Multicampeão, Bob Burnquist defende skate nas aulas de Educação Física

25 de novembro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Revolucionou o skate ao inventar o switch, um novo jeito de andar, trocando as bases dos pés; conquistou 13 medalhas de ouro nos X Games, considerados a “Olimpíada dos Esportes radicais”; fera no Vert, foi também o primeiro a conseguir realizar com sucesso a manobra fakie (Switch com base nollie) 900º na Megarrampa.

Quem lê o parágrafo acima poderá exclamar “Grande Bob Burnquist”. De fato. Mas e o pequeno Bob Burnquist? O que pensava? Do que gostava?

“Quando estava na escola, não queria jogar bola. Mas era o que tinha na aula de Educação Física, e aí era o que tinha pra fazer. Eu queria andar de skate”.

Hoje, aos 43 anos de idade, Bob tem a chance de mudar o cenário das aulas de Educação Física de muitos garotos e garotas. O skatista recebeu um aporte de R$ 1,5 milhão da BV, marca de varejo do Banco Votorantim, para dotar dez escolas públicas de kits modulados para instalação em quadras poliesportivas e reformar quatro pistas no País.

No ano passado, Bob criou a empresa Burnkit, que fabrica tais kits. A ideia é capacitar skatistas para ministrar as atividades. A iniciativa gera empregos e aparentemente contraria a noção de que o aprendizado de manobras do skate deva ser sempre autodidático. “É legal ter um direcionamento”, diz o empreendedor.

Entusiasmado com o projeto, Bob defende que o skate esteja mais presente em locais nos quais não costumava penetrar. “Imagine uma quadra de tênis ocupada por dois jogadores: assim que acaba o jogo, podemos instalar os kits e colocar uns dez skatistas no mesmo espaço”.

Por falar em ocupação de espaço, mas agora de mídia, o skate está a mil por hora após ter entrado no rol dos esportes olímpicos. A edição de Tóquio, no ano que vem, será a primeira em que veremos competições do esporte das pranchas com rodinhas. A visibilidade da modalidade, como era de se esperar, cresceu amplamente. Até mesmo veículos de imprensa de viés mais conservador, que gostam de ocupar as páginas reservadas aos esportes olímpicos com modalidades como hipismo e vela, por exemplo, já abriram várias páginas com as peripécias de Pamela Rosa, Rayssa Leal, Luiz Francisco e Pedro Quintas, entre outros.

Trata-se de uma ótima oportunidade para pensar políticas públicas que levem o skate a um número expressivo de escolas brasileiras. Bob ocupou por dois anos o cargo de presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSK). Decidiu deixar a burocracia e o escritório da entidade para trás em junho deste ano. Numa nota, mencionou a vontade de dedicar mais horas diárias à prática do esporte como motivo para a decisão. “Fui (à CBSK) e voltei. Não nasci com esse sonho (de ser dirigente esportivo). Quando me propus a ser presidente da Confederação, meu propósito era reparar uma injustiça. Estava fluindo dinheiro público, proveniente da Lei Agnelo/Piva, para uma entidade que não tem nada a ver com o nosso esporte (Confederação Brasileira de Hóquei sobre Patins, CBHp). Como tenho poder de imagem e sou um profissional atuante, resolvi ser presidente. Tentei ser neutro e não recebia salários, assim como todos os membros da diretoria que assumiu. O importante é que montei uma equipe incrível, com o Eduardo Musa, que era vice-presidente e me sucedeu na presidência, vários diretores e o Sandro Dias. Na verdade, eu estou ali na Confederação, de uma certa forma. Quis apenas ajeitar a modalidade, botá-la num trilho correto. Ainda sou novo, sou atleta competitivo, e talvez houvesse aí um conflito de interesses. Além disso, tenho projetos privados”, disse o atleta ao Portal da Educação Física.

A experiência como dirigente, diz Bob, foi valiosa até mesmo para capacitá-lo a elaborar críticas mais procedentes. “Sou um skatista cidadão. Fiz o que fiz para acertar uma inhaca que foi criada (destinação de verba para a CBHp). Agora entendo melhor o papel de um dirigente, sei das dificuldades. E isso é válido para qualquer um. Antes de apontar o dedo para quem quer que seja, devemos exercer nossas responsabilidades como cidadãos, e carregá-las como se fosse uma mochila”.

Nessa mesma linha, Bob é cauteloso ao ouvir uma pergunta que poderia induzi-lo a criticar o poder público por não construir políticas esportivas capazes de aproveitar o poder inclusivo do skate. “Não tenho um entendimento profundo da política brasileira. Mas gosto de lembrar que o velho e bom presidente John Kennedy já dizia que não deveríamos perguntar o que o país pode fazer por nós, mas o que podemos fazer pelo país. O skate é um monte de coisas: é esporte, é arte de rua e liberdade de expressão. Quando um grupo de skatistas me procura para que eu endosse a luta deles pela criação de uma pista, eu digo a eles para que ocupem uma praça pública e mostrem qual é o tamanho deles, o quão numerosos são. Feito isso, podem lançar abaixo-assinados, pedir o apoio dos pais e ir à Prefeitura para pressionar por espaços para a prática do skate. Essa é a ideia do skatista cidadão. Não podemos ficar parados esperando que um governo faça tudo por nós”, diz Bob, que é filho de mãe brasileira e de pai norte-americano, e tem dupla cidadania.

E por que, afinal de contas, o skate deve ganhar apoio e ser praticado nas escolas, nas aulas de Educação Física?

“O skate contribuiu muito para a formação do meu caráter, e certamente muitos skatistas podem dizer o mesmo. O skate me ensina muito até hoje. Caiu? Levantou. Tentamos aprender a executar manobras por horas, às vezes dias ou meses até conseguir. É perigoso? Sim, mas e daí? Viver é perigoso, atravessar a rua é perigoso. Já quebrei mais de 40 ossos ao longo da vida. Quando isso me acontecia, telefonava para a minha mãe e avisava que estava indo ao hospital, para tranquiliza-la. Sei que o skate é uma atividade individual criativa, que já é praticada há gerações. Por todos esses motivos, acredito que o skate deve sim fazer parte das aulas de Educação Física”.