Professor abnegado conduz jogadoras da periferia a torneio da NBA

07 de agosto de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Se publicássemos uma matéria dando conta da participação de três estudantes de escola pública de uma das regiões mais carentes da periferia paulistana num torneio organizado pela NBA em Orlando, muitos de nossos leitores certamente suspeitariam que estamos propagando fake news.

Mas é a mais pura verdade. Kathleen Suzuki Oliveira Santos (13 anos), Julia Fonseca Rabelo da Silva (14) e Evelyn Medonça Vital (14), todas crias de um projeto tocado por Rodrigo Mussini, professor de Educação Física da E.E. Recanto Verde Sol, fazem parte de uma seleção da América do Sul que participa da primeira edição do Campeonato Mundial Júnior. A Recanto venceu a edição regional da Junior NBA League, disputada por 170 alunos de 12 escolas, entre as quais algumas onde estuda a fina flor da elite paulistana, como St. Paul’s School, Bandeirantes, Miguel de Cervantes e Dante Alighieri, batido na final.

A equipe sul-americana é composta por outras quatro jogadoras brasileiras de outras escolas, e também com argentinas e uruguaias.

Há oito anos tocando o projeto, Mussini, em entrevista concedida por telefone ao Portal desde a Flórida, lembra que nem todas as jogadoras têm condições de fazer todas as refeições do dia. “Às sextas-feiras, os dias de treinos mais pesados, eu levo lanches para elas, que pago do meu bolso”.

Os boletins de ocorrência do Recanto Verde do Sol, bairro situado na Zona Leste, entre São Mateus e Cidade Tiradentes, são registrados no 49º DP, sexto colocado no ranking de exposição a crimes violentos da Cidade de São Paulo, elaborado pelo Instituto Sou da Paz.

Abnegado, para dizer o mínimo, Mussini se divide em três empregos – dá aulas também em outra escola pública e no Liceu Jardim, em Santo André. Depois de se graduar em Educação Física, ele participou de uma clínica em Bauru ministrada por técnicos das escolas espanhola, sérvia e argentina e também fez um curso de preparação física para o basquete ministrado por Diego Jeleilate, preparador físico da seleção brasileira, campeão do NBB pelo Paulistano e hoje general manager do basquete do Flamengo, além de devorar avidamente pesquisas e estudos elaborados por treinadores americanos.

O projeto consome R$ 2 mil mensais, um quarto deles bancado pelo governo. O principal gasto é o de transporte das atletas para participação em competições. Parcerias, rifas e vaquinhas são o motor financeiro da trupe. Graças a esse esforço, as garotas fazem musculação numa academia do bairro e recebem pares de tênis e uniformes ofertados por amigos do treinador.

Quatro jogadoras da escola já receberam bolsas para estudar em escolas particulares, e dez se transferiram para clubes. “Eu seguro as meninas até os 14 anos de idade, mesmo porque a experiência que elas acumulam jogando pela escola elas não teriam em clube algum”.

A quantidade de feitos é realmente impressionante. Por quatro anos seguidos, a Recanto representou São Paulo nos Jogos Estaduais do Estado de São Paulo (Jeesp), graças a resultados obtidos em competições classificatórias entre as escolas públicas. A escola venceu também a Copa Nescau Sub-14 e o circuito escolar do ABC em 2015 e 2016. Jogadoras suas foram apontadas como as melhores nas categorias Sub-12 e Sub-14.

Raiane Dias, 15 anos, revelada por Mussini e hoje jogadora da ADC Bradesco, chegou à seleção brasileira Sub-14, vice-campeã do Sul-Americano da categoria, na Colômbia (foi superada pelo Chile).

“Nossa preocupação é fazer o bem, salvar vidas através do esporte. O prazer que temos de encaminhar estas garotas para clubes e escolas particulares é muito grande”, diz Mussini, natural de Aquidauana (MS).

Os primeiros resultados, em 2010, não foram lá muito animadores. “Comecei errado, formando o time Sub-17. Depois, organizei o Sub-10 e aí fomos evoluindo, construindo todas as categorias”.

O esquema tático de Mussini tem suas particularidades. “Nunca temos jogadoras altas. O que fazemos é um esquema com as cinco jogadoras abertas. Trabalhamos transição rápida, para nunca enfrentar o adversário armado, no 5 contra 5”. O capricho nos arremessos é fundamental – um dia da semana é reservado apenas para os tiros. “Ninguém joga tampouco de costas para a cesta”, afirma o educador.

Os treinos são bem específicos. “Mais de 50% do tempo nós consumimos em jogadas adaptadas de transição. Não fazemos aqueles treinos engessados, com cones. Não aplicamos também o conceito de que treino é treino e jogo é jogo. Para nós, treino é jogo e jogo é treino”.

No quesito preparação psicológica, Mussini recorre a sessões de filmes que possam influenciar as atletas positivamente e a uma madrinha de muito respeito. “A Alessandra (pivô campeã do Mundial de 94, vice-campeã olímpica em 96 e bronze em 2000) faz palestras para orientar as meninas”.

O Mundial Júnior da NBA começou nesta terça-feira (7 de agosto) e vai até o dia 12, no complexo Walt Disney World Resort.