Bebeto de Freitas deixa biografia que serve como ponto de partida de discussão de políticas públicas no esporte

15 de outubro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Comandante da Geração de Prata, aquela que colocou o vôlei brasileiro entre os grandes; campeão mundial pela Itália, presidente do Botafogo, membro do Hall da Fama do vôlei, manager e diretor executivo do Atlético Mineiro, secretário de Esportes e Lazer de Belo Horizonte, pai do treinador de vôlei de praia e vice-campeão olímpico Rico de Freitas, sobrinho de João Saldanha, primo de Heleno de Freitas. Bebeto de Freitas foi tudo isso, e também professor de Educação Física concursado do Estado do Rio, professor da Universidade Gama Filho e da Escola Naval.

Antes de morrer, em março de 2018, aos 68 anos de idade, Bebeto deixou quase 20 horas de entrevistas gravadas ao jornalista Rafael Valesi, que escreveu alguns trechos iniciais da biografia intitulada Bebeto de Feitas: o que eu vivi antes da partida do ex-treinador. Depois do falecimento, a família decidiu manter o estilo do texto, em primeira pessoa, para os capítulos seguintes.

A trajetória de Bebeto, desde a gênese do levantador que chegaria à seleção brasileira, na areia do Posto 6 de Copacabana, até o encerramento da carreira esportiva, está toda lá. Todos aqueles anos de vivêncianas quadras e fora delas são permeados por reflexões que culminam no último capítulo do livro, Antes tarde do que nunca.

O autor da biografia, Rafael Valesi, destaca a importância desse derradeiro capítulo, e os motivos pelos quais toda a obra deve ser devidamente devorada por qualquer fã de vôlei, por todos os profissionais que atuam na esfera esportiva e por todo estudante e professor de Educação Física que deseje ter uma compreensão mais aprofundada sobre seu papel para a sociedade brasileira. “Em nossas conversas, o Bebeto sempre deixou claro que o mais importante no livro era esse último capítulo, era a prioridade zero dele. Nessas páginas é que ele propõe um debate que pode servir como ponto de partida para a construção de uma política federal para o esporte”.

Depois de viver por um período na Califórnia como jogador e treinador do Santa Barbara Spikers, Bebeto assimilou o modelo esportivo que explica parte do imenso sucesso norte-americano nos Jogos Olímpicos.

“Nos Estados Unidos, as pessoas aprendem desde cedo a importância da atividade física. Mais do que se tornarem atletas, elas almejam ter saúde e qualidade de vida. O impacto dessa filosofia pode ser notado pelos quatro cantos do país. A quantidade de espaços para que os cidadãos americanos se exercitem é enorme, e para todas as idades”, diz Bebeto, à página 240 da biografia.

Com esse pensamento é que Bebeto comandou a pasta de Esportes e Lazer na gestão de Alexandre Kalil à frente da prefeitura de Belo Horizonte, iniciada após a vitória do ex-presidente do Galo na eleição de 2016. “Não vamos construir aqui nenhum Taj Mahal, nenhuma mega-arena esportiva em Belo Horizonte. Nosso objetivo é oferecer esporte à população da cidade, às crianças, aos idosos sedentários”, disse o então secretário ao Portal da Educação Física em novembro de 2017.

Desafeto de Carlos Arthur Nuzman, que foi o todo-poderoso presidente da Confederação Brasileira de Vôlei e do Comitê Olímpico do Brasil, Bebeto nunca economizou nas críticas às autoridades que endossaram as candidaturas brasileiras à organização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

“Se quisermos fazer do esporte escolar a estratégia de desenvolvimento do esporte no Brasil, teremos que investir em quadras, em estrutura. O que se gastou com Pan e Olimpíada seria suficiente para esse investimento. Perdemos uma oportunidade. Não poderíamos jamais sediar esses eventos antes de termos quadras em todas as escolas públicas do Brasil. Havia dinheiro para isso”, disse Bebeto, na mesma entrevista ao Portal da Educação Física.

O livro, de 256 páginas, foi lançado no dia 23 de setembro na Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio. O evento foi prestigiado por Bernardinho, que foi comandado por Bebeto na Atlântica-Boavista e na seleção brasileira, além de auxiliar do treinador nos Jogos Olímpicos de Seul, e também por ex-colegas dos tempos de seleção, como Fernandão e Antônio Carlos Moreno, entre muitos outros. O lançamento paulistano será na próxima terça-feira (22 de outubro), a partir das 19h, no Bar São Cristóvão (Rua Aspicuelta, 533), na Vila Madalena.

A editora carioca 7Letras colaborou com o projeto gráfico, mas o livro é fruto de uma produção independente. A tiragem inicial é de 500 exemplares, e 86 deles foram vendidos no lançamento do Rio. “Oferecemos o livro a diversas editoras. Elogiaram a qualidade do texto e ressalvaram a dimensão do personagem biografado, mas nenhuma se interessou pela publicação. Alegaram que, nesse contexto de crise, estão reduzindo o número de títulos lançados”, constata Valesi. Até hoje, segundo o jornalista, tampouco houve avaliação crítica da obra por parte da imprensa, talvez por conta dos seguidos cortes nas principais redações do país. “Não saiu ainda uma resenha do livro”, diz o autor, atestando em poucas frases o grau de definhamento que tomou conta tanto da produção editorial como do jornalismo do Brasil, um país que emburrece em meio a uma severa crise econômica.

É nesse país, em que imperam outras prioridades, que as palavras de Bebeto, agora impressas, propõem um início de debate sobre a importância do esporte social. “O Bebeto quis deixar esse delegado. O esporte deve, segundo ele, ser visto como parte importante de uma política de saúde. Com menos sedentarismo, o SUS gastará menos para tratar as doenças decorrentes desse mal. O Bebeto sempre deixou claro que o esporte colabora para o desenvolvimento do intelecto das crianças, ensina a elas valores do trabalho em equipe, da divisão de tarefas. Espero que as esferas governamentais usem o livro como ponto de partida para a construção de políticas públicas inclusivas ligadas ao esporte”, diz Valesi. Resta saber se a comunidade da Educação Física vai se interessar pela obra e se engajar na discussão. O livro é comercializado pelo site da Livraria da Travessa (travessa.com.br).