Observação atenta e improviso: segredos de Adão Ayres, o descobridor de Darlan Romani

09 de setembro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

O mundo inteiro já conhece a força de Darlan Romani. Depois de ter arremessado o peso a 22,61m na etapa de Eugene da Diamond League, no final de junho, ele reforçou suas credenciais em qualquer projeção séria sobre candidatos a medalha nos Jogos Olímpicos de Tóquio. As belíssimas performances nos Jogos Pan-Americanos de Lima e na etapa de Bruxelas da Diamond League só confirmaram sua excelente fase.

O que poucos sabiam é que a memória do brutamontes catarinense também é prodigiosa. Em entrevista ao portal R7, publicada no início de julho, ele se lembrou de seu professor de Educação Física na Escola de Ensino Básico Domingos Magarinos, no distrito Tamanduá, em Concórdia.

“Sinceramente, não pensei que chegaria tão longe. Mas meu professor de escola, Adão Ayres, disse que iria me ver em uma Olimpíada e medalhista assim que comecei a treinar. Eu ri, uma criança lá do interior de Concórdia…E hoje aqui estamos. Sempre me lembro muito dele e, a cada vez que o vejo na minha cidade, lembramo-nos disso e conversamos”, disse o campeão pan-americano à jornalista Carla Contreras.

A reportagem do Portal da Educação Física localizou Ayres, professor aposentado há nove anos, para ouvirmos, por telefone, mais histórias sobre a descoberta de uma das esperanças de medalha de ouro do Brasil em Tóquio. Hoje ele trabalha numa escolinha de futebol do Grêmio, ainda na cidade natal de Darlan.

“Eu olhava as características do Darlan em outros esportes e via que ele poderia se destacar em algumas provas do atletismo. No handebol, ele jogava como armador, e arremessava a bola com muita força. No futebol, e também no futsal, era goleiro. Suas reposições de bola passavam do meio do campo. Naquela época, as professoras da seleção municipal de atletismo visitavam as escolas, e eu indiquei o Darlan”, recorda o mestre.

O professor de Darlan formava equipes de atletismo e as enviava para competições municipais mesmo sem realizar previamente treino algum da modalidade. “Um dia fui repreendido pela direção da escola, por mandar a gurizada para competir sem ter treinado a gurizada. Mas é aquilo que disse anteriormente: basta observar as características das crianças e colocá-las nas provas adequadas. É ver aquelas que têm mais força, mais resistência, mais velocidade…”

Em conversas com Darlan, o antigo mestre e seu aluno se divertem com as histórias do garotinho rechonchudo e muito forte. Talvez o primeiro arremesso do guri tenha sido num terreno contíguo ao da escola, onde havia muitas árvores frutíferas. “Acho que ele tinha uns oito anos. A gente queria arremessar pelota, mas não tinha. Peguei uma laranja verde e dei pro Darlan arremessar. A fruta foi tão longe…Caiu no meio da grama e nós não a encontramos até hoje. Nunca contei isso pra direção da escola, porque poderia levar uma bronca por pegar uma fruta no pé para arremessar”, diverte-se o professor.

Ayres foi professor de Darlan desde os anos iniciais do Ensino Básico até o final. Sem incorrer no erro de utilizar a falta de infraestrutura como desculpa, improvisava provas de corrida no pátio da escola. Cabos de vassoura eram transformados em bastões para as provas de revezamento, e os dardos eram feitos com bambu.

“Depois do futebol, o esporte que mais gosto é o basquete. Antes de termos quadra, eu amarrava uns pneus nas árvores para improvisar as cestas. Quando passamos a ter quadras, o Darlan, que jogava como ala, se destacava arremessando bolas de três pontos”, diz Ayres.

Como foi indicado para a seleção municipal de atletismo, Darlan passou a ser treinado pela professora Marizete Renosto, a primeira treinadora de atletismo do atual atleta olímpico, na modesta pista de brita que circunda o Estádio Domingos Machado de Lima. É lá que manda os seus jogos o Concórdia Atlético Clube, o Galo do Oeste, que subiu para a Série A do Catarinense no mês passado.

No ano passado, durante suas férias, Darlan foi visitar o estádio, e repassou aos jovens atletas as técnicas modernas de arremesso, que aprendeu com o treinador cubano Justo Navarro. “O Darlan tem um coração de ouro. Foi ajudar os atletas do município, município que não fez nada por ele. Nunca o apoiou para custear as viagens que fazia para disputar competições estaduais”, aponta Ayres. “O grande apoiador do Darlan foi mesmo o pai dele”, lembra Ayres, referindo-se a Moacir Romani, que morreu após um acidente. Ele transportava idosos num ônibus de sua empresa, que foi atingido na traseira por um caminhão, em janeiro de 2012.

Ayres espera que a história de seus anos com Darlan ganhe maior divulgação quando seu antigo pupilo conquistar a tão aguardada medalha olímpica. Nos Jogos do Rio, o catarinense alcançou uma excelente quinta colocação, aos 25 anos de idade.

“Tomara que jovens professores de Educação Física se inspirem. Hoje vejo muitos professores que se formaram em cursos de Educação Física a distância, o que acho um absurdo, dando uma bola para as crianças jogarem enquanto ficam mexendo no celular”, critica.  “A profissão é mal remunerada, todos sabemos, mas a satisfação de ter contribuído para a revelação do Darlan é algo imenso, maravilhoso. Cada dia em que me lembro dele é como um dia ganho”.