a dia mais tenso, que requer concentração. É humano, é inerente ao ser humano que o afeto possa aflorar. O professor deve ter muito cuidado para não ser mal interpretado”.

Felipe Goulart, também conselheiro do CREF 1, diz que o código de ética da profissão expressa claramente como deve ser a conduta do profissional nessas situações. Na avaliação desse professor, caso o personal se sinta tentado pelo desejo e tenha dificuldades para administrar a situação, seria recomendável encerrar a relação profissional com o aluno, indicando outro profissional. “Esse tipo de relação tende a ser tóxica. Outros clientes podem perceber e a reputação do personal fica manchada”.