Prof. de EF, pai do fenômeno Foguete fala sobre a dura vida no atletismo

25 de outubro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Em 1984, o velocista Carlos Camilo deixava a pista do Ibirapuera desalentado. O capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, conterrâneo do Rei Roberto Carlos, tinha no currículo provas contra rivais da estirpe de Carl Lewis, e mostrava com orgulho uma foto em que aparecia correndo lado a lado com o astro norte-americano. Na pista do estádio Ícaro de Castro Mello, no entanto, sofrera uma lesão ainda numa das baterias classificatórias e perdera a chance de obter índice para os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Sem perspectivas, lamentou ainda o fato de sequer ter dinheiro para voltar para casa, em São José dos Campos, segundo relato do jornalista Roberto Salim, que cobriu aquele Troféu Brasil para a Folha de S. Paulo. Mesmo com todos os problemas que o atletismo brasileiro vivencia desde aqueles tempos, Camilo insistiu e hoje tem belas perspectivas na carreira.

34 anos depois, Camilo, hoje formado em Educação Física, é o treinador da mais reluzente estrela do Brasil nas provas de velocidade: o filho dele, Paulo André Camilo, de 20 anos. O “Boltinho de Vila Velha” ou Foguete ficou bem perto do recorde sul-americano dos 100m, que pertence a Robson Caetano desde 1988: 10s cravados, estabelecidos na altitude da Cidade do México. Boltinho registrou 10s02 no último Troféu Brasil, em Bragança Paulista, em setembro.

Segundo Carlos Camilo, o filho só não quebrou a barreira dos 10s devido ao tempo frio e à chuva que se abateram sobre a pista de Bragança. “O clima e o vento contra não ajudaram. Mas esse recorde tá dentro do meu filho, tá nas pernas dele. Só falta sair”, diz, com otimismo.

Camilo viveu de 93 a 99 em Santo André, onde nasceu o Foguete. Formado em Educação Física pela Unisec, deu aulas na escola estadual Aristides Greve. Depois, lecionou em Vila Velha (ES), na rede municipal. Nesse período, não pôde oferecer atividades de atletismo a seus alunos. “Eu dava muito handebol. Não havia espaço físico nas escolas para dar atletismo. Naquela época ainda não tinha chegado até nós o conceito do miniatletismo, um método para se praticar o esporte mesmo em quadras”.

Em Vila Velha, Camilo hoje é treinador de atletismo ligado ao projeto Campeões do Futuro, mantido pela Prefeitura. Foi lá, numa pista de terra, que o Foguete foi lançado. “Quando chegamos à pista, havia mato na altura da canela. Limpamos o terreno, demarcamos. Tudo é improvisado: os dardos são de bambu, os obstáculos são feitos com canos de PVC. Mas temos muita gente boa aqui”, diz, com orgulho.

Camilo não era muito de falar sobre sua carreira com o filho, que se interessou mesmo é pelo futebol. Jogava nas categorias de base do Tupy, campeão da Série B capixaba em 2001. O menino levava jeito e foi aprovado numa peneira pelo Bahia, mas a mãe achou que Paulo, aos 13 anos de idade, era muito novo para deixar a casa.

“Sempre correu muito. Era só lançar a bola pra ele: ninguém conseguia chegar para marcá-lo. Muita gente falava que ele era craque, mas, na minha opinião, craque é outra coisa. Sempre o incentivei a tentar o atletismo”.

Paulo André cedeu diante da insistência do pai e foi participar de uma prova na pista. Mesmo sem treinar, venceu. Satisfeito com a performance, passou a treinar, sob o comando do pai, e começou a vencer uma prova atrás da outra.

Hoje, Paulo André é atleta do Esporte Clube Pinheiros e treina na pista da Universidade Federal do Espírito Santo, um dos legados da Rio-2016. Os planos já estão traçados para o filho: final olímpica em 2020 e briga por medalha em 2024.

“A joia está sendo lapidada. Falta muita coisa ainda. Ele ainda está desenvolvendo sua força natural. Fizemos exames no COB (Comitê Olímpico do Brasil) e constatamos que ele ainda está crescendo. (Tem 1,83m hoje, aos 20 anos). O importante é que ele está limpo por dentro, sofreu pouquíssimas lesões. A gente preserva bastante o corpo dele. O menino é talento puro. Essa marca, abaixo dos 10s, deve sair entre março e junho do ano que vem”, diz Carlos Camilo, que fez duas pós-graduações na Unisantana, em São Paulo.

“O curso de graduação só me deu uma pincelada de atletismo. O que aprendi mesmo foi na prática e nas pós-graduações”.

Segundo Camilo, o atletismo brasileiro precisa de mais apoio. Mesmo com uma base relativamente modesta no que tange a número de praticantes, o país hoje tem cinco atletas correndo os 100m até a casa dos 10s15, o que abre boas perspectivas para o Mundial de Revezamento do ano que vem.

“Essa crise está provocando sérios estragos no atletismo. Equipes como a BM&F acabaram. Hoje, se uma empresa tiver R$ 100 mil para investir em patrocínio, é muito mais interessante colocar no vôlei ou no basquete, que tem uma liga como o NBB, com jogos em vários canais. A visibilidade do atletismo é muito pequena. Hoje, se tivermos duas séries nos 100m, já é muita coisa. Nos meus tempos de atleta, tínhamos umas dez séries, uns cem atletas competindo nessa prova. As grandes cidades de São Paulo (Guarulhos, Piracicaba, Campinas…) sempre tinham equipes”, lamenta o professor.