Outubro Rosa: a história de duas professoras que lutaram contra o câncer de mama

11 de outubro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Alguns dos grandes ensinamentos legados por um professor de Educação Física consistem em aprender a ganhar e a perder, e a saber jogar em desvantagem. Este mês, por ocasião do Outubro Rosa, contamos as histórias de duas grandes guerreiras, ambas formadas em Educação Física, que lutaram contra o câncer de mama.

Lania Galvão, aos 49 anos, vai reconstruindo a vida após derrotar o câncer, que lhe custou o seio esquerdo. Professora da rede estadual do Rio, está recebendo auxílio-doença e já encaminhou um pedido de aposentadoria por invalidez. Com as energias renovadas, prepara-se para lançar um canal no YouTube para incentivar pacientes de câncer e se engaja em campanhas informativas da Rio Imagem, centro de diagnóstico médico por imagem.

“O que procuro dizer a todos que lidam com a doença é que não desistam, não desanimem. Vale muito a pena viver. Nossa aparência muda: perde-se o seio e a quimioterapia faz cair cabelo, dente, unha. Cai tudo. Mas, se existe tratamento, devemos nos agarrar a ele e lutar. Repito: não desanimem, não deixem cair a peteca!”.

Lania tem claro que a prática de esportes, à qual se dedicou ao longo de toda a vida, foi muito importante para ajudar o corpo a aguentar o tranco do tratamento. A carioca praticou natação, vôlei, ginástica, CrossFit e musculação. Hoje, por conta da recuperação, faz uma atividade mais leve, a hidroginástica.

“A hidro está me ajudando a recuperar massa muscular, disposição e autoestima”, afirma.

A personal trainer catarinense Silvania Gonçalves faleceu no final de outubro de 2015. O diagnóstico foi tardio, e o câncer já estava em metástase, permitindo-lhe apenas mais três anos de sobrevida. Mesmo assim, Silvania se esforçou para manter a atividade física, segundo sua filha, Amanda Tomazelli.

“O esporte é um aliado que dá uma contribuição muito importante psicológica e fisicamente. Nós íamos todos os dias juntas à academia. Além da musculação, ela fazia também Pilates”, diz Amanda, que tem 20 anos e cursa Odontologia em Joinville.

Silvania sentiu um caroço no peito durante a gravidez de Pedro Henrique, que tem hoje quatro anos. “O médico disse a ela que era coisa normal da gravidez. Depois de um ano, minha mãe foi fazer alguns exames preparatórios, porque queria colocar silicone nos seios. Aí apareceu o câncer”.

Se tivesse iniciado o tratamento logo depois do nascimento de Pedro Henrique, Silvania talvez pudesse estar viva até hoje, com 40 anos de idade. Porém, mesmo diante do quadro gravíssimo, a personal trainer lutou da melhor forma que pôde.

“O diagnóstico foi um grande choque. Ela ficou arrasada e chorou muito, mas isso durou só um dia. Lembro que ela me disse que não ia ficar triste nem se abalar”, recorda Amanda.

Silvania abriu uma página no Facebook, a Onco&Fitness, dedicada justamente a incentivar pacientes de câncer a praticar esporte. Ela ainda se dedicou a campanhas da Casa Rosa e deu muitas entrevistas, procurando oferecer suporte psicológico a outros doentes.

Amanda toca a página no Facebook e costuma doar cabelos e lenços a pacientes de câncer. Parte da família aposta que o pequeno Pedro Henrique, hoje com quatro anos, tem inclinação para seguir a profissão da mãe.

“Ele é o mais parecido com nossa mãe em tudo, inclusive fisicamente. Adora praticar esportes. Ama jogar bola”, diz Amanda.

Tanto Amanda como Lania enfatizam a importância de todas as mulheres se submeterem a exames periodicamente, mesmo que não se enquadrem em muitos dos fatores de risco devido à prática de esportes e boa alimentação.

“Sempre fiz anualmente os meus exames, sempre me cuidei bastante. Mas esse câncer se manifestou 14 meses depois de meu último exame, porque enfrentei problemas muito sérios, pessoais e profissionais”, diz Lania.

A professora foi uma das servidoras públicas golpeadas pela falência administrativa do Estado do Rio. “Estava sofrendo nos tempos em que o Pezão (Luiz Fernando de Souza, governador do Rio) ficava sem pagar nossos salários. Chegou a ficar três meses sem pagar, e depois pagava tudo picadinho, em parcelas. O dinheiro que entrava virava pó rapidamente, porque as contas não perdoam. Você fica sem poder pagar a conta do supermercado, fica com medo que lhe cortem a luz. Tenho certeza de que todo esse estresse foi determinante no meu caso”, diz a educadora, que se tratou pelo SUS.

Mesmo diante de todos os reveses, Liana se diz animada por ter desenvolvido uma outra forma de lidar com os problemas. “A visão da gente muda demais. Vejo agora que problemas que a gente cria são tão insignificantes…E a doença nos ajuda a fazer uma peneira de amizades. Elas são devidamente selecionadas. Pessoas que tinha em alta conta me deram as costas, e outras, que jamais poderia imaginar, vêm a minha casa para me oferecer ajuda em tudo”.

Após tratar as queimaduras provocadas pela radioterapia, Lania pretende colocar uma prótese no seio e seguir tocando a vida. “Levo de boa a ausência do seio. Não vou ser hipócrita e dizer que não me faz falta, mas faço tudo, vou à praia. A cicatriz aparece, mas não me importo. Ano que vem pretendo colocar uma prótese. Fica melhor para a gente se vestir”.