Preparador físico da elite do surfe dá três dicas: “estudem, estudem, estudem”

20 de abril de 2020 ● POR Redação

Há muito tempo o Brasil tem surfistas talentosos. No entanto, havia uma barreira que separava esses atletas do título do circuito mundial, que foi organizado em 1976. Os brazucas deveriam se sentir mais ou menos como o Surfista Prateado, condenado a ficar preso aos arredores orbitais da Terra por Galactus, o Devorador de Mundos.

Como se sabe, Gabriel Medina rompeu a barreira em 2014. De lá pra cá, três dos cinco títulos masculinos do surfe profissional foram obtidos por brasileiros: Adriano Souza, o Mineirinho, se consagrou no ano seguinte; Medina repetiu o feito em 2018 e Ítalo Ferreira arrebatou o último caneco em disputa.

A preparação física específica é hoje uma ferramenta básica e fundamental para o sucesso no esporte. Nesta semana, conversamos com Eduardo Takeuchi, um descendente de japoneses que nunca teve receio de ser estigmatizado como estudante CDF. Ele trabalha na preparação de feras como Filipe Toledo, Caio Ibelli, Ian Gouveia, Samuel Pupo e Lucas Xaparral. O renomado profissional dá três dicas para quem deseja se firmar nesse mercado: “estudem, estudem, estudem”.

Alguns surfistas se dedicam a exercícios aeróbicos, treinamento funcional e CrossFit. Sua linha de trabalho é mais ou menos por aí?

Não. A nossa linha de trabalho é baseada nas funções do corpo. Os músculos, tendões, articulações e tecidos faciais estão desenvolvendo 100% de suas funções? Ótimo. Aí sim poderemos trabalhar as cadeias e as capacidades físicas específicas do surfe.

Quando falo “nossa” eu me refiro à minha empresa especializada em treinamento mental e físico para os esportes com pranchas – Personal Boards. Por isso temos vários atletas do circuito mundial de surfe, skate e demais esportes com pranchas.

As rotinas de exercícios diferem conforme o tipo de onda que será encarada?

Fato. Cada onda tem uma característica e, como consequência, demandas metabólicas diferentes. Nós já caracterizamos as ondas do circuito mundial.

Que tipo de preparação é feita quando se tem pela frente um cenário com ondas que exigem mais manobras?

Primeiro tem que fazer uma base sólida. Em treinamento chamamos de período de base, e fazemos mesociclos de especificidades. Nesse caso, resistência de força. A proposta é as manobras saírem consistentes do início ao fim.

As ondas tubulares exigem qual tipo de preparação?

Base sólida + treinamento de potência, força e muita estabilização. Os atletas precisam estar fortes para aguentar as pancadas, rápidos para “dropar” (ficar em cima da prancha) e estáveis para suportar os balanços dentro do tubo.

O que deve ser trabalhado quando se antevê uma etapa do circuito com ondas longas e água gelada?

Primeiro a adaptabilidade, como qualquer esporte. É preciso chegar antes ao local da etapa, surfar no mar gelado com roupa com 12 dias de antecedência se o local ao qual você está acostumado não for parecido. E o treinamento seria parecido com o descrito na resposta à antepenúltima pergunta.

Algumas etapas do WCT são realizadas em locais muito distantes do Brasil. Ficaram famosas algumas estratégias da seleção de vôlei, no tempo de Bernardinho. O preparador físico (José Salles Neto) aproveitava momentos de espera em aeroportos e corredores de hotel para realizar alguns trabalhos. Você é adepto desse tipo de estratégia?

Sou totalmente adepto. Aliás, sou fã de carteirinha do Bernardinho. Mas a realidade do vôlei é bem diferente da do surfe. Tento implementar o máximo de treinamento dentro de toda a cultura e crença que o surfe carrega, mas que está mudando um pouco. Acredito que, com a Olimpíada, mudará bastante.

Você prefere conduzir o treinamento na própria praia ou em academias de musculação?

Não me preocupo muito com os locais e sim com a proposta de treinamento. Na nossa opinião, a areia não é o melhor lugar para se treinar. Preferimos pisos duros, como a literatura preconiza, para desenvolver algumas especificidades.

O surfe de hoje, que inclui manobras como os aéreos, exige um outro tipo de preparação?

Sem dúvida. Para saltar, primeiro você precisa aprender a aterrissar. Neste caso, aterrissar em todos os planos. Depois, a aceleração é importante. Trabalhar os planos é algo que costumamos fazer, independentemente da manobra.

O surfista talentoso, mas não muito esforçado na preparação física, tem espaço no cenário competitivo do circuito profissional? Conseguirá resultados com uma postura um pouco mais preguiçosa, se for bastante criativo e cheio de talento?

Hoje sim, mas será mais um. E num futuro próximo acredito que perderá o espaço. Nós respeitamos quem quer ser mais um. Mas na nossa equipe não terá espaço. Entenda – não é que trabalhamos apenas com os melhores. Mas trabalhamos com aqueles que se dedicam, independentemente do resultado. “A vitória não é mais importante do que ter a certeza de que fizemos tudo para conquistá-la”.

Conte-nos um pouco sobre sua formação.

Eu comecei na Educação Física (cursada na FMU) um pouco mais velho. Já tinha feito Sistema de Informações em outra faculdade, com bolsa de estudos de 50% por causa do esporte. Sempre competi desde criança. Acho que, por isso, tento buscar sempre o melhor em todas as situações. Sou um japonês tradicional que se abrasileirou. Disciplina e trabalho são meu nome e sobrenome, mas com a alegria do brasileiro.

Por que resolveu cursar Educação Física?

Já havia cursado outra faculdade. Quando fiz Educação Física, já não podia mais “errar”. Então eu era o tiozinho chato da primeira carteira, que dava bronca nos mais jovens mentalmente para que parassem de falar, afim de que eu pudesse me concentrar na explicação. Metade da sala não gostava de mim, mas me respeitava.

Qual é a história do seu envolvimento com o surfe? Em qual momento da vida começou a gostar?

Graças ao Daniel Uesugi, que me convidou para ser sócio dele. Isso ocorreu ao observarmos que não havia dados científicos para nos prepararmos para a minha primeira surftrip, a El Salvador.

Desde que saiu da faculdade, sempre trabalhou com surfe ou se envolveu também com outras modalidades?

Trabalhei muitos anos com preparação física independente do esporte, mas sempre surfei. Depois de dois anos formado, comecei a atacar o surfe por causa da surftrip.

O circuito inclui excelentes surfistas norte-americanos, havaianos, australianos e de outras nacionalidades. É possível comparar o preparo físico dos surfistas brasileiros com os de outros países?

Não, de maneira nenhuma. Acredito que tem vários atletas brasileiros que são muito bem condicionados. O que é relevante, mas não generalizo, é a cultura dos americanos/ havaianos. Fazem o que tem que ser feito. Tive a oportunidade de fazer um estágio de observação numa das principais referências de preparação física do mundo. E lá eu vi a galera do futebol americano. Indivíduos fortes, potentes e rápidos fazendo prancha, mobilidade e exercícios básicos que os “preguiçosos” negligenciam. Eles fazem o que tem que ser feito.

De uma forma geral, quais seriam os surfistas mais bem preparados fisicamente, na sua opinião?

Gabriel Medina e Ítalo Ferreira são referências nesse quesito. Acredito que eles compreenderam que treinar o físico é tão importante quanto estar treinando surfe. O próprio John John (Florence) mudou até a alimentação dele e do time dele (são vegetarianos). Não à toa, foi bicampeão do circuito (2016/17).

O que diria a um estudante de Educação Física que gosta de surfe? Esse mercado, o de preparação física para surfistas, é promissor? Enxerga uma perspectiva de crescimento?

O que eu digo é que estude, estude e estude. Nossa área é muito desvalorizada por pessoas que passaram pela área sendo mais um. É NOSSA responsabilidade fazer o nosso melhor para transformarmos a Educação Física numa profissão tão respeitada como a medicina, por exemplo. O mínimo que eu espero de você é o seu máximo de dedicação. Esse comportamento te levará a ser um ser humano melhor. Vejo crescimento em qualquer área se a pessoa se dispuser a dar o seu melhor. É o comportamento que irá gerar o resultado. Nossa área, o surfe, só cresce e favorecerá aqueles que estão preparados.