Qual é o país mais fisicamente ativo no mundo e por que isso não é algo positivo?

24 de setembro de 2018 ● POR Leonardo Boscolo

Jennifer Namulembwa passa uma hora e meia caminhando até o trabalho, cinco vezes por semana. Logo às 7h da manhã, ela cruza o sudeste de Campala, capital de Uganda, até chegar em Kamwokya, para iniciar o ofício às 9h.

Aos 34 anos, Jennifer fica cerca de duas horas de pé enquanto faz a faxina de um edifício de três andares. Durante o restante da trajetória diária, que se encerra por volta das 17h, atende aos pedidos de seu chefe. Quando faz o mesmo caminho na volta para casa.

“Estou acostumada, então, não sinto tanto a distância. Nunca uso sapatos chiques para ir trabalhar. Eu até gostaria de aproveitar mais, poder ir de carro ou de moto”, diz ela, ao mostrar seus pés empoeirados nas sandálias pretas.

Seu empenho físico não é dado pelo cuidado com a saúde, mas sim pela situação financeira. Jennifer recebe o equivalente a US$100 (R$408 na cotação atual) e, considerando as despesas com a casa e a educação de seus dois filhos, não sobra dinheiro para o transporte.

Realizando o mesmo caminho, temos Oprus Aduba, pai de três filhos e funcionário de um hotel. Ele conta que é difícil fazer com que o salário chegue ao fim do mês.

Um estudo publicado na revista Lancet recentemente, elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aponta Uganda como a nação mais fisicamente ativa do mundo entre 2001 e 2016. Isso se deve ao esforço diário de trabalhadores que dependem da caminhada, como Jennifer e Oprus.

Comparando os dados da pesquisa, Uganda tem a menor porcentagem (5,5%) de pessoas que fazem quantidade insuficiente de atividades físicas por dia, enquanto o Brasil tem a maior taxa (47%) da América Latina.

Mundialmente falando, cerca de 25% da população não se exercita o suficiente para reduzir o risco de doenças cardiovasculares, câncer e diabetes. Segundo a OMS, o sedentarismo e a falta de atividades físicas também tem impacto na saúde mental e qualidade de vida.

Em geral, a pesquisa mostra que, em países de baixa renda, as pessoas parecem incorporar uma quantidade suficiente de atividades físicas ao seu estilo de vida. O contrário do que ocorre em países de renda mais alta. Ou seja, quanto mais pobres as pessoas, maior é a chance de usarem modos de transporte, ou que tenham uma ocupação que envolva mais esforço físico.

Exercício na cidade e no campo

De volta a Campala, Jennifer e Oprus sequer ouviram falar sobre as recomendações da OMS, que sugere que cada pessoa pratique, semanalmente, ao menos 150 minutos de atividade física moderada ou intensa (ou 75 minutos de atividade bem intensa, como o CrossFit).

E eles, sem saber, superam essa recomendação com facilidade.

Além da rotina de pessoas como as já citadas, a explicação para tamanha atividade dentro do país pode se dar pelo interior do país, onde se calcula que 70% da população trabalha na agricultura.

Abiasali Nsereko, um agricultor de 68 anos de Luweero, localizada cerca de duas horas de Campala, começa seu dia às 5h, ordenhando vacas e fazendo serviços pela fazenda (limpando o estábulo e cuidando dos pés de café e banana da plantação). Ele trabalha sozinho, exceto pelas poucas vezes em que contrata ajudantes temporários.

“Passo cerca de oito horas de pé, seis dias por semana. Planto toda a comida que comemos. Se eu parar de trabalhar, provavelmente vou ficar doente. Mesmo na minha idade, não tenho nenhuma dor no corpo”, diz Abiasali.

Alguns ugandenses encontram dificuldades para se manterem em forma, já que os estilos de vida vem mudando ao longo do tempo. A capital do país, Campala, assim como muitas cidades brasileiras, tem uma quantidade insuficiente de parques, muitas ruas não têm calçadas adequadas e a poluição dos carros cresce.

Correr ou caminhar na rua exige, no mínimo, bravura dos ugandenses. Quando têm sorte de encontrar boas calçadas no caminho, terão de ficar atentos aos enormes buracos e aos mototáxis que constantemente empurram os pedestres.

Nos últimos anos, cresceu o número de praticantes de corrida pelas ruas, a maior parte deles da elite urbana do país.

Também há uma tendência crescente de “grupos fitness” por Campala. Em uma ensolarada manhã de domingo, três diferentes grupos de pessoas, que reuniram desde idosos até crianças se exercitavam no estacionamento do Estádio Nacional Mandela, na capital ugandense.

Uma das participantes, Diana Nakabugo, diz que o exercício em grupo a motiva, tanto que ela vai ao estádio praticá-lo três vezes por semana, às 6h30 da manhã.

Nem sempre é fácil. “Já acordo pensando no trânsito”, diz ela. “Tenho de deixar as crianças na escola, chegar no horário ao trabalho. É um desafio (se exercitar). Muitos pais não conseguem priorizar as atividades físicas.”

O educador físico Sabiti Matovu e sua filha de nove anos também participam do grupo. Para ela, as atividades são mais do que uma chance de estar na companhia do pai.

“A educação física costumava fazer parte do currículo de todas as escolas. Mas, aqui na cidade, as escolas agora colocam ênfase apenas no lado acadêmico”, diz Sabiti, preocupado com a possibilidade de as crianças ugandenses não conseguirem manter a boa forma de seus pais.

“Muitas escolas não têm playgrounds. E, nas escolas rurais onde há espaços abertos, não há professores de educação física.”

A primeira ciclovia de Uganda

Em julho deste ano, o presidente Yoweri Museveni lançou o Dia Nacional das Atividades Físicas, que deverá ser comemorado anualmente. Mas, aparentemente, será necessário mais do que um decreto presidencial para manter o país com altos níveis de prática de exercício.

Amanda Ngabirano, palestrante de planejamento urbano na Escola de Engenharia e Tecnologia da Universidade Makerere, em Campala, é um exemplo das dificuldades: ela enfrenta uma pequena odisseia para conseguir pedalar sua bicicleta até o trabalho, em uma cidade que há menos de um mês inaugurou sua primeira ciclovia.

A jornada de Amanda começa com a bicicleta dobrada dentro do carro, que ela estaciona na metade do caminho. Então, ela pedala os 7 km restantes em estradas e ruas de trânsito pesado e caótico, disputando espaço com carros acostumados a trocar rapidamente de faixas e com motos velozes.

Mas ela acredita que tem dado “mais ordem no caos”. “Os motoristas têm andado mais devagar e conseguem me ver. É mais seguro (nas vias movimentadas) do que nas vias com poucos carros, onde todos vão em alta velocidade”, explica.

E, embora Uganda tenha comemorado o resultado do estudo da OMS, o país está se urbanizando rapidamente.

Nas próximas décadas, é provável que haja menos pessoas de 68 anos como Abiasali Nsereko trabalhando na agricultura, e mais pessoas com empregos de escritórios e se deslocando em automóveis.

O estilo de vida ugandense está mudando, segundo um estudo realizado em 2013 sobre áreas urbanas periféricas no leste de Campala, pelo professor Roy William Mayega, da Escola de Saúde Pública da Universidade Makerere.

“Descobrimos que 85% dos participantes eram fisicamente ativos. Também medimos seu peso e índice de açúcar no sangue. Os 15% que não eram suficientemente ativos tinham o dobro de probabilidade ter diabetes e pressão alta”, afirma.

Um desafio, diz Mayega, é que está caindo o número de ugandenses interessados em empregos fisicamente exigentes – como na agricultura -, sobretudo entre a população mais jovem.

Mudanças alimentares

Uma mudança na alimentação da população também pode ser notada, já que o crescimento das pessoas que fazem e vendem alimentos altamente calóricos e processados nas margens das estradas locais é notório.

“A atividade física está se tornando menos um estilo de vida, e estamos comendo coisas que não comíamos no passado. Ao mesmo tempo, a percepção das pessoas sobre atividades (físicas) recreativas ainda é negativa. Um homem me disse durante o estudo: ‘fazer isso (exercício) é coisa de criança'”, relata.

Todos os fatores acendem um sinal de alerta quanto a um possível crescimento futuro de doenças cardiovasculares e diabetes, por exemplo.

No entanto, a grande maioria dos ugandenses se mantém em boa forma sem tratar isso como se fosse ginástica. Para conservar o posto de país mais ativo do mundo, porém, talvez seja necessária uma conscientização nacional, além de uma infraestrutura minimamente adequada.

Matéria original no site BBC Brasil.